Além da estética: como a toxina botulínica pode ajudar no tratamento da enxaqueca crônica

Dr. Tiago de Paula - Foto Divulgação

Mais conhecida por seu uso na estética, a toxina botulínica também ocupa espaço importante na neurologia. Em conversa com o GLMRM, o neurologista Tiago de Paula explicou como a substância atua no tratamento preventivo da enxaqueca crônica, quais mecanismos estão envolvidos e por que o acompanhamento médico é essencial ao longo desse processo.

“A explicação está no seu mecanismo de ação, que vai muito além do músculo e atua diretamente no sistema nervoso periférico, bloqueando a liberação de substâncias responsáveis pela sinalização da dor”, explica o neurologista Tiago de Paula, com formação em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp).

Segundo o médico, ao repetir esse bloqueio ao longo do tratamento, é possível interferir nos circuitos relacionados à dor. “Quando interrompemos esse processo repetidamente, o cérebro começa a desfazer o caminho da dor que havia aprendido – e que culminava na dor. É por isso que, ao longo do tratamento, a frequência das crises diminui”.

O foco vai além do músculo

Embora o princípio ativo seja conhecido por relaxar músculos em procedimentos estéticos, a lógica do tratamento neurológico é diferente. Nesse caso, o objetivo está ligado principalmente à modulação das terminações nervosas associadas à dor.

“Na estética, a ideia é relaxar o músculo. Na enxaqueca, buscamos bloquear o nervo. O efeito estético que pode surgir, especialmente na região da testa, é apenas um efeito colateral do tratamento neurológico”, afirma Tiago.

A indicação, no entanto, exige avaliação individual. A toxina botulínica tem seu uso mais estabelecido na prevenção da enxaqueca crônica, quadro caracterizado por alta frequência de dias com dor de cabeça. Além disso, o médico precisa avaliar sintomas, histórico clínico, tratamentos anteriores e possíveis fatores que mantêm as crises.

Aplicação segue pontos definidos

O tratamento utiliza como referência o protocolo PREEMPT, que estabelece pontos específicos para as aplicações. A distribuição inclui regiões da cabeça e do pescoço relacionadas às vias de dor.

“Ele determina 31 pontos fixos de aplicação, distribuídos estrategicamente para atingir os nervos envolvidos na dor. Em alguns casos, pontos adicionais podem ser incluídos, conforme a resposta clínica do paciente. A toxina não deve ser aplicada ‘onde dói’. O protocolo é fundamental para garantir eficácia e segurança”, explica o neurologista.

Inicialmente, as sessões costumam seguir intervalos regulares. A resposta de cada paciente, porém, precisa orientar a continuidade e eventuais ajustes.

“O objetivo do tratamento não é tratar a crise, mas impedir que ela aconteça. Quando chegamos à fase de controle, muitos pacientes deixam de precisar de medicamentos para dor”, diz Tiago.

Tratamento não termina na aplicação

Outro ponto importante é que a toxina botulínica não deve ser vista como uma solução isolada para todos os casos. Hábitos, uso excessivo de medicamentos para dor, sono e outros fatores também podem influenciar a evolução da enxaqueca.

“Tratar enxaqueca não é tomar remédio quando a dor aparece. É fazer com que as crises não aconteçam mais. Quando isso é alcançado, o paciente entra em remissão”, afirma o neurologista.

Além disso, alguns pacientes podem precisar de outras estratégias preventivas. Entre as possibilidades estão medicamentos que atuam sobre o CGRP, proteína envolvida nos mecanismos da enxaqueca. A escolha, porém, depende da avaliação médica e da intensidade do quadro.

Dessa forma, a toxina botulínica entra em uma abordagem mais ampla de prevenção. Para quem convive com crises frequentes, reduzir dias de dor pode significar recuperar rotina, sono, produtividade e qualidade de vida. Ainda assim, indicação, aplicação e acompanhamento devem ser feitos por médico com formação adequada no manejo das cefaleias.

Fonte

Dr. Tiago de Paula — médico neurologista com formação em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Realizou graduação em Medicina, residência em Neurologia e formação em Neurocefaleia pela EPM/Unifesp. Atuou como preceptor dos ambulatórios de enxaqueca infantil, enxaqueca do adulto e migrânea vestibular da Unifesp e integra o corpo clínico do Headache Center Brasil, em São Paulo. CRM-SP 168999 | RQE 18111.

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