
Tenho escutado, com frequência crescente, relatos que se repetem entre pessoas que iniciaram o uso de canetas emagrecedoras. Queda de cabelo, diminuição da libido, envelhecimento acelerado da pele, náuseas persistentes, dores de estômago, sensação constante de mal-estar. Sintomas que surgem antes mesmo de qualquer elaboração emocional sobre o processo de emagrecimento. Existe um preço que começa a ser pago no corpo antes de qualquer transformação subjetiva.
Não escrevo a partir de uma posição contrária ao uso dessas medicações quando há indicação clínica e acompanhamento adequado. Elas possuem lugar na medicina. O que me mobiliza é perceber como, para parte das pessoas, essas substâncias passam a ser utilizadas como resposta para questões que não são apenas metabólicas, mas emocionais e identitárias, ao mesmo tempo em que sinais físicos de sobrecarga se acumulam.
O mesmo é verdade em termos de segurança clínica. Em 2025, uma declaração da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) soou o alarme sobre episódios raros, mas graves, de pancreatite aguda ligados ao uso de agonistas GLP-1, como Wegovy e Mounjaro.
Na minha prática, tenho visto mais pacientes com magreza extrema, alguns com sinais de anorexia. Às vezes, é mais do que apenas perda de peso. Trata-se de uma relação cada vez mais rígida com o próprio corpo. Ouço as vozes de pessoas que, mesmo após atingirem seus objetivos, ainda não se sentem satisfeitas e buscam cada vez menos de si mesmas. É uma discussão mais baseada em números, quantificável e orientada para o controle, que não está mais relacionada à saúde.
Vendo esse padrão, reconheço que não estamos lidando apenas com um efeito corporal, mas com um fenômeno psicológico. A perda de peso acelerada pode funcionar como um mecanismo para estruturar um conflito interno que não tem espaço para se desenrolar, em alguns indivíduos. O corpo começa a se tornar um instrumento de regulação emocional. Costumo dizer que essas canetas, em alguns casos, acabam sequestrando a identidade. A pessoa começa a acreditar que é fundamentalmente definida pelo tamanho do seu corpo.
Tenho refletido que esse movimento também se insere em uma cultura que funciona como uma sociedade adolescente, orientada pela necessidade de pertencer e de corresponder ao que é considerado belo. Muitas pessoas passam a moldar o corpo a partir do olhar do outro, não da própria escuta. Esse cenário se articula a uma lógica de mercado na qual se produz a sensação de inadequação para, em seguida, oferecer a solução, movimentando cadeias de lucro que se estendem muito além da indústria farmacêutica.
É por isso que defendo que mudanças corporais intensas, induzidas por tratamentos que causam alterações severas, envolvam testes psicológicos e supervisão. Muitas vezes, o que está em jogo não é apenas perder peso. É buscar aliviar uma dor que ainda não encontrou outra expressão.