
Cerzideiras, bordadeiras e costureiras são parte da vida cotidiana no Brasil. Afinal, quem nunca precisou de uma ajuda para salvar aquela calça preferida que rasgou no joelho?
A novidade agora é que o reparo ganhou endereço nobre, hora marcada e lugar na experiência de algumas das maisons de moda mais desejadas do mundo. E, quando várias marcas de luxo puxam a fila de uma tendência, é hora de prestar atenção!
Ralph Lauren e a arte do Sashiko
Em Tóquio, em outubro deste ano, aconteceu o PoloFest, uma celebração do universo Ralph Lauren e dos 50 anos da sua chegada ao Japão. O espaço imersivo, com três dias de programação, incluía uma exposição de peças raras e icônicas, uma série de palestras e um mercado vintage, com colecionadores do mundo todo. Ali, em meio aos festejos do legado vivo da marca, artesãos japoneses faziam intervenções em itens vintage Ralph Lauren, usando técnicas tradicionais de remendos e bordados, como boro e sashiko. O resultado? Peças one-of-a-kind, numa ode ao trabalho manual, em que restauro e arte se confundem, gerando novo desejo por uma coleção que já nasce com muitos anos de vida.

Loro Piana e o savoir-faire do fio
A italiana Loro Piana, famosa pelas matérias-primas impecáveis e peças feitas para durar, acaba de inaugurar na Madison Avenue, em Nova York, o Atelier. O espaço é dedicado a estender a vida útil das roupas e oferece serviços de cuidados e reparos, que vão do restauro de um cashmere vintage a um sabão feito especialmente para a lavagem delicada. Por lá, é possível também mergulhar no savoir-faire da marca e conhecer de perto as fibras nobres de vicunha, cashmere e linho, que fazem parte do seu DNA.

Re-Cashmere, Re-Wool, Re-Prada!
A Prada não ficou atrás e, depois do Re-Nylon, derivado de redes de pesca regeneradas, lançou o Re-Cashmere e o Re-Wool, um jeito de pensar a circularidade antes de a roupa chegar às lojas. São resíduos de fiação, retalhos de cashmere, tecidos com defeito e sobras de corte que renascem em novos tecidos, produzidos rigorosamente na Itália, segundo a tradição têxtil da marca. O resultado são peças ultradesejáveis, em tiragens limitadas, que já deram o que falar. O release oficial das linhas resume bem: “Os dois projetos compartilham uma mesma convicção: circularidade e qualidade não são forças opostas, e sim complementares”.

Hermès, Vuitton e os clássicos de viagem
Na Hermès, onde o trabalho artesanal é parte da identidade da casa, manutenção e reparo sempre fizeram parte da história. Robert Dumas, que foi presidente da marca de 1951 a 1978, costumava dizer que um produto de luxo é aquele que pode ser reparado. Só em 2025, a Hermès consertou mais de 96 mil peças. Na linha do reaproveitamento, a marca mantém o ateliê Petit h, onde sobras de couro, tecido e até porcelana ganham vida nova nas mãos de artesãos e artistas.
Outra marca clássica francesa, onde o conserto está longe de ser novidade, é a Louis Vuitton. A maison, que nasceu fazendo malas e baús, registrou seu primeiro conserto em 1860. Hoje, mantém 12 ateliês de reparos espalhados pelo mundo e dedica uma área exclusiva do seu site para exaltar a habilidade dos artesãos envolvidos no processo.
Em 2025, o grupo LVMH, maior conglomerado de luxo do mundo e proprietário da Vuitton, faturou cerca de 500 milhões de euros com consertos e recompra, provando que o tema também pode ser um ótimo negócio.

A beleza do imperfeito
Em tempos de crise climática e consumidores atentos às questões de sustentabilidade, é tentador ler o movimento só como parte da agenda verde. Afinal, reparar e reutilizar reduz desperdícios e minora emissões de carbono, além de manter vivos saberes manuais que estão em risco de extinção.
Mas vale olhar também o sinal de futuro: uma virada estética, em que o luxo deixa de esconder desgastes e defeitos e passa a celebrá-los. É uma mudança na cadeia de valor, com peças se tornando objetos de desejo conforme ganham marcas ao longo dos anos.
Um convite para celebrarmos o tempo vivido, mesmo com remendos, consertos e gambiarras, no luxo e na vida!
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