
Recentemente, o Instagram anunciou mudanças para reduzir a exposição repetitiva de adolescentes a conteúdos relacionados a dieta, corpo e fitness. Ao ler essa notícia, pensei em quantas vezes recebo, no consultório, jovens que chegam carregando dúvidas, inseguranças e comparações construídas a partir do que veem diariamente nas redes sociais.
Vivemos um momento em que a experiência digital não está separada da vida real. Para muitos adolescentes, ela é parte fundamental da forma como se relacionam, aprendem, se expressam e constroem a própria identidade. É justamente por isso que precisamos olhar para o ambiente online com a mesma atenção que dedicamos a outros espaços de convivência.
A adolescência é uma fase marcada por transformações. O corpo muda, os vínculos ganham novos significados e a busca por pertencimento se torna uma necessidade importante. Nesse contexto, a comparação faz parte do desenvolvimento. O problema surge quando ela acontece de forma constante e direcionada para um único padrão.
Quando um adolescente é exposto repetidamente a conteúdos sobre aparência física, emagrecimento ou performance corporal, ele pode começar a acreditar que aquele modelo representa uma expectativa universal. Aos poucos, a diversidade desaparece e sobra a sensação de que existe apenas uma forma correta de ser, parecer ou viver.
O que mais me chama atenção é que nem sempre esse processo acontece de maneira consciente. Muitas vezes, o jovem não percebe que está sendo influenciado. Ele apenas começa a se sentir inadequado sem entender exatamente o motivo.
Por isso, considero importante que plataformas digitais reconheçam seu papel na construção das experiências de seus usuários. Diversificar conteúdos não significa limitar escolhas. Significa ampliar perspectivas. Ao mesmo tempo, acredito que nenhuma ferramenta tecnológica substitui aquilo que continua sendo essencial para a saúde emocional dos adolescentes: o diálogo.
Precisamos conversar mais sobre autoestima, sobre imagem corporal, sobre autenticidade e sobre a diferença entre inspiração e comparação. Precisamos ensinar os jovens a questionar o que veem, a compreender que as redes mostram recortes da realidade e que a vida não pode ser reduzida a um conjunto de imagens cuidadosamente selecionadas.
Talvez o maior desafio da nossa época não seja proteger os adolescentes das redes sociais. Talvez seja ajudá-los a construir uma relação mais saudável com elas. E essa responsabilidade pertence a todos nós.
- Neste artigo:
- Alma Clinica,
- colunista GLMRM,
- maria klien,