O que o Ayurveda enxergou na pele há milhares de anos que começamos a redescobrir agora?

Foto Divulgação

Durante muito tempo, aprendemos a cuidar da pele a partir daquilo que aparece no espelho. Ressecamento, oleosidade, manchas, linhas e sensibilidade passaram a orientar produtos e rotinas cada vez mais específicos. O Ayurveda, sistema tradicional de saúde desenvolvido na Índia há milhares de anos, parte de outra lógica: a pele não existe de forma isolada, mas integra um organismo cujo equilíbrio envolve alimentação, sono, digestão, rotina, emoções e ambiente.

Essa maneira de compreender o cuidado ganhou um novo significado para mim quando estudei Ayurveda na Índia. Durante minha vivência em hospitais ayurvédicos, acompanhei pacientes recebendo diariamente tratamentos por meio da pele. Óleos preparados com ervas eram aplicados na cabeça e no corpo dentro de protocolos que envolviam não apenas as substâncias utilizadas, mas também o toque, o tempo e a repetição.

Até então, minha atenção estava muito mais voltada ao que colocava dentro do organismo. Observava a alimentação, a nutrição e os medicamentos, mas não fazia as mesmas perguntas sobre aquilo que aplicava sobre a pele. A experiência me levou a questionar por que dedicamos tanta atenção ao que comemos e tão pouca ao que colocamos sobre o corpo.

A partir dali, comecei a estudar a pele não apenas pela perspectiva da aparência, mas pelo papel que ocupa dentro de uma visão mais ampla de cuidado.

Por que tanto óleo?

Uma das coisas que mais chamaram minha atenção nos hospitais da Índia foi a presença constante dos óleos. Eles apareciam nos cuidados com o corpo, a cabeça e a pele, preparados com plantas escolhidas de acordo com diferentes finalidades. Não eram tratados como uma etapa eventual de beleza, mas como parte da rotina.

No Ayurveda, a oleação integra diversas práticas. O Abhyanga está tradicionalmente associado à aplicação de óleo e à massagem corporal. O Shiro Abhyanga direciona o cuidado para a cabeça e o couro cabeludo. Já o Mukha Abhyanga leva a massagem e a oleação para o rosto.

Em comum, essas práticas mostram que o óleo não é entendido apenas como um recurso cosmético para melhorar a aparência da pele ou dos cabelos. Ele faz parte de um ritual de cuidado.

Essa diferença muda o ponto de partida do autocuidado. Hoje, é comum escolhermos um produto pensando no resultado que desejamos alcançar, como hidratar, controlar a oleosidade, suavizar linhas ou fortalecer os fios. O Ayurveda acrescenta outra pergunta: como esse cuidado se integra à rotina e à individualidade de cada pessoa?

Nutrir não é apenas hidratar

Meus estudos também ampliaram a maneira como compreendo a palavra nutrição quando falamos de pele. Hidratar, proteger e nutrir não são necessariamente a mesma coisa.

Podemos oferecer água e conforto à pele, protegê-la das agressões externas e fornecer substâncias que auxiliem na manutenção de sua barreira. Na perspectiva ayurvédica, porém, o cuidado não termina na superfície. A pele participa de uma compreensão mais ampla do organismo e, portanto, aquilo que acontece com ela também é observado em relação aos hábitos e ao estilo de vida.

Por isso, cuidar da pele não está dissociado de olhar para alimentação, digestão, sono, rotina e as mudanças que ocorrem ao longo da vida. Em vez de observar apenas um sinal isolado, procura-se compreender o contexto no qual ele aparece. Beleza e saúde, assim, não ocupam campos completamente separados.

Quando voltei da Índia, comecei a preparar meus próprios óleos. Fazia decocções de plantas, respeitava o tempo de preparo de cada erva e utilizava óleos vegetais, como gergelim e coco, seguindo princípios que havia aprendido durante os estudos.

Aos poucos, percebi que enxergava aquelas formulações quase como uma receita culinária. Como chef medicinal, a associação surgiu de maneira natural. Na cozinha, eu já estava acostumada a pensar na procedência de um ingrediente, no modo como ele havia sido preparado e na combinação entre diferentes elementos.

Passei, então, a levar as mesmas perguntas para aquilo que colocava sobre a pele. Se eu queria saber a origem de um alimento, por que não me interessaria pela procedência de uma planta presente em um óleo? Se o modo de preparo interfere no alimento, por que não observar também os processos envolvidos em uma formulação?

Foi assim que compreendi, na prática, que nutrir a pele poderia significar algo mais amplo do que aplicar um produto para resolver uma necessidade pontual. Significava prestar atenção à escolha dos ingredientes, ao preparo e à constância.

Dessa percepção nasceu a expressão “A pele também come”. Não porque a pele e o sistema digestivo funcionem da mesma maneira, mas porque podemos desenvolver, sobre aquilo que colocamos no corpo, uma consciência semelhante à que aprendemos a ter sobre o que colocamos no prato.

O toque também faz parte do cuidado

Outro aprendizado importante veio da maneira como os óleos eram aplicados. Nos tratamentos que acompanhei, não existia apenas uma formulação sendo colocada sobre a pele. Havia mãos, massagem, tempo e repetição. O toque fazia parte da prática.

Isso me fez perceber uma diferença em relação à forma como muitas vezes construímos nossas rotinas atuais. Acumulamos etapas e produtos, mas frequentemente realizamos tudo com pressa.

A tradição ayurvédica inclui o gesto no cuidado. No Abhyanga, óleo e massagem aparecem juntos. No Shiro Abhyanga, a atenção se volta para a cabeça e o couro cabeludo. No Mukha Abhyanga, para o rosto. O produto não está separado da forma como é aplicado.

Talvez seja também por isso que essas práticas tenham atravessado tantas gerações. Elas não dependem exclusivamente de um ingrediente específico ou de uma tendência de beleza. Fazem parte de uma rotina baseada na repetição e na observação do próprio corpo.

O que uma prática milenar pode ensinar à beleza contemporânea?

Vivemos um período em que a beleza se tornou cada vez mais orientada pela velocidade, por lançamentos e por ativos que entram e saem rapidamente das conversas. O Ayurveda trabalha em outra escala. Em vez de colocar a novidade no centro, valoriza a observação, a individualidade, a rotina e a constância.

Isso não significa rejeitar os avanços da cosmética ou da ciência contemporânea. Também não significa transportar práticas desenvolvidas há milhares de anos para o presente sem contexto ou olhar crítico. O que considero relevante é perceber quais princípios permaneceram atuais mesmo diante de tantas mudanças na maneira como vivemos e cuidamos do corpo.

Um deles é a individualidade. Outro é a constância. Há ainda a compreensão de que pele e cabelo não existem separados do restante da vida. Sono, alimentação, rotina, hábitos e diferentes fases podem se refletir na maneira como nos sentimos e também em como percebemos nossa pele e nossos cabelos.

Depois de estudar Ayurveda e acompanhar essas práticas na Índia, passei a olhar para o cuidado com a pele de uma forma menos imediatista. Nem tudo precisa começar pela pergunta “qual produto devo usar?”. Às vezes, outras questões precisam vir antes: o que minha pele está mostrando? Como está minha rotina? O que coloco sobre ela todos os dias? Quanto tempo dedico a observar suas mudanças?

É nesse ponto que uma tradição milenar encontra uma discussão bastante contemporânea. Em uma época de rotinas cada vez mais extensas e soluções cada vez mais rápidas, o Ayurveda nos convida a recuperar algo básico: observar o corpo antes de tentar corrigi-lo e compreender o cuidado como uma prática construída diariamente.

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