Enquanto séruns com peptídeos já fazem parte da rotina de skincare, versões injetáveis ganham espaço impulsionadas por famosos e influenciadores. A dermatologista Juliana Piquet explica por que essa associação é equivocada e faz um alerta para os riscos da tendência.
Com mais de duas décadas de atuação na dermatologia e à frente da Clínica Juliana Piquet, no Rio de Janeiro, Juliana Piquet acompanha de perto as transformações do mercado de beleza — e também os riscos que surgem quando tendências das redes sociais passam a ser confundidas com tratamentos médicos.
Nos últimos meses, uma nova onda de peptídeos injetáveis, impulsionada por celebridades internacionais e pelo universo do biohacking e viralizada nas redes sociais, ganhou força com promessas de rejuvenescimento, mais energia e longevidade. Segundo a especialista, porém, o fato de os peptídeos já serem conhecidos do público por estarem presentes em séruns e cosméticos acaba criando uma falsa sensação de segurança.
Em bate-papo com o GLMRM, Juliana esclarece as principais dúvidas sobre o tema, explica por que os peptídeos tópicos não podem ser comparados às versões injetáveis e alerta para a falta de regulamentação de diversas substâncias divulgadas como solução para o envelheciment
Peptídeo virou uma palavra muito comum no universo da beleza. Afinal, o que são os peptídeos e qual é o papel deles na dermatologia?
Peptídeos são pequenas cadeias de aminoácidos, que formam as proteínas do nosso organismo. Na pele, alguns deles atuam como moléculas sinalizadoras, participando de processos como reparação tecidual, hidratação, síntese de colágeno e modulação da inflamação. Hoje, eles aparecem principalmente em cosméticos voltados para firmeza, melhora da textura e fortalecimento da barreira cutânea. Mas é importante lembrar que “peptídeo” não é uma substância específica, e sim uma categoria enorme. Cada um possui estrutura, função, via de administração e nível de evidência científica próprios.
Os peptídeos presentes em séruns e cremes são os mesmos utilizados nas injeções que viralizaram nas redes sociais?
Essa é justamente a maior confusão. Um peptídeo usado em um cosmético tópico atua superficialmente na pele e passa por uma avaliação completamente diferente daquela exigida para um produto injetável. Já um peptídeo aplicado por via subcutânea, intramuscular ou intravenosa precisa ter estudos específicos de dose, segurança, toxicidade, farmacocinética e efeitos sistêmicos. Não é porque uma substância está presente em um creme que ela pode ser utilizada por injeção. Cientificamente, uma coisa não valida a outra.
Os peptídeos realmente ajudam no rejuvenescimento da pele ou as promessas são exageradas?
Sim, alguns deles. Existem peptídeos tópicos que apresentam estudos mostrando melhora discreta na firmeza, hidratação e qualidade da pele, funcionando como coadjuvantes em uma rotina de cuidados com a pele. Mas eles estão longe de substituir tratamentos com evidência consolidada, como fotoproteção, retinoides, antioxidantes, bioestimuladores aprovados e tecnologias dermatológicas. O problema começa quando essa evidência é extrapolada para promessas de rejuvenescimento sistêmico, longevidade, energia ou imunidade, sem comprovação científica robusta.
Muito se fala sobre peptídeos injetáveis para rejuvenescimento, performance e longevidade. O que a ciência realmente sabe sobre esses tratamentos?
Existem peptídeos amplamente estudados e utilizados na medicina, como a insulina e os agonistas de GLP-1. Mas boa parte dos peptídeos que hoje circulam com promessas de rejuvenescimento, recuperação muscular ou longevidade ainda possui evidências limitadas em humanos. Muitos apresentam resultados promissores apenas em estudos laboratoriais ou em animais. E isso não significa que sejam seguros ou eficazes para pessoas. Em medicina, um mecanismo interessante não é sinônimo de benefício clínico comprovado.
Como funciona a regulamentação desses peptídeos no Brasil? O que diz a Anvisa sobre essas substâncias?
É importante diferenciar cosméticos, medicamentos e substâncias sem regularização. Recentemente, a Anvisa alertou que diversos peptídeos divulgados para fins estéticos, como GHK-Cu, BPC-157, TB-500, CJC-1295 e ipamorelina, não possuem regularização no Brasil para essas indicações, seja como medicamento, suplemento ou cosmético. Em outras palavras, o fato de um peptídeo existir em um sérum não significa que sua versão injetável seja aprovada ou segura. A presença de peptídeos em cosméticos não equivale à aprovação para uso injetável. São categorias completamente diferentes, com exigências regulatórias e níveis de evidência distintos.
Que cuidados o paciente deve tomar antes de aderir a tratamentos que prometem rejuvenescimento com peptídeos?
O principal cuidado é desconfiar de promessas amplas demais e buscar informação antes de iniciar qualquer tratamento. O paciente deve perguntar qual substância será utilizada, se ela é aprovada pela Anvisa para aquela indicação e via de administração, se existem estudos clínicos em humanos, quem está prescrevendo e quais são os riscos envolvidos.
Muitas pessoas questionam medicamentos estudados durante anos, mas aceitam receber um soro na veia sem perguntar qual é a evidência científica por trás dele. Isso não é coerente.
Na medicina, quem vende uma promessa precisa provar que ela funciona. Não é o paciente que precisa provar que ela não funciona.