No Dia do Perfumista, César Veiga fala sobre IA, memória e o futuro das fragrâncias

César Veiga – Foto Divulgação

Perfumaria é uma profissão rara, construída no encontro entre técnica, repertório e sensibilidade. E, neste Dia do Perfumista, celebrado hoje, o GLMRM conversou com César Veiga, Perfumista Expert em Avaliação de Fragrâncias do Núcleo de Inteligência Olfativa do Boticário, sobre como esse ofício mudou ao longo das últimas décadas e quais habilidades seguem essencialmente humanas em um cenário cada vez mais atravessado por tecnologia.

Há 26 anos no mercado, César acompanhou de perto essa transformação. Ao longo da carreira, participou do desenvolvimento de fragrâncias como Malbec, Egeo Dolce e Lily, além de projetos envolvendo inteligência artificial, neurociência e da implementação do Centro de Pesquisa do Olfato do Boticário.

Na conversa, ele fala sobre como se constrói uma carreira em uma área tão especializada, o papel da memória e do comportamento na criação de fragrâncias e a forma como a inteligência artificial vem ampliando possibilidades sem substituir o olhar do perfumista. Também reflete sobre o futuro da profissão e sobre aquilo que, mesmo diante de tantas ferramentas novas, continua dependendo de curiosidade, discernimento, sensibilidade e repertório humano.

Depois de quase três décadas trabalhando com fragrâncias, o que você aprendeu a perceber no comportamento das pessoas antes mesmo de elas conseguirem colocar em palavras o que querem sentir em um perfume?

Acho que uma das coisas que aprendi é que, muitas vezes, as pessoas sabem como querem se sentir antes de saberem qual cheiro procuram. Elas podem não dizer que querem uma determinada madeira, uma flor ou uma nota cítrica. Mas dizem, de diferentes maneiras, que querem se sentir mais confiantes, acolhidas, leves, marcantes, sensuais ou até reencontrar uma sensação que conhecem, mas não conseguem nomear.
O trabalho do perfumista passa muito por aprender a ouvir esse desejo que ainda não virou vocabulário olfativo. E essa escuta não acontece apenas em uma pesquisa. Está no comportamento, na cultura, na forma como as pessoas usam sua fragrância perfume, nas ocasiões em que escolhem uma fragrância e até na maneira como descrevem uma memória.

Hoje, o consumidor conhece muito mais sobre perfumaria, fala sobre notas, famílias olfativas e ingredientes. Mas existe uma camada anterior a tudo isso, que continua sendo muito humana: o que aquela pessoa quer comunicar ou sentir naquele momento da vida? Acho que o nosso trabalho começa justamente aí e depois buscamos transformar isso em cheiro. Os próprios materiais do Boticário apontam uma evolução para escolhas cada vez mais ligadas à individualidade, humor, contexto e momento de vida.

“Antes de tudo, o perfumista é um observador atento. Com o tempo, refinamos a sensibilidade de ler personalidades, comportamentos e contextos, traduzindo sentimentos e identidades em cheiros.”

Foto Divulgação

Com a inteligência artificial cada vez mais presente na criação e na análise de fragrâncias, quais aspectos do trabalho do perfumista dependem de repertório, sensibilidade e percepção humana?

A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária para ampliar o nosso campo de possibilidades. Ela consegue cruzar uma quantidade de informações e fórmulas que seria impossível para uma pessoa processar na mesma velocidade, identificar caminhos pouco óbvios e até nos desafiar com combinações que talvez não surgissem de maneira intuitiva. Eu vivi isso muito de perto: O Boticário esteve entre os pioneiros dessa discussão quando trabalhamos com a Symrise e a tecnologia Philyra em Egeo. A própria Symrise descreve a tecnologia como uma forma de aumentar a capacidade criativa do perfumista, e não substituí-la; no desenvolvimento para O Boticário, as propostas da IA passaram pela leitura e pelo refinamento de um perfumista.

Mas a máquina não vive uma memória, não faz uma viagem, não cresce dentro de uma cultura e não estabelece relações afetivas com um cheiro. Repertório é mais do que informação acumulada; é informação vivida e interpretada. É isso que permite ao perfumista olhar para uma sugestão tecnicamente interessante e perguntar: “isso realmente conta a história que queremos contar?”.

Por isso, quanto mais tecnologia temos, mais importante se torna a sensibilidade humana. A IA pode multiplicar caminhos; o perfumista ainda precisa dar intenção, contexto, significado e fazer escolhas. No fim, não basta uma fórmula funcionar. Ela precisa dizer alguma coisa.

Perfume trabalha com memória, mas também com expectativa. Na prática, é mais difícil criar algo que desperte uma lembrança ou algo que faça a pessoa sentir uma emoção que ainda não associa a nenhum cheiro?

Eu não diria que um é necessariamente mais difícil que o outro. São desafios diferentes.

Quando trabalhamos com memória, existe uma espécie de ponte que já foi construída pela própria pessoa. Um cheiro pode nos levar imediatamente a um lugar, uma comida, uma pessoa ou um período da vida. Existe uma literatura bastante consistente mostrando que cheiros podem funcionar como pistas particularmente potentes para memórias autobiográficas, muitas vezes carregadas de emoção.

Quando tentamos criar uma nova associação, o território é mais aberto. Podemos construir uma intenção olfativa — luminosidade, acolhimento, energia, tensão, conforto — mas não podemos determinar exatamente o que alguém irá sentir. A percepção depende da história, da cultura, do contexto e das experiências de cada pessoa. Inclusive, estudos mostram que até informações e expectativas em torno de um cheiro podem modificar a maneira como ele é percebido.

Isso é algo que o Box do Sentir trabalha de maneira muito interessante. As emoções funcionam como pontos de partida para a criação, não como respostas obrigatórias. O perfumista propõe uma linguagem; depois, cada pessoa termina aquela história a partir do próprio repertório.

Ao longo da sua carreira, o consumidor ficou mais informado, mais exigente e mais exposto a tendências. Isso tornou o trabalho do perfumista mais livre ou, paradoxalmente, mais desafiador?

Os dois. E acho que é justamente isso que torna esse momento tão interessante para a perfumaria.
Existe mais liberdade porque o consumidor está mais aberto a experimentar. Hoje vemos pessoas discutindo ingredientes, conhecendo famílias olfativas, fazendo layering, buscando perfumaria de nicho, usando fragrâncias diferentes conforme o humor ou a ocasião. Há um repertório muito maior circulando. As redes sociais e os criadores especializados ajudaram a tirar a perfumaria de um universo que, durante muito tempo, parecia quase inacessível.

Ao mesmo tempo, isso aumenta muito a régua. Um consumidor que experimenta mais também compara mais. Ele reconhece tendências, busca novidades e percebe rapidamente quando uma história é apenas discurso e não está realmente presente na construção olfativa.

Então talvez estejamos mais livres para ousar, mas menos livres para criar sem propósito. Uma boa ideia precisa estar sustentada pela fragrância. Para mim, isso é positivo, porque nos obriga a ir mais fundo e mantém a perfumaria em movimento.

Se a perfumaria está cada vez mais próxima da neurociência, dos dados e da tecnologia, qual você imagina que será a habilidade mais valiosa de um perfumista daqui a dez anos e que talvez ainda não receba tanta atenção hoje?

Eu diria que será a capacidade de fazer curadoria.

Daqui a dez anos provavelmente teremos muito mais dados, novas moléculas, biotecnologia, inteligência artificial, instrumentos de análise e conhecimento sobre percepção. Ou seja: teremos mais possibilidades do que conseguimos imaginar hoje. O desafio talvez deixe de ser “o que é possível fazer?” e passe cada vez mais a ser “entre tudo o que é possível, o que vale a pena criar?”

Para responder isso, o perfumista terá de saber conectar disciplinas. Entender tecnologia sem se tornar refém dela; compreender dados sem perder a escuta; conhecer ciência e, ao mesmo tempo, ter repertório de arte, comportamento, cultura e sociedade.

Ferramentas de inteligência artificial e criação assistida já mostram essa direção: a tecnologia consegue acelerar explorações, cruzar grandes volumes de informação e ampliar o espaço criativo, enquanto a decisão, a intenção e a curadoria continuam sendo conduzidas pelo perfumista.

Então, paradoxalmente, acho que quanto mais tecnológica se tornar a perfumaria, mais valioso será aquilo que existe de profundamente humano no perfumista: discernimento, curiosidade, sensibilidade e capacidade de atribuir significado.

Se você tivesse que contar a história de como se tornou perfumista a partir de um único cheiro, qual seria e por quê?

Talvez eu não escolhesse uma matéria-prima específica, mas o cheiro de uma bancada de perfumaria. Entrei no Boticário em 1996 como estagiário, vindo de uma formação muito ligada à ciência, e ali encontrei um universo em que dezenas de matérias-primas podiam se transformar em algo completamente novo quando combinadas, isto abriu um universo completamente novo para mim onde rapidamente me apaixonei e tive certeza de ter encontrado a profissão perfeita.

Acho que aquele cheiro representa bem a minha história porque não era o aroma de uma única coisa — era o cheiro das possibilidades. Foi quando entendi que eu poderia usar toda a minha bagagem técnica e, ao mesmo tempo, desenvolver uma dimensão criativa que até então estava adormecida.

Depois vieram Malbec, Lily, Egeo Dolce, novas tecnologias, inteligência artificial, neurociência e tantas outras histórias. Mas, se tivesse que voltar ao começo, voltaria àquela sensação de entrar em um laboratório e perceber que ciência e arte podiam ocupar o mesmo espaço. Foi ali que a perfumaria me encontrou.

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