Apagamos a luz, mas uma parte do dia continua conosco. A conversa que ficou por terminar, a espera por um exame, a saudade que encontrou pouco espaço entre os compromissos. Ao deitar, já não temos tantas tarefas às quais recorrer. O que vinha sendo adiado pode finalmente pedir atenção.

Penso nesse momento como uma passagem que cada pessoa atravessa à sua maneira. Há quem procure o silêncio, quem precise ouvir uma voz, quem faça uma oração aprendida na infância. Para quem tem fé, dirigir algumas palavras ao sagrado pode ser uma forma de compartilhar aquilo que, durante horas, pareceu ter de carregar sozinho.

Interessa-me o que acontece nessa entrega. Podemos ter feito tudo o que estava ao nosso alcance e, ainda assim, chegar à noite sem uma resposta. Descansar pede que aceitemos, por algumas horas, a continuidade da vida sem a nossa vigilância. Uma prece pode abrigar esse reconhecimento, com gratidão, medo ou até dificuldade de confiar.

O sono também nos devolve pessoas que já morreram. Um encontro em sonho pode trazer de volta a voz, um gesto, a sensação de proximidade. Ao acordar, a ausência permanece, mas algo na maneira de senti-la talvez tenha mudado.

Em um levantamento de 2023, realizado pelo Pew Research Center com 5.079 adultos nos Estados Unidos, 46% disseram ter sentido que um familiar morto os visitou em sonho. A pesquisa registrou esses relatos sem perguntar como os participantes os explicavam. Esse detalhe merece atenção, porque cada um pode dar um sentido ao que viveu.

Quando alguém compreende um sonho como um encontro espiritual, quero conhecer o lugar que essa experiência passa a ocupar em sua história. Que lembrança reapareceu? Houve conforto, inquietação, vontade de falar sobre a perda? A escuta precisa de tempo para acompanhar o relato, inclusive quando as palavras ainda não dão conta dele.

Vejo aí uma das passagens entre a ciência e o sagrado que orientam meu trabalho. Estudar os mecanismos do sono permite compreender processos do corpo e da mente. Ouvir o significado de um sonho nos aproxima da pessoa que acordou depois dele. Tenho interesse por essas duas dimensões e pelo que cada uma permite conhecer.

Na relação com a morte, a fé pode dar continuidade a um vínculo que perdeu sua presença no cotidiano. Na doença, pode ajudar alguém a receber auxílio, sustentar a espera ou encontrar disposição para participar do tratamento. Esses caminhos pertencem à história de cada um. Uma oração repetida durante anos pode adquirir outro sentido depois de um diagnóstico. Também pode deixar de oferecer o amparo de antes.

Procuro preservar espaço para essa mudança. Quem sempre acreditou pode sentir raiva, duvidar, não conseguir rezar. É preciso poder falar disso sem a obrigação de demonstrar confiança o tempo inteiro. A intimidade com o sagrado também comporta perguntas que ficam em aberto.

Ao pensar no que levamos para o sono, volto a essa possibilidade de repousar sem resolver tudo. Para algumas pessoas, ela passa pela fé. Para outras, pelo afeto, pela memória de alguém, pela percepção de que há ajuda disponível. Quero saber em que cada uma se apoia quando o dia termina e o que ainda precisa ser ouvido antes de apagar a luz.

VOCÊ TAMBÉM PODE GOSTAR

Instagram

Twitter