Preenchimento labial em adolescentes acende alerta entre dermatologistas

Foto Divulgação

O aumento da procura por preenchimento labial entre adolescentes tem acendido um sinal de alerta entre dermatologistas. O que antes eram pedidos por festas de 15 anos, hoje se transformou no desejo por lábios mais volumosos — uma tendência impulsionada pelas redes sociais, mas que envolve riscos reais à saúde, além de dilemas éticos.

Segundo a dermatologista Thais Barcellos, professora do curso de pós-graduação em Dermatologia da Afya Educação Médica, cresce o número de meninas que chegam aos consultórios sem indicação médica para o procedimento. Ela destaca que há uma banalização dos tratamentos estéticos, com profissionais realizando intervenções desnecessárias, utilizando produtos sem autorização da Anvisa — muitos deles contrabandeados ou até falsificados.

Entre os principais riscos estão infecções por contaminação, isquemias que podem evoluir para necrose e até a perda definitiva de tecido. “Tenho recusado cada vez mais atendimentos. Vejo meninas com lábios bonitos e volume normal, muitas vezes acompanhadas das mães, querendo aumentar os lábios por pura pressão social. A busca pela perfeição estética é intensificada pela exposição constante nas redes”, afirma Thais, que também é mãe de uma adolescente.

A médica explica que existem, sim, indicações específicas para preenchimento em pessoas jovens, como em casos de retrognatismo ou dificuldades funcionais no fechamento da boca. No entanto, a maior parte das indicações ocorre a partir dos 40 ou 50 anos, quando há perda natural de volume labial. “E mesmo quando faz sentido, geralmente é apenas uma seringa”, alerta.

Quando o procedimento é indicado, o ideal é o uso de produtos mais leves à base de ácido hialurônico, próprios para a mucosa oral, com duração média de 10 meses e efeito mais natural após o período inicial de inchaço.

A dermatologista Juliana Piquet também chama atenção para os efeitos do uso precoce e repetido do ácido hialurônico. Embora absorvível, o material pode causar distensão dos tecidos e alterar a arquitetura labial ao longo dos anos, além de favorecer uma dependência estética precoce. Ela reforça que a face continua em desenvolvimento até, aproximadamente, os 21 anos e que não existem estudos de longo prazo sobre o impacto desses procedimentos em adolescentes.

Outro ponto preocupante é a falsa sensação de segurança criada por perfis que exibem “antes e depois” nas redes sociais. Thais Barcellos alerta, inclusive, para o aumento de casos graves, como tuberculose cutânea, além de complicações vasculares que exigem intervenção médica imediata. Em situações assim, a orientação é registrar Boletim de Ocorrência e formalizar termos legais antes do tratamento corretivo.

As especialistas reforçam que, quando o desejo pelo procedimento está claramente ligado a filtros digitais, padrões irreais ou sofrimento psicológico, a conduta ética é não realizar o preenchimento. Também orientam que pacientes sempre exijam a etiqueta do produto com lote e procedência, desconfiem de preços muito baixos e saibam que materiais como PMMA, silicone e bioestimuladores jamais devem ser usados nos lábios.

O consenso entre as dermatologistas é claro: estética não é brincadeira — especialmente na adolescência — e a prudência hoje pode evitar danos irreversíveis no futuro.

Sair da versão mobile