A relação entre arte e política ganha novos contornos na exposição “A ressaca da democracia”, do artista venezuelano Alexander Apóstol. A mostra, que abre em 12 de novembro na Galeria Raquel Arnaud, em São Paulo, utiliza cores, formas geométricas e referências históricas para discutir as transformações da democracia na Venezuela e seus reflexos na América Latina.
Esta é a primeira exposição individual de Apóstol no Brasil. O artista, nascido em Barquisimeto, em 1969, já participou da 25ª Bienal de São Paulo e integra a coletiva “Histórias latino-americanas”, no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Com texto crítico de Ana Maria Maia, a nova mostra permanece em cartaz até 6 de março de 2027.
Quando as cores também representam a política
O ponto de partida da exposição é o período democrático vivido pela Venezuela entre 1958, após a queda da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, e 1998, ano da eleição de Hugo Chávez.
Durante essas quatro décadas, diferentes partidos políticos disputaram espaço em um país que também passava por transformações econômicas e culturais. Foi nesse período que o abstracionismo geométrico ganhou força na arte venezuelana, especialmente com nomes como Jesús Rafael Soto, Carlos Cruz-Diez e Alejandro Otero.
As cores também tinham uma função importante nas eleições. Como parte da população não sabia ler, as cédulas eleitorais identificavam os partidos por tonalidades distintas, facilitando o reconhecimento das legendas.
Alexander Apóstol recupera essas referências para investigar como os símbolos políticos se transformam ao longo do tempo. Em trabalhos anteriores, o artista utilizou antigas cédulas de votação, retirando nomes e números para preservar apenas suas estruturas gráficas.
Ao explorar mudanças de tonalidade e sobreposições, suas obras também fazem referência à fusão e ao desaparecimento de partidos, além das transformações na representação política.
Arte geométrica e memória coletiva
Na Galeria Raquel Arnaud, espaço com uma trajetória ligada à arte construtiva e cinética, a produção de Apóstol estabelece um diálogo com a história da abstração geométrica na América Latina.
As obras ultrapassam a superfície das paredes e ocupam o espaço expositivo, aproximando o público das questões levantadas pelo artista.
No texto crítico da exposição, Ana Maria Maia observa que os trabalhos recuperam documentos e símbolos associados a direitos políticos que se perderam ao longo da história. Ao mesmo tempo, suas composições utilizam a força visual das cores para despertar a atenção do visitante.
A curadora também aproxima essa experiência das propostas participativas de Hélio Oiticica, artista brasileiro que defendia uma relação mais ativa entre obra e público.
Uma reflexão sobre o presente
O título “A ressaca da democracia” faz referência às expectativas que acompanham os períodos eleitorais e aos desafios que surgem depois deles.
No Brasil, a expressão “festa da democracia” ganhou espaço após a redemocratização, em 1985. A exposição recupera essa ideia para questionar o que acontece quando as instituições e os símbolos democráticos passam por transformações e ameaças.
Ao relacionar episódios da história venezuelana com questões contemporâneas, Apóstol propõe um olhar sobre a memória política e as diferentes formas de participação na sociedade.
A mostra apresenta, assim, uma investigação que vai além da linguagem geométrica, convidando o público a observar como cores, imagens e documentos podem carregar significados políticos e históricos.
Serviço
Exposição: A ressaca da democracia — Alexander Apóstol
Abertura: 12 de novembro de 2026, às 18h
Período: De 12 de novembro de 2026 a 6 de março de 2027
Local: Galeria Raquel Arnaud — Rua Fidalga, 125, Vila Madalena, São Paulo
Funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h
Entrada: Gratuita
Site: www.raquelarnaud.com