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Há alguns anos, a preocupação com a aparência costumava aparecer em momentos específicos. Um evento importante, uma fotografia ou uma ocasião especial mobilizavam esse cuidado. Hoje, essa relação mudou. Para muitas mulheres, a avaliação do próprio corpo acompanha o dia inteiro.

Ela aparece antes de sair de casa, na escolha da roupa, na câmera do celular, no reflexo de uma vitrine, na reunião de trabalho, durante uma refeição e até no fim do dia, quando a sensação é de que ainda falta alguma coisa para alcançar uma imagem considerada suficiente.

Esse movimento nem sempre é percebido. Aos poucos, a cobrança deixa de vir apenas do ambiente e passa a ser reproduzida pela própria pessoa. O olhar se torna mais rígido, a autocrítica ganha força e qualquer característica que fuja do padrão começa a ser interpretada como defeito.

Não é difícil entender por que isso acontece. Nunca fomos expostos a tantas imagens de corpos considerados perfeitos. O problema é que essas referências quase sempre são produzidas, editadas e selecionadas. Ainda assim, acabam servindo como medida para avaliar uma realidade que é completamente diferente.

No consultório, esse tema aparece com frequência. Muitas mulheres não chegam dizendo que sofrem por causa da pressão estética. Elas falam da ansiedade, da dificuldade de se relacionar, da vergonha de serem fotografadas, da culpa ao comer, do desconforto em usar determinadas roupas ou da sensação de nunca estarem satisfeitas consigo mesmas. Em muitos casos, a origem desse sofrimento está justamente na relação construída com a própria imagem.

O fato de que a insatisfação não desaparece quando a aparência muda é outro ponto a ser pontuado e debatido. Quem acredita que a autoestima depende exclusivamente do corpo costuma descobrir que sempre haverá um novo detalhe para corrigir. O objetivo se desloca o tempo todo e a sensação de inadequação permanece.

Isso acontece porque a autoestima não pode ser sustentada apenas pelo espelho. Quando o valor pessoal fica condicionado à aparência, qualquer mudança natural da vida passa a representar uma ameaça. O envelhecimento deixa de ser parte da existência. As alterações hormonais, a gravidez, o estresse ou a oscilação de peso deixam de ser processos humanos e passam a ser tratados como fracassos individuais.

Essa lógica produz desgaste emocional. A mulher começa a gastar tempo, energia e recursos tentando controlar algo que nunca permanecerá igual. O corpo muda porque a vida muda. Nenhuma pessoa atravessa os anos sem transformações.

Cuidar da aparência continua sendo uma escolha legítima. Sentir-se bem com a própria imagem faz parte do autocuidado e pode contribuir para o bem-estar. O cuidado deixa de ser saudável quando passa a ocupar um espaço maior do que a própria vida.

Nenhuma mulher deveria recusar um convite, adiar uma viagem, deixar no armário o vestido de que gosta, evitar um relacionamento ou assistir da areia a um mergulho que gostaria de dar porque acredita que ainda precisa alcançar uma perfeição corporal, esse “perfeito” que muda de forma e parece sempre um pouco mais distante. A vida não deveria ficar em suspenso diante do espelho.

A saúde mental também passa pela forma como aprendemos a olhar para nós mesmas. Isso exige reconhecer que o corpo não é um cartão de visitas nem um currículo. Ele é o lugar sagrado onde a vida acontece.

Quanto mais cedo essa compreensão encontra espaço, menor é a chance de transformar a própria imagem na principal medida do próprio valor. É nesse momento que o cuidado deixa de ser uma obrigação e volta a ocupar o lugar que sempre deveria ter: o de uma simples escolha pessoal.

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