Pedro Goifman se prepara para acompanhar a estreia mundial de A Professora de Francês no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha. Dirigido por Ricardo Alves Jr., o longa integra a mostra competitiva Horizontes Latinos e coloca o ator no papel de Tomás, uma das figuras centrais de uma seita que atravessa a história.
A produção parte do suspense, do thriller psicológico e do terror social para abordar temas como intolerância de gênero, fanatismo religioso, homofobia e violência. A participação em San Sebastián marca mais um momento importante da trajetória de Goifman no cinema, pouco depois de ele apresentar Adrenalina, seu primeiro curta como diretor, no Festival Internacional de Curtas de São Paulo.
“Cresci fazendo cinema autoral independente, e estar em um filme que debata questões políticas relevantes, com um diretor excelente, em um festival de tamanha projeção é um divisor de águas. Fico feliz que o cinema brasileiro esteja em um bom momento. Espero que isso seja um pontapé inicial para que seja desenvolvido um projeto cultural sólido para o país.”
Um terror atravessado por questões sociais
Coprodução entre Brasil, França e Portugal, A Professora de Francês acompanha Graça, vivida por Grace Passô. A personagem mora em Belo Horizonte com a namorada francesa, Clara, interpretada por Jehnny Beth.
Depois de uma emergência de saúde envolvendo o pai, Graça retorna à casa onde cresceu. No local, reencontra antigos vizinhos que passaram a liderar uma seita na comunidade. Aos poucos, porém, o acolhimento inicial se transforma em uma ameaça cada vez mais próxima.
É nesse núcleo que surge Tomás. O personagem de Pedro Goifman acredita profundamente nos valores do grupo e carrega um dom que transita entre o natural e o sobrenatural.
“Ele flutua em zonas cinzentas entre a dicotomia do bem e do mal. Tomaz não é uma dessas figuras arquetípicas que vemos por aí, inclusive na vida real. Tomaz é mais um universo do que uma ideia fixa.”
A construção do personagem também passou pela atmosfera proposta pelo longa e pela maneira como o filme utiliza elementos do terror para tratar de questões presentes na sociedade.
Sobre o impacto do projeto, Goifman conta: “O que mais me chamou atenção foi a ousadia. Eu achei o filme poderoso, hipnotizante, encantador e propositalmente horroroso. Tentei trazer isso para o Tomaz.”
Durante a preparação, o ator criou uma playlist para o personagem e estabeleceu uma rotina de assistir a um filme de terror por dia. Entre suas referências estavam O Bebê de Rosemary, Corra! e Nós.
“Meu ponto de partida é sempre o roteiro. Eu leio, releio, pergunto pra ele, debato com ele, brigo com ele, faço as pazes. E aí as respostas surgem.”
Além de Pedro Goifman, o elenco reúne Grace Passô, Jehnny Beth, Elisa Lucinda, Bárbara Colen, Rômulo Braga, Eduardo Moreira e Rodger Rogério. O longa é produzido por Thiago Macêdo Correia, da EntreFilmes, em coprodução com França e Portugal.
No Brasil, a distribuição ficará a cargo da Embaúba Filmes, com estreia prevista para 2027.

Da atuação para a direção
A passagem por San Sebastián acontece pouco depois de Goifman experimentar outro lugar dentro do cinema. Em agosto, ele apresentou Adrenalina no Festival Internacional de Curtas de São Paulo. O projeto marca sua estreia oficial na direção de um curta concebido para as telas de cinema.
Jean-Claude Bernardet, que morreu em julho de 2025, protagoniza a produção em um de seus últimos trabalhos como ator. No filme, ele interpreta um médico que desenvolve uma compulsão por roubar bicicletas.
A ideia nasceu durante um almoço de Pedro com os pais. Ao observarem um homem vestido como ciclista, começaram a imaginar alguém que utilizasse justamente aquela aparência para cometer os furtos.
“Adrenalina sempre foi ele, nunca houve um debate sobre isso. A gente sempre conversava de cinema e de ideias e sempre quis fazer um projeto com ele.”
A relação entre Pedro e Bernardet começou ainda durante a infância do ator. Mais tarde, os dois se aproximaram nos bastidores de Periscópio, rodado na casa da família de Goifman. Bernardet costumava brincar que havia trabalhado primeiro com os pais de Pedro, depois com ele e que gostaria de viver o suficiente para atuar também com um futuro filho seu.
“A principal herança que ele deixou para mim como artista foi essa garra por fazer, o tesão pela investigação artística, a sede que nunca acaba.”
Ator desde a infância, Pedro Goifman passou a encontrar também na escrita e na direção novas maneiras de investigar o cinema. A experiência atrás das câmeras, no entanto, não significa um afastamento da atuação, mas uma ampliação das possibilidades dentro de sua trajetória artística.
“Quero que o público reaja às obras, não a mim. Quero seguir investigando de maneira livre. Como ator, diretor, roteirista, o que for. Seguir pesquisando arte. E quero que essa arte impacte. Faça o público sentir medo, sentir leveza, viajar, se teletransportar, rir, e se perguntar. Desnaturalizar o que está naturalizado e trazer mais questões do que respostas”, finaliza.
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