
Conheço o Glamurama desde os primórdios, lá no início dos anos 2000, quando acompanhava de perto as histórias animadas, contadas com bossa pela Joyce e sua turma esperta de Glamuretes. Na época, vivia trocando figurinhas com diversas colegas da moda, que trabalhavam na histórica redação. Um quarto de século depois, fiquei superfeliz com o convite de ter um espaço semanal por aqui.
Quem me conhece sabe que tenho sempre umas 2.357 abas abertas ao mesmo tempo, na cabeça e na vida. De alguma forma, todas elas passam pela moda e pela minha eterna curiosidade em entender comportamentos e tendências.
Nos últimos anos, essa vontade de saber mais me levou a estudar antropologia e mergulhar no foresight, um campo de estudos de futuros que, em vez de tentar prever o que vem pela frente, se interessa por ler os sinais do presente e usá-los para navegar incertezas de longo prazo.
Pode parecer um papo meio complicado – e é!- mas foi uma virada de chave no meu jeito de enxergar o mundo.
É com essa lente nova, ajustada pra um olhar de horizontes menos efêmeros, que vai muito além do hype, que nasce essa coluna.
Sejam bem-vindos!
E, como a ideia aqui é falar de moda, claro, mas não só, achei por bem começar com uma marca que sabe muito bem navegar as margens do universo fashion, a Prada.
Eu estava em Milão durante a última semana de moda, em setembro. No dia do desfile da Prada, tinha justamente decidido tirar do armário uma saia vintage, da passarela de 1998 da marca, que comprei quando morava em Florença.
Minha sintonia com o zeitgeist estava boa, porque, naquele dia, Miuccia Prada desfilou sessenta e três looks a partir de uma mesma peça: a saia. “Em teoria, é um retângulo”, disse em uma entrevista logo após o show. Uma única forma, repetida em inúmeras interpretações, todas de alguma maneira com a cara de Miuccia.

A imagem ficou comigo porque ela vai na direção oposta do excesso que (des)organiza boa parte da nossa vida hoje. Informação infinita, drops e collabs aos montes, zilhões de referências, mais e mais de tudo, o tempo todo.
E Miuccia fez menos. Escolheu uma coisa e ficou.
Não é exatamente novidade na Prada. Em 2004, a marca já tinha transformado a saia em objeto de investigação, na exposição itinerante Waist Down, que tive a sorte de ver em NY.
Aliás, por falar em exposição, vale lembrar que a marca mantém há mais de três décadas a Fondazione Prada, um espaço de arte, cinema, arquitetura e pesquisa. Inclusive, durante essa passagem por Milão, vi Dash, uma mostra multimídia incrível, da chinesa Cao Fei, lá na Fondazione. Na sequência, fui à ótima exposição de Hito Steyerl, no Osservatorio, outro espaço dedicado às artes, na Galleria Vittorio Emanuele II, onde fica também a histórica flagship original da Prada.
É isso que me interessa aqui.
Não é só decretar que “a saia voltou com tudo”, mas entender por que uma das mulheres mais influentes da moda escolheu, agora, olhar tão demoradamente para uma coisa só.
Miuccia não é só uma designer. Doutorada em ciências políticas, feminista declarada, sempre esteve conectada com as artes e a cultura e nada do que produz como marca é aleatório.

Num tempo em que somos treinados a trocar de assunto antes mesmo de termos entendido o anterior, sessenta e três retângulos repetidos na passarela dizem bastante.
Mais uma vez, na contramão do hype óbvio, a Prada provou que moda boa tem raízes próprias, conectadas com os anseios da sua criadora e com um universo bem mais amplo do que as roupas que vestimos.
- Neste artigo:
- colunista GLMRM,
- Juliana Franco,
- Moda e Design,