
A inteligência artificial se tornou parte da experiência cotidiana. Ela organiza agendas, responde perguntas, sugere caminhos. O que muda não é apenas a velocidade da resposta, mas o lugar que essa resposta passa a ocupar na vida psíquica.
Há uma diferença fundamental entre responder e escutar. A resposta encerra. A escuta sustenta. Quando sistemas automatizados passam a ocupar o espaço da orientação humana, esse intervalo desaparece. O silêncio que permite elaboração deixa de existir.
Na clínica, o sofrimento não se apresenta como um problema técnico. Ele surge como excesso, impasse, repetição. Não pede solução imediata. Pede presença. Quando isso é ignorado, a palavra perde sua função simbólica e se converte em instrução.
A tecnologia não reconhece impacto. Não reage ao efeito do que produz. Ainda assim, suas respostas podem ser absorvidas como conselhos confiáveis. Esse descompasso cria uma situação delicada, em que a autoridade não nasce do vínculo, mas da disponibilidade constante.
Esse movimento revela algo sobre nosso tempo. Existe uma pressa em resolver o que exige permanência. Uma tendência a terceirizar a responsabilidade psíquica em nome da fluidez. Quanto mais rápida a resposta, menor o espaço para reflexão.
O risco não está na máquina, mas na transferência simbólica. Quando o sujeito deixa de sustentar o próprio processo de decisão, algo se rompe. Não se trata de controle técnico, mas de referência interna.
A inteligência artificial pode organizar informações, facilitar fluxos e ampliar acesso. O que ela não pode fazer é ocupar o espaço da consciência sem produzir perda. Nenhum sistema automatizado substitui o trabalho que nasce da escuta, do limite e da responsabilidade.
Cuidar da saúde mental, hoje, implica reconhecer que nem toda pergunta precisa de resposta imediata. Algumas pedem tempo. Outras pedem presença. Quando isso se perde, o que se automatiza não é apenas a linguagem, mas a própria relação consigo.
- Neste artigo:
- Alma Clinica,
- colunista GLMRM,
- maria klien,