Quando vi os novos óculos da Meta associados a Kylie Jenner, o primeiro aspecto que me chamou a atenção não foi a tecnologia. Foi a facilidade com que ela desaparecia. A armação oval ocupava o centro da campanha como um item de moda. A câmera de 12 megapixels quase se dissolvia no desenho, seis microfones permaneciam recolhidos na estrutura e a inteligência artificial respondia com a voz da celebridade.

Vendido a partir de 399 dólares, o Meta Starfire Kylie Edition grava vídeos em 3K, fotografa, faz chamadas, traduz conversas e executa comandos sem o uso das mãos. O lançamento mostra uma mudança na forma como passamos a perceber os dispositivos de captação. A máquina perde sua aparência habitual e se apresenta como parte do corpo, do estilo e da imagem que alguém deseja construir.

Um celular erguido na direção de outra pessoa ainda anuncia a intenção de registrar aquela cena. Os óculos podem permanecer no rosto durante uma conversa, um passeio, uma festa ou um encontro. Sua forma conhecida reduz o estranhamento. O desenho desperta desejo, enquanto a celebridade empresta ao produto uma familiaridade construída ao longo dos anos. A capacidade de observar, gravar e transmitir continua ali, mas se torna menos perceptível.

Essa diferença interfere na relação psíquica com o ambiente. Costumamos ajustar nosso comportamento quando identificamos uma lente apontada para nós. Podemos nos afastar, pedir que o registro seja interrompido ou decidir se queremos participar. Quando o mecanismo de captação se mistura a um objeto de uso cotidiano, essa possibilidade de escolha fica comprometida antes mesmo de ser exercida.

Os efeitos dessa assimetria já saíram do campo da hipótese. Em Portugal, uma reportagem da revista Piauí mostrou o caso de um brasileiro que abordava mulheres usando óculos Ray-Ban Meta. As conversas eram publicadas no Instagram e no TikTok para mais de 175 mil seguidores. O vídeo com maior alcance chegou a 4,4 milhões de visualizações.

Em Barcelona, a polícia investigou um homem que utilizava um equipamento semelhante para registrar encontros e divulgar um curso de sedução. Entre 329 publicações encontradas em seus perfis, 239 entrevistas foram examinadas. Nas imagens, mulheres falavam sobre nacionalidade, trabalho, local de residência e rotina sem demonstrar conhecimento de que estavam sendo filmadas.

Nenhum desses casos envolve o Starfire recém-lançado. Ainda assim, ambos ajudam a compreender o tipo de desequilíbrio que tende a crescer quando lentes discretas passam a circular sem que todos saibam reconhecê-las. Quem inicia uma conversa pode imaginar que aquele momento terminará ali. Mais tarde, descobre que seu rosto, sua voz e seus gestos foram arquivados, editados e apresentados a uma audiência que nunca escolheu.

Para mim, consentimento não pode ser tratado como uma autorização burocrática buscada depois da gravação. Ele separa a participação em um encontro da apropriação da presença por terceiros. Quando alguém perde o direito de decidir sobre a circulação da própria imagem, perde também parte da autoria sobre a maneira como aparece no mundo.

Como psicóloga, observo que uma exposição desse tipo pode provocar vergonha, medo, hipervigilância e autocensura. Depois de ter sua intimidade publicada, a vítima talvez passe a rever a roupa que usava, o trajeto percorrido, a fala ou a forma como respondeu a um desconhecido. Aos poucos, pode assumir para si a responsabilidade de antecipar uma decisão tomada por quem controlava a gravação.

A ameaça deixa de estar restrita ao conteúdo que já circulou. Ela alcança a relação com os lugares e com as pessoas. A rua, o café, o transporte ou uma festa passam a carregar a suspeita de que qualquer olhar pode esconder uma lente. Conversas comuns começam a ser atravessadas pelo receio de sobreviverem fora do contexto que lhes dava sentido.

É nesse cenário que a moda exerce um papel que vai além da aparência. Ela organiza modos de se apresentar, reconhecer grupos e experimentar pertencimento. Um objeto associado a determinado universo oferece mais do que sua função. Promete acesso a uma linguagem compartilhada e comunica que seu usuário participa do tempo em que vive.

Questionar esse acessório pode soar, para alguns, como recusa ao futuro ou à comunidade formada ao redor dele. A vigilância deixa de depender apenas da imposição e encontra entrada na vida cotidiana pelo gosto, pela adesão e pela vontade de participar. O controle passa a chegar embalado como escolha pessoal.

A expressão “Hot Surveillance Summer”, usada pela jornalista Taylor Lorenz ao acompanhar a repercussão dos novos óculos, resume parte dessa transformação. Dar à vigilância o nome de um verão produz o efeito de uma brincadeira de internet, embora altere o peso cultural da palavra. Um termo ligado a governos, policiamento, espionagem e controle social recebe a atmosfera de uma tendência passageira. O perigo ganha leveza e promessa de participação coletiva.

Aquilo que poderia interromper o desejo começa a alimentá-lo. Ser visto se aproxima de uma demonstração de presença. Registrar desconhecidos corre o risco de se tornar parte de uma performance. A fronteira entre viver uma experiência e produzir conteúdo sobre ela fica mais difícil de identificar.

Reconheço aí o panóptico digital descrito por Byung-Chul Han. O modelo clássico dependia de uma torre central, de onde poucos observavam muitos. Nas plataformas, essa arquitetura se distribui entre os próprios usuários. Nós nos expomos, acompanhamos os outros e entregamos ao sistema a matéria usada para medir comportamentos, preferências e relações.

A obediência adquire aparência de autonomia, enquanto o controle se oferece como conveniência, diversão ou acesso. Com os dispositivos vestíveis, esse processo chega ainda mais perto do corpo. A lente acompanha os movimentos e transforma o campo de visão de alguém em uma fonte contínua de imagens, vozes e informações sobre o ambiente.

As redes sociais ampliam o desequilíbrio ao fornecer circulação, público e possibilidade de renda. Quem controla o equipamento escolhe o enquadramento, a edição e o momento da postagem. Já o indivíduo registrado talvez nem saiba que foi convertido em conteúdo.

O encontro deixa de pertencer apenas a quem o viveu e passa a integrar uma cadeia econômica feita de visualizações, seguidores, anúncios, cursos e venda de aparelhos. A privacidade se torna mercadoria em duas etapas. Primeiro, quando a experiência alheia fornece matéria para uma publicação. Depois, quando esse material contribui para divulgar o instrumento empregado na captação.

A escolha de Kylie Jenner como rosto do produto acrescenta outra dimensão. Sua imagem reúne confiança parasocial, intimidade mediada e capacidade de orientar hábitos de consumo. Esse capital afetivo ajuda a tornar a lente menos ameaçadora para parte do público.

Não atribuo a Kylie, às influenciadoras ou às consumidoras a responsabilidade por abusos praticados por terceiros. Meu interesse está na estratégia que coloca uma mulher no centro da publicidade sem que essa presença garanta proteção a quem poderá ser filmado. A representatividade comercial, sozinha, não redistribui o poder de escolher, recusar, publicar ou lucrar.

Também considero importante reconhecer as utilidades desses óculos. Tradução, comunicação sem as mãos, orientação e recursos de acessibilidade podem ampliar a autonomia de pessoas com deficiência visual ou auditiva. Benefícios e riscos convivem no mesmo dispositivo, o que exige uma discussão capaz de acolher essa ambivalência.

A nova linha possui um indicador luminoso de captação. Segundo a Meta, o equipamento deixa de filmar quando o LED é coberto ou danificado. A medida cria uma barreira, mas o sinal só protege quem sabe identificá-lo. Perceber que existe um registro em andamento tampouco equivale a concordar com ele.

Proteção envolve o desenho do produto, as regras de publicação, os canais de denúncia e a responsabilização de usuários e empresas. Também depende da construção de normas sociais que devolvam às pessoas a possibilidade de compreender o ambiente em que estão entrando.

No Reino Unido, restaurantes, clubes, pubs e teatros já passaram a restringir o uso desses óculos para preservar clientes, trabalhadores e espectadores. Vejo nessas decisões uma tentativa de restituir legibilidade aos espaços. Antes de conversar, circular ou permanecer em determinado local, cada pessoa precisa saber se sua presença poderá ser transformada em arquivo.

Entendo a privacidade como parte de nossa infraestrutura psíquica. Precisamos de momentos que não serão armazenados, avaliados ou submetidos ao julgamento de uma audiência. A vida cotidiana depende dessas zonas de esquecimento, nas quais o rosto não se converte em dado, a conversa não vira matéria-prima e a presença pode simplesmente atravessar o mundo.

Quando volto à armação oval da campanha, penso justamente no que quase não aparece. A câmera pode desaparecer no desenho dos óculos. O direito de consentir não deveria desaparecer com ela.

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