
Durante muitos anos, a conversa sobre estética esteve concentrada no universo da vaidade. Hoje sabemos que ela também pertence ao campo da saúde mental. Não é a maquiagem, o corte de cabelo, a roupa ou qualquer procedimento que representa um problema. O que merece atenção é a motivação que existe por trás dessas escolhas. Quando alguém acredita que precisa modificar continuamente a própria imagem para sentir que merece respeito, afeto ou reconhecimento, deixa de exercer uma escolha livre e passa a responder a uma pressão social.
As redes sociais ampliaram esse fenômeno de uma forma que nunca experimentamos antes. Nossa referência deixou de ser o círculo de convivência e passou a incluir milhares de pessoas que apresentavam apenas momentos cuidadosamente selecionados. A comparação deixou de acontecer ocasionalmente e passou a ocupar um espaço permanente na rotina.
O cérebro não diferencia com facilidade aquilo que é produzido para consumo daquilo que representa a realidade. Quanto mais somos expostos a imagens semelhantes, mais passamos a acreditar que elas representam o normal. E, quando nossa vida não corresponde a esse padrão, surge a sensação de insuficiência. É nesse ponto que a saúde mental começa a pagar a conta.
Vejo mulheres que não conseguem aproveitar um encontro porque estão preocupadas com a roupa. Outras deixam de frequentar determinados lugares porque não se sentem confortáveis com o próprio corpo. Algumas adiam fotografias, viagens, relacionamentos ou oportunidades profissionais esperando atingir uma aparência considerada ideal. Enquanto isso, a vida acontece.
Nunca tivemos tantos recursos voltados para melhorar a aparência e, ao mesmo tempo, tantas pessoas insatisfeitas com a própria imagem. Isso mostra que o problema não está no espelho.
Quando a autoestima depende exclusivamente da aparência, ela se torna extremamente vulnerável. O envelhecimento, as mudanças hormonais, a gravidez, o estresse, as oscilações de peso e tantas outras experiências naturais passam a ser interpretadas como fracassos pessoais.
Mas o corpo nunca foi um projeto destinado à perfeição. Ele acompanha a história que vivemos. Cuidar da imagem pode fazer parte do autocuidado. O risco aparece quando acreditamos que nossa identidade depende exclusivamente dela.
Boa parte da nossa energia se perde na tentativa de corresponder a expectativas que nem sequer escolhemos. Quando essa cobrança perde força, conseguimos olhar para nós mesmos com menos comparação e mais honestidade. A autoestima vai sendo construída nesse movimento diário, inclusive nos dias em que o espelho não devolve a imagem que gostaríamos de ver.
- Neste artigo:
- Alma Clinica,
- colunista GLMRM,
- maria klien,