Quando cuidar de si também precisa aparecer, por Maria Klien

O treino termina, mas ainda falta escolher a fotografia. Procuramos o ângulo, verificamos a luz, decidimos o que escrever e, depois de publicar, voltamos algumas vezes para acompanhar as reações. Compartilhar pode fazer parte do prazer daquela experiência. Interessa-me, porém, o momento em que a resposta dos outros começa a determinar o valor do que acabamos de fazer, como se o esforço precisasse ser reconhecido na tela para encontrar lugar em nossa vida.

Essa passagem nem sempre é percebida. Podemos desejar saúde, disposição e algum alívio das tensões enquanto procuramos demonstrar que estamos conseguindo. Aos poucos, a atenção se divide entre sentir e apresentar. Durante a atividade, já pensamos no registro; diante da refeição, avaliamos a imagem; mesmo o descanso pode trazer a preocupação de comunicar uma existência em equilíbrio.

Penso no cansaço de carregar um observador imaginário para esses momentos. Alguém que parece avaliar nossa disciplina, nossa aparência e a maneira como administramos o tempo. Sob esse olhar, o corpo pode se tornar um projeto que nunca chega a uma condição satisfatória, porque cada conquista encontra outra referência e cada resultado parece exigir uma nova intervenção.

O mercado de bem-estar participa dessa relação quando associa a aparência de quem anuncia ao consumo de um produto. Uma pele, um cabelo ou uma silhueta passam a funcionar como evidência de uma promessa, embora desconheçamos quanto daquele resultado depende de acompanhamento, procedimentos, recursos e condições que não aparecem na publicação. Recebemos uma indicação de compra junto com uma expectativa sobre quem poderíamos nos tornar.

Há algo que me inquieta quando essa expectativa retorna como julgamento. A pessoa investiu dinheiro, tempo e confiança, mas, ao não alcançar o que imaginava, conclui que lhe faltou empenho. A promessa permanece pouco examinada, enquanto o corpo se torna o lugar onde ela procura a explicação para a frustração. Assim, uma narrativa que omitiu parte das condições do resultado pode alimentar dúvidas sobre o próprio valor.

Também penso no espaço que sobra para a intimidade quando tudo parece precisar de uma forma apresentável. Estar cansado, interromper uma rotina, atravessar uma mudança ou simplesmente não querer registrar são experiências que podem provocar desconforto em quem se habituou a sustentar uma imagem de constância. É possível continuar cuidando de si durante esses períodos, ainda que esse cuidado não produza uma fotografia ou um relato de superação.

A exposição oferece encontros, reconhecimento e incentivo. Podemos descobrir uma modalidade, acompanhar alguém com quem nos identificamos ou encontrar companhia para começar. Mas vale observar o que acontece quando a aprovação passa a orientar decisões que deveriam considerar também desejo, disponibilidade e limites. Uma prática pode fazer sentido para o corpo e, ao mesmo tempo, perder seu lugar porque não desperta interesse em quem a acompanha.

Gostaria de preservar, nessa conversa, o direito a uma experiência que não precise ser inteiramente traduzida em imagem. Uma caminhada cujo percurso ninguém conhecerá, uma refeição que não será fotografada, uma pausa sem justificativa. Esses momentos permitem perceber como estamos antes de decidir o que desejamos comunicar.

Quando o telefone é deixado de lado, podemos voltar a atenção para o que a atividade nos proporcionou, ao desconforto que permanece ou à necessidade de mudar alguma coisa. Esse contato pede disponibilidade para reconhecer sensações que nem sempre correspondem à imagem que gostaríamos de apresentar. É também ali, na relação com o que sentimos, que nossas escolhas encontram elementos para continuar.

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