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Foto: Divulgação

Em um momento em que o universo wellness ultrapassa a academia e influencia escolhas de consumo, estilo de vida e até a forma como nos relacionamos com o próprio corpo, a moda esportiva vive uma nova fase. À frente da direção criativa da Crew Store, plataforma de treinos e marca de lifestyle criada por Gabriela Bahia, Julyana Castro acompanha de perto essa transformação. Com mais de 15 anos de experiência em moda, branding e desenvolvimento de produtos, ela acredita que as peças deixaram de ser apenas funcionais para se tornarem uma extensão da identidade feminina.

Na coleção Skin, a Crew traduz essa visão em uma proposta que celebra autenticidade, liberdade e presença. Em conversa com o Glamurama, Julyana fala sobre comportamento, bem-estar, tendências e os novos desejos que movem as consumidoras.

A Crew nasceu como uma plataforma de treino e hoje também constrói um universo de produtos e estilo de vida. Como você enxerga essa evolução da marca?

Eu vejo essa evolução como algo muito orgânico, porque a Crew nunca foi só sobre exercício físico; ela sempre foi sobre como a mulher quer se sentir. O treino foi o ponto de partida, mas existe um pilar muito forte da marca que fala sobre corpo, mente e espírito. Desde o início, havia uma intenção maior de criar uma experiência de bem-estar mais ampla, que atravessa rotina, autoestima, comunidade, autocuidado e também estética.

Quando começamos a olhar para a vida da mulher de forma mais integrada, faz todo sentido que a marca expanda para produto, lifestyle e tudo aquilo que acompanha esse movimento. A roupa, nesse contexto, não é um acessório do treino: ela participa da experiência. Ela influencia como você se percebe, como ocupa o próprio corpo e como transita entre diferentes momentos do dia.

Para mim, o crescimento da Crew é a materialização de um posicionamento. A marca amadurece quando entende que não está apenas oferecendo treino ou roupa, mas construindo um repertório de bem-estar contemporâneo, com desejo, funcionalidade e pertencimento.

A coleção Skin fala sobre autenticidade e segunda pele. Como esse conceito surgiu e quais foram as principais inspirações para desenvolvê-lo?

A ideia de Skin nasceu do desejo de criar uma coleção que fosse quase uma continuação do corpo, não no sentido de esconder ou corrigir, mas de acompanhar. Queríamos falar sobre presença, liberdade e intimidade com o próprio movimento. Sobre aquela sensação de vestir algo que não te separa de você, mas te aproxima; aquela peça que você esquece que está usando, porque ela simplesmente acompanha seus movimentos.

Quando pensamos em “segunda pele”, não estávamos olhando apenas para ajuste ou conforto. Estávamos olhando para uma relação mais emocional com a roupa: peças que abraçam e sustentam sem apertar, acompanhando a mulher em diferentes momentos do dia. Tem treino, claro, mas também tem pausa, deslocamento e vida real.

As inspirações vieram do toque, da textura, da anatomia feminina e dessa ideia de uma sensualidade mais silenciosa, menos performática. Também olhamos para superfícies mais limpas e para uma estética que comunica sofisticação sem excesso. Skin fala sobre autenticidade porque parte da premissa de que o corpo não precisa ser transformado para ser legitimado. Ele já é o ponto de partida.

O que uma peça esportiva precisa entregar hoje para conquistar uma consumidora cada vez mais exigente?

Hoje, não basta uma peça ser tecnicamente boa. Isso é o mínimo. A consumidora espera conforto, sustentação, respirabilidade, durabilidade e modelagem inteligente. Mas ela também busca coerência estética, versatilidade e identificação com a marca.

A roupa esportiva passou a ocupar um espaço muito mais amplo na rotina. Por isso, ela precisa acompanhar o treino, conversar com o restante do guarda-roupa e fazer sentido na vida urbana. Além disso, precisa gerar sensação. A mulher quer se sentir bonita, segura, confortável e representada.

A exigência aumentou porque o repertório também aumentou. Hoje, a consumidora compara caimento, tecido, acabamento, branding, experiência de compra e narrativa de marca com muita facilidade. Na Crew, buscamos aproximar nossas clientes e alunas desse processo, compartilhando conhecimento e construção. Para conquistar essa mulher, a peça precisa unir inteligência funcional e desejo real.

O wellness deixou de ser uma tendência para se tornar um comportamento. Como essa mudança impacta a criação de produtos de moda?

Impacta profundamente, porque muda o lugar de onde o produto nasce. Quando wellness era tratado como tendência, muitas marcas se aproximavam dele de forma superficial. Hoje, quando ele se consolida como comportamento, a conversa se torna mais profunda.

É preciso compreender hábitos, necessidades emocionais, ritmo de vida, sobrecarga, desejo de presença e busca por equilíbrio. Isso exige um desenvolvimento de produto mais atento à experiência como um todo.

Não se trata apenas de criar uma legging bonita, mas de pensar em como essa peça se encaixa em uma rotina em que treino, trabalho, maternidade, autocuidado e vida social coexistem. Além disso, o wellness trouxe uma demanda por produtos mais honestos: menos excesso, menos ruído e menos performance vazia.

Quando falamos da Crew e da Gabriela Bahia como autoridade nesse universo, falamos de uma comunidade de quase 100 mil mulheres que vivencia o wellness desde antes de ele se tornar uma grande tendência de mercado.

Você acompanha de perto o comportamento feminino há muitos anos. O que mudou na forma como as mulheres se relacionam com o próprio corpo?

Acredito que existe uma mudança muito importante em curso: o corpo está deixando de ser apenas um projeto estético para voltar a ser um lugar de experiência.

Isso não significa que as pressões desapareceram. Elas continuam existindo e, em alguns casos, até se sofisticaram. Mas percebo um movimento crescente de mulheres tentando reconstruir a relação com o próprio corpo a partir da escuta, da funcionalidade, da energia e da presença.

Vejo menos interesse em performar uma imagem de perfeição e mais interesse em habitar o corpo com verdade. O movimento passa a ser menos punição e mais recurso de regulação, vitalidade e conexão.

Ao mesmo tempo, as mulheres estão mais críticas em relação às narrativas que historicamente tentaram disciplinar o corpo feminino. Isso muda a forma de consumir, de treinar, de se vestir e de escolher marcas.

A Crew transita entre funcionalidade e desejo. Como equilibrar atributos técnicos com uma estética aspiracional?

Para mim, esse equilíbrio acontece quando a técnica não aparece como oposição ao desejo, mas como parte dele. Uma peça bem construída, com modelagem inteligente, tecido de qualidade e acabamento impecável, já é, por si só, uma peça desejável.

Na Crew, unimos essa inteligência funcional a uma linguagem estética clara, que conversa com a mulher contemporânea sem excessos.

Aspiracional, para mim, não significa inacessível. Significa criar uma atmosfera, um imaginário e uma experiência de marca capazes de gerar identificação e desejo. Nosso trabalho passa pelo caimento, compressão, toque, cartela de cores, styling e narrativa. Quando tudo isso está alinhado, funcionalidade e desejo deixam de ser opostos e passam a construir valor juntos.

O conceito de comunidade é muito forte dentro da Crew. Qual é o papel dessa construção de pertencimento para as marcas atualmente?

Nossa comunidade é o nosso maior patrimônio. Hoje, pertencimento deixou de ser diferencial e se tornou uma necessidade real.

Vivemos um momento de excesso de estímulos, oferta e comunicação performática. Quando é genuína, a comunidade cria vínculo, recorrência, identificação e confiança. Mais do que isso, cria contexto para a marca existir de forma mais profunda.

Na Crew, isso sempre foi central, porque a marca nasce do encontro entre mulheres mediado pelo movimento. Existe troca, incentivo, reconhecimento e repertório compartilhado. Isso transforma completamente a relação com o produto.

Acredito que as marcas mais relevantes dos próximos anos serão aquelas capazes de construir ecossistemas verdadeiros de afinidade, e não apenas audiências.

A roupa esportiva ganhou espaço muito além dos momentos de treino. Como você enxerga a evolução dessa categoria nos próximos anos?

Vejo a moda caminhando para um movimento em que o conforto ocupa um papel central. A roupa esportiva se tornou protagonista nesse cenário e avança cada vez mais para um território híbrido, em que as fronteiras entre activewear, loungewear e moda tradicional ficam menos rígidas.

A roupa esportiva continuará evoluindo como uniforme da vida contemporânea, porque responde a demandas muito concretas: conforto, mobilidade, praticidade e versatilidade.

Ao mesmo tempo, isso não significa perda de sofisticação. Pelo contrário. A tendência é que o activewear se torne ainda mais refinado em modelagem, matéria-prima, acabamento e linguagem visual.

Também acredito em uma expansão da categoria para acompanhar diferentes fases da vida, corpos, ritmos e necessidades. O futuro do activewear, para mim, não está apenas em performar melhor no treino, mas em performar melhor na vida.

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