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Foto: Reprodução/Redes Sociais

Dez dias antes de completar 80 anos, João Bosco presenteia o público com “Horda”, álbum gravado ao vivo em Hamburgo em julho de 2025 ao lado da NDR BigBand, uma das mais respeitadas orquestras de jazz da Alemanha. O disco chega às plataformas digitais no Brasil em 3 de julho, enquanto a edição em CD circula pela Europa e pela Ásia pelo selo Enja Records — a mesma gravadora que, em 2008, lançou “Senhoras do Amazonas”, primeiro encontro do cantor mineiro com essa mesma big band.

O álbum marca uma novidade histórica para a NDR BigBand: pela primeira vez, a orquestra foi conduzida por um maestro brasileiro. O trombonista Rafael Rocha assina os arranjos e a regência, e é em grande parte responsável pelo fôlego novo que percorre as 12 faixas do disco. A orquestra reúne seis trombonistas, seis saxofonistas e um naipe de trompetistas, e sua precisão coletiva se entrelaça com o violão percussivo de Bosco, a bateria do convidado Kiko Freitas e o piano jazzístico de Florian Weber.

O repertório percorre cinco décadas do cancioneiro de Bosco, com músicas que vão de “Caça à raposa” e “Incompatibilidade de gênios”, ambas compostas com Aldir Blanc nos anos 1970, até “Samba sonhado”, parceria com o filho Francisco Bosco lançada em 2024. A faixa-título, com mais de sete minutos e meio, sintetiza bem o que Bosco define como afro-jazz-brasileiro: uma fusão onde a ginga carioca do samba se encontra com a arquitetura sonora de Minas Gerais e com as tradições musicais de raiz africana.

Não é um álbum para ser consumido de passagem. As faixas têm longa duração e exigem escuta atenta. Em “Incompatibilidade de gênios”, o piano de Weber abre espaço para uma introdução contemplativa antes de o samba assumir o comando com passagens jazzísticas que se estendem por mais de sete minutos. Em “Sinhá”, parceria com Chico Buarque, há um prelúdio erudito ao piano que antecede a entrada da canção. “Transversal do tempo” ressurge como balada de andamento sereno, enquanto “Caça à raposa” carrega a tensão original de uma canção de resistência escrita nos tempos da ditadura.

Nem tudo é swingue. O álbum alterna momentos de exuberância rítmica com passagens de maior recolhimento, sem que a identidade de Bosco se perca em nenhum deles. Em “Cabeça de nego”, composição que deu nome a um disco seu há 40 anos, o artista transita entre o samba e o jongo com uma brasilidade que não se intimida diante da grandiosidade da orquestra. O efeito é o oposto: os dois universos se potencializam mutuamente.

A sequência do repertório não é aleatória. “Cabeça de nego” e “Água, mãe água” aparecem lado a lado porque, nas duas canções, Bosco puxa o mesmo fio que o conecta a Clementina de Jesus e a Pixinguinha, figuras que representam a ligação sonora e cultural entre o Brasil e a África. Essa costura revela uma consciência de obra que atravessa décadas sem perder coerência.

Em texto para o encarte do álbum, Bosco sintetiza: “Este álbum também é uma homenagem aos grandes criadores de grooves inesquecíveis. Miles Davis, John Coltrane, João Gilberto e Tom Jobim.” A afirmação ecoa com força quando se ouve “Samba sonhado”, composta com inspiração direta na bossa definidora de João Gilberto, e que aparece aqui em sua primeira regravação.

“Horda” é o primeiro de dois álbuns previstos para as comemorações dos 80 anos do artista, que faz aniversário em 13 de julho. O segundo, “Amigos novos e antigos”, ainda está em produção e deve reunir Bosco com nomes de diferentes gerações da música brasileira. Por ora, é este disco gravado em Hamburgo que dá a medida do que significa cinco décadas de um cancioneiro construído com extrema coerência — e que soa, ao lado de uma grande orquestra alemã, mais vivo do que nunca.

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