Quando a rotina saudável começa a esconder sofrimento, por Maria Klien

Há uma cena que se repete nas redes. A imagem é limpa, a música é calma e a legenda fala em foco. Alguém mostra o que come, organiza o treino e apresenta o próprio corpo como prova de que aquela rotina funciona. O vídeo termina sem parecer agressivo. O seguinte, porém, leva a disciplina um pouco adiante. Depois vem outro. Quando percebemos, o cuidado já ganhou a forma de cobrança.

Como psicóloga, o que me preocupa nesse percurso é justamente a facilidade com que um comportamento disfuncional pode receber aprovação social. A restrição aparece como determinação. O medo de comer se confunde com escolha consciente. A culpa encontra uma linguagem de produtividade. Por fora, tudo parece organizado; por dentro, a pessoa pode estar perdendo liberdade.

Um hábito não carrega o mesmo sentido em todas as vidas. Preparar uma refeição, praticar atividade física ou cuidar da alimentação pode fazer bem. O contexto muda quando essas ações deixam de admitir imprevisto, prazer, convívio e descanso. Se um almoço em família produz pânico, se faltar ao treino provoca desespero ou se o valor pessoal passa a depender do peso, já não estamos falando apenas de preferência. Há sofrimento ocupando o lugar da escolha.

A adolescência torna essa conversa ainda mais delicada. O corpo se transforma antes que a identidade esteja pronta para acompanhar a sua mudança. O olhar dos outros ganha intensidade, e o desejo de pertencer a um grupo pode fazer uma imagem funcionar como promessa. A imagem que perpassa é de alguém admirado, incluído, elogiado e aparentemente seguro. Para quem se sente deslocado, a ideia de reproduzir aquele corpo pode parecer um caminho para resolver esse problema, que ultrapassa a linha do que é aparência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) registra que os transtornos alimentares costumam emergir na adolescência e no início da vida adulta. Um dado do AMBULIM, programa ligado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, ajuda a dimensionar essa vulnerabilidade; ao longo de três décadas, 85% dos casos considerados pelo serviço começaram entre 12 e 18 anos. São quadros sérios, capazes de comprometer a saúde física, a vida afetiva e, em situações graves, a própria sobrevivência.

O feed acrescenta uma camada particular a esse processo. As recomendações aprendem com sinais de interesse. Uma pausa, a repetição de um vídeo, uma busca ou um perfil seguido ajudam a decidir o que aparecerá depois. O sistema reconhece atenção, mas não conhece o motivo emocional que a produziu. Curiosidade, medo, comparação e recaída podem deixar rastros digitais parecidos.

É por isso que o comando “não tenho interesse” não resolve sozinho a questão. Para acionar o mesmo, o usuário da rede precisa perceber o risco, desejar interromper a sequência e sustentar essa decisão. Uma pessoa envolvida por um transtorno talvez encontre justamente naquele material a confirmação que procura. O conteúdo oferece regras, linguagem e um grupo. Mesmo quando provoca dor, também pode dar uma sensação de pertencimento.

Comunidades que se apresentam como favoráveis à anorexia ou à bulimia evidenciam esse paradoxo. Seus participantes podem deixar de reconhecer a experiência como doença e passam a tratar como identidade. Nesse ambiente, aceitar ajuda ameaça o vínculo com o grupo, enquanto a piora recebe reconhecimento. A vergonha se torna ainda mais difícil de atravessar porque a pessoa teme decepcionar tanto quem tenta cuidar dela quanto quem legitima o comportamento.

Influenciadores não criam sozinhos um transtorno alimentar, que envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Ainda assim, participam da cultura que define quais corpos merecem atenção e quais hábitos recebem aplauso. Quando publicidade, edição e rotina pessoal aparecem misturadas, um adolescente nem sempre dispõe de referências para separar experiência real de estratégia de venda. A promessa de saúde pode servir para normalizar rigidez, privação e autocensura.

Em casa, a primeira reação costuma nascer do medo. A família observa mudanças no prato, no humor ou na convivência e tenta recuperar o controle. Fiscalizar cada refeição, confrontar a pessoa diante de todos ou discutir aparência tende a aumentar o isolamento. Também não ajuda elogiar emagrecimento, fazer brincadeiras sobre corpos ou transformar dietas no assunto permanente da mesa.

Acolhimento e limite precisam caminhar juntos. A pessoa deve saber que não será humilhada por contar o que está vivendo, mas também não pode ser deixada sozinha diante de um risco que talvez já não consiga medir. Observar mudanças persistentes, abrir conversa sem interrogatório e procurar uma equipe especializada são formas de intervir sem reduzir alguém ao que come ou deixa de comer.

Tratamento não é uma disputa de força de vontade. Pode envolver psicoterapia, cuidado médico, acompanhamento nutricional, avaliação psiquiátrica e participação familiar. Quanto mais cedo o sofrimento encontra linguagem e suporte, maiores são as possibilidades de reconstruir uma relação menos punitiva com o corpo e com a alimentação.

Quando volto àquela imagem calma do início, penso no que ficou fora do enquadramento. A rotina pode mostrar organização e esconder medo. Pode exibir resultado e omitir solidão. Cuidar começa ao recuperar aquilo que o vídeo não consegue medir: a liberdade de comer sem prova, habitar o corpo sem transformá-lo em projeto permanente e participar da vida sem precisar merecê-la pela aparência.

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