Uma roupa pode continuar servindo e, ainda assim, passar meses no armário. Quando voltamos a experimentá-la, percebemos que ela combina com alguém que já fomos. Nem sempre sabemos dizer em que momento deixamos de nos reconhecer ali.

Penso no gosto a partir dessas mudanças que acontecem sem alarde. O que escolhemos carrega lembranças, encontros e o desejo de ocupar algum lugar no mundo. Há uma música que nos acompanha porque tocava na casa dos nossos pais. Um livro ganha outro sentido depois de uma perda ou de uma mudança. Até aquilo que dizíamos não apreciar merece, às vezes, uma segunda chance. A experiência altera o que conseguimos perceber, inclusive no que já conhecemos.

Quem sempre gostou de determinado estilo talvez se constranja ao demonstrar interesse por outro. Parece haver uma explicação a dar, como se uma preferência fosse um compromisso assumido diante dos demais. Também acontece de desejarmos uma peça menos pela vontade de usá-la do que pela ideia de pertencer ao grupo que ela representa. Admitir essa diferença pede alguma honestidade conosco. Aquilo que chamávamos de gosto estava ligado, ao menos em parte, à aprovação que esperávamos receber.

As plataformas participam dessa conversa oferecendo facilidades que eu também reconheço. Uma indicação nos apresenta um filme, poupa a busca, desperta a curiosidade. Entre aceitar a sugestão e descobrir se gostamos dela, há uma experiência que continua sendo nossa. Precisamos assistir, escutar, reparar no que sentimos. Às vezes, aquela escolha tão parecida com as anteriores já não nos interessa.

Como psicóloga, vejo valor no tempo que concedemos a essa percepção. Podemos sair de uma exposição sem opinião formada, terminar uma leitura e precisar de alguns dias para conversar sobre ela. A pressa de avaliar tudo deixa pouco espaço para impressões que ainda estão tomando forma.

O contato com algo desconhecido traz também tédio, resistência, vontade de ir embora. Nem todo estranhamento anuncia uma descoberta, e não precisamos insistir em tudo. Mas há ocasiões em que vale permanecer um pouco, reler uma página, ouvir o restante de uma canção. Uma conversa posterior talvez nos ajude a perceber o que havia escapado. Gosto de pensar que parte do repertório se forma assim, por aproximações que não teríamos como planejar, sem a obrigação de sair de cada encontro com uma conclusão.

E há o prazer de voltar ao conhecido. Rever uma comédia, escutar o mesmo disco, gostar do que tanta gente gosta. Escolher não deveria exigir uma demonstração permanente de cultura ou originalidade. Se até o descanso precisar comprovar alguma qualidade nossa, teremos criado mais uma tarefa.

Formamos preferências na companhia de outras pessoas. Herdamos hábitos, acolhemos sugestões e sentimos gratidão por quem nos apresentou algo que passou a fazer parte da nossa vida. Nessa convivência, também precisamos de espaço para discordar e para reconhecer o que deixou de nos tocar. Quero poder conservar uma escolha por afeto, sem me sentir obrigada a mantê-la apenas porque um dia ela disse algo sobre mim.

A roupa no armário talvez volte ao uso meses depois. Ou encontre lugar na vida de outra pessoa. Posso guardar a lembrança de quando a vestia e, ainda assim, abrir espaço no cabide.

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