Tem semanas em que a cidade muda de temperatura. Não é o calendário, é o ar. É esse frisson coletivo que só acontece quando a arte toma conta das ruas, dos ateliês, dos jantares, das rodas e, confesso, do meu próprio corpo. Porque eu sou disso: uma amante, uma entusiasta, alguém que carrega um olhar de arquiteta sobre o mundo, que analisa em estrutura, em proporção, em como as coisas se estruturam, conversam, se relacionam e, ao mesmo tempo, um fraco confesso por tudo que é belo e sensível. É essa combinação que sequestra minha atenção: a forma e o sentimento, juntos. Acredito que a arte não é sobre entender, é sobre sentir o mundo com mais camadas. É sensibilidade em estado bruto, é leitura de mundo, é o que a gente escolhe trazer para dentro de si e devolver para fora, transformando o mundo à nossa volta.
E essa semana tem nome: Rotas Brasileiras, de 26 a 30 de agosto, na Vila Leopoldina. Um desses raros momentos em que São Paulo deixa de ser só a cidade que produz arte para virar, por alguns dias, o lugar que a exibe, discute, compra e celebra, estande a estande, galeria a galeria, num mesmo endereço, na Av. Manuel Bandeira, 360. Para quem, como eu, vive de sensibilidade e não só de agenda, é o tipo de semana que a gente separa no calendário como quem separa uma data que vibra nosso coração.
E é dentro dela, nesse conjunto de rotas, de vozes, de estandes disputando atenção, que a Galeria Frente decide fazer algo raro: parar tudo, todo o seu estande, quase 90 m² de silêncio e reverência, para dizer um nome só. Arcangelo Ianelli.
Confesso que, quando soube, fiquei tocada antes mesmo de ver a primeira tela. Porque homenagear é um gesto de amor e homenagear assim, por inteiro, é quase um ato de resistência num mundo de arte que muitas vezes corre rápido demais, que expõe pouco e vende muito. A Frente escolheu o caminho contrário: contar uma vida inteira. Cerca de 30 obras que atravessam décadas, das paisagens e marinhas do Ianelli mais jovem, ainda figurativo, até a fase geométrico-construtiva, até os grandes campos de cor que o consagraram, até o mármore, matéria fria que ele soube fazer respirar luz.
Porque é disso que a obra de Ianelli é feita: luz. Uma luz densa, quase física, brasileira até a raiz, mesmo dialogando com toda a abstração do pós-guerra internacional. Ele pegou um problema só, reduzir a paisagem a puro campo de cor, e passou a vida inteira aprofundando essa pergunta. Isso, para mim, é o que separa um artista de um gênio: não a quantidade de temas, mas a coragem de escavar fundo um único mistério durante a vida inteira.
Acácio Lisboa, galerista da Frente é alguém que carrega essa missão com uma delicadeza rara, resume isso melhor do que eu conseguiria: “Reunir obras de todas as fases de Ianelli em um mesmo espaço é uma oportunidade rara. Poucos artistas brasileiros permitem acompanhar, com tanta clareza, a passagem da figura para a abstração como um processo contínuo e não como uma ruptura.” Processo, não ruptura. Guardo essa frase comigo, porque ela também é sobre a vida e também sobre a minha vida.
E tem um gesto, dentro desse gesto maior, que me emociona particularmente: no dia 27, Acácio recebe pouquíssimos convidados em sua própria casa para celebrar o artista. Ali estarão Katia e Rubens Ianelli, filhos do mestre, que carregam seu legado. É sobre quem continua contando suas curiosidades e histórias depois que o artista já não pode mais contá-las.
Essa semana é sobre isso: parar, olhar e analisar a luz que um homem levou a vida inteira para capturar numa tela. Vale a visita. Vale o silêncio de ficar diante de um Ianelli maduro e não dizer nada, apenas sentir…
Se quiser acompanhar tudo que vai acontecer nesse jantar, me acompanhe no @vickbacchi nesta quarta-feira, às 20h.
Serviço
Rotas Brasileiras – Mostra Arcangelo Ianelli
Galeria Frente
Av. Manuel Bandeira, 360 – Vila Leopoldina
26 a 30 de agosto de 2026
Estande: B01
Fotos: Divulgação