
Ansiedade não é inimiga. Também não ocupa o lugar de heroína. Ainda assim, a sociedade contemporânea insiste em transformá-la em personagem central de uma narrativa dividida entre combate e romantização. Em alguns discursos, ela surge como falha emocional. Em outros, aparece quase como combustível para produtividade, desempenho e vigilância constante. Entre esses extremos, perde-se a possibilidade de compreender sua verdadeira função psíquica.
Vivemos uma época em que antecipar tornou-se sinônimo de sobreviver. Antecipam-se respostas, crises, perdas, tendências, rejeições e cenários futuros. A mente passou a operar como uma central de previsão permanente, treinada para imaginar riscos antes mesmo que eles existam. Nesse contexto, a ansiedade deixou de ser apenas uma reação emocional. Ela se transformou em linguagem coletiva.
Percebo que muitas pessoas já não conseguem distinguir intuição de medo, preparo de tensão ou responsabilidade de hipervigilância. Existe uma confusão crescente entre estar atento e estar permanentemente ameaçado. O corpo permanece acionado, mesmo quando não há perigo concreto. A musculatura sustenta rigidez. O pensamento acelera. O descanso perde profundidade. O silêncio passa a causar estranhamento.
A ansiedade, em sua origem, possui uma função de preservação. Ela organiza o organismo diante do desconhecido, amplia foco e prepara respostas diante de situações que exigem adaptação. Sem ansiedade, provavelmente não atravessaríamos mudanças, rupturas ou desafios com o mesmo senso de mobilização. O problema começa quando esse estado deixa de ser transitório e passa a ocupar toda a experiência subjetiva.
O sofrimento contemporâneo não nasce apenas da ansiedade em si, mas da incapacidade de interromper o estado interno de alerta. A mente atual raramente encontra repouso simbólico. Existe sempre algo a responder, consumir, acompanhar ou provar. O excesso de estímulos criou uma cultura em que pausar parece culpa. Descansar passou a ser interpretado como atraso. Nesse cenário, muitos sujeitos vivem como se precisassem justificar a própria existência através de produtividade contínua.
Outro aspecto que observo envolve a dificuldade de sustentar incertezas. Existe uma tentativa crescente de controlar o imprevisível. Pessoas desejam garantias emocionais antes de viver relações, certezas absolutas antes de iniciar projetos e segurança total antes de realizar escolhas. Porém, a vida não opera dentro de contratos estáveis. Há risco em qualquer experiência humana. Quando alguém tenta eliminar toda possibilidade de desconforto, acaba alimentando justamente o mecanismo que amplia a ansiedade.
A busca incessante por controle cria um paradoxo silencioso. Quanto mais o sujeito tenta prever tudo, menos consegue permanecer no presente. A experiência da vida deixa de acontecer no agora e passa a existir apenas em projeções futuras. Muitos indivíduos já não habitam o próprio cotidiano. Habitam hipóteses.
Existe ainda uma questão menos discutida. Em determinados casos, a ansiedade também funciona como tentativa inconsciente de evitar contato com emoções mais profundas. Algumas pessoas permanecem ocupadas com preocupações constantes porque o silêncio poderia revelar vazios, lutos, frustrações ou conflitos antigos ainda não elaborados. A aceleração emocional, às vezes, protege contra encontros internos que parecem difíceis de sustentar.
Por isso, escutar a ansiedade exige mais profundidade do que simplesmente tentar eliminá-la. Nem todo sintoma precisa ser imediatamente silenciado. Há experiências emocionais que precisam ser compreendidas antes de desaparecer. Quando a ansiedade é tratada apenas como defeito, perde-se a oportunidade de investigar aquilo que ela tenta comunicar.
Também me preocupa a forma como a linguagem contemporânea transformou sofrimento psíquico em identidade fixa. Pessoas passaram a se definir exclusivamente pela ansiedade. Dizem “eu sou ansioso”, como se toda a existência pudesse ser resumida a um estado emocional. Quando um diagnóstico ocupa o lugar da identidade, o sujeito corre o risco de reduzir sua própria complexidade.
Talvez a pergunta mais importante não seja se a ansiedade é mocinha ou vilã. Talvez a questão esteja em compreender por que a sociedade atual produz tantos corpos incapazes de relaxar, tantas mentes incapazes de desacelerar e tantos sujeitos desconectados da própria experiência interna.
A ansiedade não precisa ser glorificada nem demonizada. Ela precisa ser compreendida. Em alguns momentos, funcionará como sinal de movimento diante da vida. Em outros, indicará excesso, ruptura ou esgotamento. O desafio não está em travar guerra contra ela, mas em construir consciência suficiente para perceber quando ainda atua como proteção e quando já passou a comandar silenciosamente a existência.
- Neste artigo:
- Alma Clinica,
- colunista GLMRM,
- corpo e alma,
- maria klien,