
O Brasil iniciou a 1ª Pesquisa Nacional de Saúde Mental. Pela primeira vez, o país começou a produzir um levantamento oficial para entender como está a saúde mental da população adulta, quais transtornos aparecem com mais frequência, como as pessoas acessam tratamento e de que maneira esse sofrimento interfere na vida cotidiana.
Eu vejo esse momento como uma mudança importante. Não porque o dado resolva o sofrimento, mas porque ele muda o lugar da responsabilidade. Quando algo vira dado, deixa de depender apenas da percepção individual. Deixa de ser uma queixa solta, uma impressão de consultório, uma conversa entre amigos, uma crise dentro de casa, um afastamento no trabalho ou um silêncio carregado. Passa a existir como evidência pública.
Mas há um ponto que me preocupa: o Brasil está falando mais sobre saúde mental, mas isso não significa que esteja cuidando melhor dela.
Hoje, palavras como ansiedade, depressão, trauma, burnout, autocuidado e limite circulam com facilidade. Elas estão nas redes sociais, nos ambientes profissionais, nas conversas familiares e nos conteúdos de bem-estar. Essa circulação tem valor, porque ajuda a reduzir silêncio e vergonha. Mas também pode criar uma ilusão: a de que nomear um sofrimento é a mesma coisa que elaborá-lo. Não é.
Saber dizer “estou ansioso” não significa compreender o que sustenta essa ansiedade. Reconhecer um trauma não significa atravessá-lo. Falar sobre autocuidado não significa conseguir reconstruir uma rotina possível. Muitas vezes, a pessoa aprende a linguagem da saúde mental, mas continua sozinha diante da própria angústia.
Na clínica, encontro pessoas que chegam com muita informação e pouca escuta. Sabem descrever sintomas, repetem conceitos, acompanham conteúdos, identificam padrões. Ainda assim, não conseguem dormir, descansar, se vincular, tomar decisões, sustentar presença ou sair de repetições que causam sofrimento. Isso mostra que informação é porta de entrada, não processo de cura.
Cuidar de si não é performar equilíbrio. Não é parecer bem. Não é transformar a vida em uma sequência de técnicas para continuar funcionando dentro da mesma lógica que adoece. Cuidar de si exige uma pergunta mais profunda: o que em mim pede atenção, o que na minha história retorna como sintoma e o que no meu modo de viver se tornou insustentável?
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com condições de saúde mental no mundo. Esse dado precisa nos fazer pensar para além do diagnóstico. Estamos falando de sofrimento em escala coletiva. De pessoas que trabalham, produzem, cuidam, criam filhos, sustentam casas, estudam, envelhecem e seguem tentando funcionar enquanto algo dentro delas desmorona.
Por isso, quando o Brasil começa a medir saúde mental, eu entendo que a pergunta mais importante não é apenas “quantas pessoas adoeceram?”. A pergunta também precisa ser: que tipo de vida estamos considerando normal?
Normalizamos a exaustão. Normalizamos a pressa. Normalizamos relações frágeis. Normalizamos a solidão cercada de telas. Normalizamos o medo de parar. Normalizamos a ideia de que descanso precisa ser merecido. Normalizamos o corpo dando sinais como se fossem ruídos inconvenientes. Depois, quando a pessoa adoece, perguntamos o que há de errado com ela.
Talvez a pesquisa nacional ajude o país a fazer outra pergunta: o que há de errado no modo como estamos vivendo? Isso não significa retirar a responsabilidade de cada sujeito. Pelo contrário. A clínica só acontece quando alguém se implica na própria história. Mas implicação não é culpa. A pessoa precisa participar do próprio cuidado, mas esse cuidado também depende de acesso, tempo, rede, condições materiais, políticas públicas e ambientes menos adoecedores.
Saúde mental não pode ser reduzida a um tema de consultório, nem transformada em produto de consumo emocional. Ela envolve escuta, tratamento, continuidade, vínculos e coragem para mexer em estruturas pessoais e coletivas.
A medição já começou. Agora será preciso decidir o que fazer com o que aparecer. Porque ter dados e continuar normalizando o adoecimento será uma escolha.
- Neste artigo:
- Alma Clinica,
- colunista GLMRM,
- corpo e alma,
- maria klien,