Dizer “eu te amo” e dizer “I love you” podem ter o mesmo significado no dicionário. Para quem pronuncia, porém, a experiência nem sempre é equivalente. Uma expressão talvez venha acompanhada da lembrança de alguém, do constrangimento de se expor, de tudo o que se aprendeu sobre demonstrar afeto. A outra pode sair com menos hesitação.
Penso nessa diferença quando alguém comenta que se sente mais à vontade falando outro idioma. Há quem consiga flertar sem tanto receio, fazer uma brincadeira que evitaria em português ou conversar sobre um sentimento que, na língua da infância, parece difícil até de nomear.
As palavras participam da nossa história. Foram ditas por pessoas, em circunstâncias que lhes deram um peso particular. Um pedido de desculpas pode trazer consigo o modo como os conflitos eram tratados em casa. Uma recusa talvez desperte a culpa de contrariar alguém. Ao falar, também podemos reencontrar essas associações, mesmo sem perceber.
Em uma língua aprendida depois, parte dessa bagagem pode estar menos presente. A distância permite, em alguns casos, abordar o que antes provocava constrangimento. Considero essa possibilidade uma maneira de compreender por que alguém consegue dizer em inglês, por exemplo, algo que ensaiou tantas vezes em português.
Mas seria precipitado atribuir toda mudança ao vocabulário. Importa saber com quem se conversa e em que momento da vida aquele aprendizado aconteceu. Quem passou a usar espanhol ao sair da casa dos pais talvez associe essa experiência à autonomia. Se o francês entrou pela convivência amorosa, pode ocupar outro lugar. A trajetória dá ao idioma um sentido que a tradução, sozinha, não alcança.
Também gosto de observar os pequenos ajustes da convivência. O humor, a entonação, o jeito de fazer um convite ou encerrar uma discussão são aprendidos no contato com os outros. Aos poucos, essas referências podem ampliar nosso repertório de comunicação.
É por isso que tenho cautela com a ideia de que desenvolvemos outra personalidade. Podemos encontrar mais liberdade para expressar determinados aspectos de quem somos, dependendo da relação e do ambiente. Isso já acontece entre amigos, no trabalho ou em família.
Quando uma pessoa percebe que consegue colocar limites em outra língua, interessa-me o que tornou aquela recusa possível. Houve menos medo de decepcionar? Mais espaço para discordar? A resposta ajuda a compreender uma dificuldade que talvez fosse atribuída apenas ao próprio temperamento.
Volto, então, à declaração de amor. Além de conhecer as palavras, precisamos conseguir dizê-las a alguém. Às vezes, falar em outro idioma oferece a distância de que necessitamos para começar essa conversa.