
Desde a estreia profissional em 2011, na websérie Lado Nix, Gabriella Di Grecco constrói uma carreira marcada por escolhas consistentes e atenção cuidadosa ao processo artístico. Atriz e cantora, ela passou pela televisão, pelo teatro musical e pelo streaming, ganhando reconhecimento do público em produções como Além do Tempo, da Globo, e Cúmplices de Um Resgate, no SBT.
A projeção internacional veio com Bia, série argentina exibida em diversos países, na qual interpretou Ana e Helena Urquiza — duas identidades da mesma personagem — ao longo de mais de 120 episódios. O trabalho exigiu um mergulho profundo em temas sensíveis, como o trauma e o transtorno de estresse pós-traumático, e dialogou diretamente com vivências pessoais da atriz.
“Com certeza, uma das coisas mais legais da minha profissão é que quanto mais você vive, mais repertório você tem para trazer para os personagens realidade e mais vida. No caso de ‘Disney Bia’, eu interpretava a mesma personagem em duas fases da vida, quando a personagem era Helena e depois, quando a personagem se chamava Ana. Nesse caso especificamente, essa ruptura ocorreu por conta de um trauma muito importante. Helena, aos 17 anos, sofreu um grave acidente no qual parte da sua memória foi excluída. E durante muito tempo, essa memória foi sendo reconstituída com flashes desse acidente e flashes de momentos difíceis que ela viveu pós-acidente. Isso, entre outras coisas, são característicos do que a gente chama de transtorno de estresse pós-traumático”, relata.
A artista explica que viveu uma experiência semelhante aos 21 anos e que esse repertório pessoal foi fundamental para a construção da personagem, sempre com responsabilidade e apoio profissional.
“E eu, Gabriella, vivi isso numa fase importante da minha vida, aos 21 anos. Ter essa consciência e essa vivência me ajudou a trazer mais estofo para essa personagem, incluindo conversas e rodas de leituras com os escritores e autores da série, trazendo mais profundidade e consistência para essa personagem, ainda que se tratasse de um produto Disney. Em função da minha vivência pessoal com o transtorno de estresse pós-traumático, fiz muita terapia para entender o que é esse fenômeno, lidar com ele e entrar num processo de cura.”
Ela destaca ainda o acompanhamento da especialista Magda Pearson, que contribuiu tanto em seu processo pessoal quanto na criação da personagem. Gabriella observa que pessoas que passam por esse tipo de trauma apresentam sintomas físicos e psicológicos semelhantes, como a revivência constante do episódio traumático, algo que também aparece na trajetória de Helena ao longo da série.
“Durante os 120 capítulos de Disney Bia, é possível enxergar isso em toda a história de Helena, enquanto Ana, nesse momento. E também é possível ver essa cura acontecendo de uma forma muito bonita e emocionante no capítulo final da segunda temporada. Seria muito interessante haver uma terceira temporada para que a gente pudesse testemunhar como é o processo final de cura de uma pessoa que viveu por essa situação.”
No teatro musical, Gabriella também construiu uma trajetória sólida. Ela protagonizou Cinderella, interpretando a princesa da Disney, e Cinza, de Jay Vaquer. Mais recentemente, esteve em Elvis: A Musical Revolution, vivendo Dixie Locke e Priscilla Presley, e em Uma Babá Quase Perfeita, como a filha mais velha do personagem de Eduardo Sterblitch.
Sobre a construção de personagens tão distintos, a atriz reforça que o ponto de partida é sempre a verdade cênica.
“A base é sempre a mesma, viver aquilo como se fosse verdade. Curiosamente, o nosso cérebro, ele não percebe a diferença entre o que é realidade e o que é imaginação. O nosso corpo automaticamente reage a esses estímulos. No caso de todas essas personagens, a única coisa que diferencia de fato é que história eu estou contando para trazer essa imaginação à realidade do corpo físico.”
Ao longo da carreira, Gabriella desenvolveu um processo próprio de criação, que envolve memórias sensoriais, observação do cotidiano e referências afetivas. Com formação em Propaganda e Marketing e estudos em artes performáticas e teatro musical, incluindo cursos em Nova York e Buenos Aires, ela construiu um repertório que amplia sua escuta artística sem confundir vida pessoal e ficção.
O cuidado com os limites emocionais aparece com ainda mais força quando a atriz fala sobre autocuidado e preservação da saúde mental.
“Um dos pilares para mim é a administração de energia durante o processo. Temos a energia que despendemos para viver esses personagens, viver essas vidas, e temos também o desprendimento de energia para viver a nossa vida.”
Ela explica que até os aplausos cumprem uma função simbólica importante no teatro.
“Na verdade, os aplausos são uma sinalização sonora e energética de que aquela vivência da ficção chegou ao fim e o ator pode voltar a ser ele mesmo e viver dentro da sua própria energia.”
Entre as técnicas que utiliza, Gabriella destaca a programação neurolinguística, especialmente em trabalhos mais densos, como Cinza.
“Quando fiz Cinza junto com Jay Vaquer, a minha personagem sofria de esquizofrenia muito severa e vivia situações extremas de abuso mental, psicológico e até mesmo físico. […] Antes de entrar em cena, eu entrava na energia daquela personagem e quando terminava o espetáculo, eu entrava num estado meditativo de me despedir daquela personagem, de me despedir daquela vivência e voltar à Gabriella do cotidiano.”
Por fim, a artista deixa uma orientação para quem está começando na profissão.
“O que eu posso dizer para os novos atores que estão começando e os artistas em geral é: procure e estude o maior número possível de técnicas e guarde com você a que mais te acalanta e a que mais preserva a sua saúde mental. No meu caso, a programação neurolinguística é uma das técnicas que melhor funcionam para mim.”
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