Quando o luxo virou conseguir ficar em silêncio, por Maria Klien


Existe uma cena contemporânea que me chama atenção. Pessoas sentadas em restaurantes olhando para telas enquanto esperam comida. Amigos reunidos sem conseguir sustentar o silêncio. Casais interrompendo conversas para responder mensagens. Crianças aprendendo a deslizar o dedo antes mesmo de aprender a sustentar frustração.

Vivemos uma era em que a atenção se tornou mercado. Plataformas disputam permanência psíquica. Algoritmos entendem comportamento humano com precisão crescente. O resultado aparece no corpo. Insônia, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação contínua de esgotamento passaram a integrar a rotina de pessoas que sequer conseguem identificar o momento em que perderam contato consigo mesmas.

Talvez por isso exista algo tão simbólico no retorno de práticas manuais. Costurar, pintar, desenhar ou modelar argila deixaram de ocupar apenas um espaço estético e passaram a representar uma necessidade emocional contemporânea.

Quando observo o crescimento de ateliês, oficinas de cerâmica e encontros criativos, não vejo apenas uma tendência cultural. Vejo uma tentativa coletiva de reconstruir a relação com a presença.

A mente ansiosa possui dificuldade de permanecer no agora. Ela vive projetada para frente. O futuro vira ameaça constante. Existe um estado de alerta quase permanente atravessando muitas pessoas. O corpo permanece funcionando como se algo fosse acontecer o tempo inteiro.

Atividades manuais interrompem essa lógica porque exigem outro tipo de atenção. Não existe aceleração possível em certos processos. A tinta precisa secar. O traço precisa ser construído. O ponto precisa ser repetido. O barro precisa de tempo.

Existe uma dimensão psicológica muito forte nisso. O universo digital fragmentou a experiência humana em estímulos rápidos e descartáveis. Consumimos imagens sem elaboração. Informações sem profundidade. Emoções sem permanência. O excesso de velocidade começou a produzir uma incapacidade crescente de sustentar presença emocional.

Percebo que muitas pessoas estão cansadas sem compreender exatamente do que. Elas descansam fisicamente, mas continuam mentalmente aceleradas. Dormem exaustas e acordam esgotadas. O problema nem sempre é a quantidade de tarefas. Muitas vezes, é excesso de estímulo sem assimilação.

Quando alguém pinta, borda ou desenha, algo importante acontece. O pensamento desacelera porque a experiência exige coordenação entre corpo e atenção. Existe uma reorganização silenciosa do sistema nervoso.

Também me interessa a dimensão simbólica dessas práticas. Em um mundo onde quase tudo virou performance, atividades manuais ainda preservam a imperfeição. E talvez exista algo profundamente terapêutico nisso. Nem tudo precisa ser otimizado, publicado ou monetizado.

Tenho visto pessoas retomando hobbies que abandonaram na infância. Outras descobrindo experiências criativas pela primeira vez. Em muitos casos, o que procuram não é talento artístico. É interrupção do excesso.

A Bienal de Veneza de 2026 oferece uma imagem muito precisa desse movimento. Em uma exposição marcada pela circulação de públicos, obras e interpretações, a proposta inclui espaços de descanso e instalações que funcionam como convites à pausa. A obra não apenas se oferece ao olhar. Ela interrompe a pressa do visitante.

Esse gesto me parece profundamente contemporâneo. Durante muito tempo, fomos ensinados a consumir arte, informação, beleza e experiência com velocidade. Ver tudo, registrar tudo, publicar tudo. Agora, algumas obras parecem dizer o contrário: permaneça. Respire. Escute. Não atravesse a experiência como quem atravessa uma tela.

É exatamente essa a função simbólica das práticas manuais hoje. Elas não nos pedem desempenho imediato. Elas pedem permanência.

Existe uma ideia equivocada de que saúde mental depende apenas de grandes mudanças. Mas o psiquismo também responde a pequenos rituais cotidianos. Silêncio. Repetição. Pausa. Contato sensorial. Presença.

Talvez o verdadeiro luxo contemporâneo não seja velocidade, produtividade ou hiperconectividade. Talvez seja conseguir permanecer inteiro dentro do próprio tempo.

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