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Amanda Vargas – Foto Divulgação

Ela começou com um grupo de 35 amigas querendo se organizar para viver o Carnaval do Rio de Janeiro com mais segurança e informação. Hoje lidera um ecossistema de entretenimento de sucesso, com festas premium, sociedades estratégicas e uma comunidade feminina que soma milhares de integrantes ativas.

À frente do Bloco das Gaúchas e sócia da FOLK e da BG Entretenimento, Amanda Vargas construiu mais do que eventos disputados: construiu uma rede de mulheres que consomem, viajam, ocupam camarotes e, principalmente, ocupam espaços de poder.

Em um mercado ainda dominado por homens, ela faz questão de ter mulheres como sócias majoritárias e lideranças operacionais. Segurança feminina, curadoria de experiências e inteligência de negócio viraram assinatura.

Em conversa exclusiva para o GLMRM, Amanda fala sobre preconceito, liderança feminina, bastidores do Carnaval e o que ninguém vê por trás das festas mais desejadas da temporada.

Você saiu de uma formação em Direito para comandar um dos negócios mais lucrativos do Carnaval. O que essa virada representou para você pessoalmente?

Para mim, essa virada representou a coragem de seguir algo em que eu realmente acreditava, mesmo sendo um caminho improvável para quem vem de uma família cristã e conservadora do interior do Rio Grande do Sul. Eu não cresci sonhando em ter um bloco de Carnaval no Rio de Janeiro, mas sempre sonhei com independência, mobilidade e liberdade — e foi apostando na energia única e na potência do Carnaval que conseguimos construir isso.

Desde o início, fiz isso ao lado da minha irmã, Guta, porque acreditávamos que muitas mulheres, mesmo as que vêm dos lugares mais distantes do Brasil, também mereciam — ou melhor, precisavam — sentir essa mesma energia e liberdade que só o Carnaval proporciona.

A festa do Bloco das Gaúchas é uma das únicas premium com mulheres como sócias majoritárias. Por que isso é inegociável para você?

É inegociável porque nós, enquanto comunidade do Bloco das Gaúchas, entendemos profundamente como construir uma experiência de Carnaval melhor para as mulheres. Só quem viveu certas dores e contextos sabe o quanto detalhes de acolhimento, segurança e conforto fazem diferença dentro de um evento.

Por isso, ter mulheres como sócias majoritárias garante que esse olhar esteja no centro das decisões e que a sensibilidade e a expertise feminina tenham a palavra final, mantendo o projeto fiel ao propósito que sempre guiou o Bloco das Gaúchas: levar cada vez mais meninas a viver dias incríveis de Carnaval e perceber, antes de voltarem para casa, que o mundo é muito maior do que a caixinha onde muitas vezes somos colocadas — um mundo de liberdade, amizade, alegria e novas possibilidades.

Você costuma dizer que mulheres resolvem problemas sem “vender dificuldade”. O que o mercado ainda não entendeu sobre liderança feminina?

Quando você ocupa um espaço que disseram não ser seu, entende que não há muito espaço para reclamar — é preciso ir lá e fazer acontecer. O nosso espaço para errar ou pestanejar é praticamente zero.

Em nichos onde ainda há poucas lideranças femininas, como o entretenimento, é importante entender por quê. Durante muito tempo se criou a ideia de que esse não é um mercado feito para mulheres liderarem, seja pelo ritmo intenso ou pelas noites de trabalho — o curioso é que, em praticamente todos os eventos, as mulheres representam entre 50% e 60% do público.

Então, essa representatividade de quem frequenta também precisa estar refletida em quem faz o evento acontecer.

Isso porque vejo nas mulheres uma capacidade impressionante de concentração, organização e execução de múltiplas tarefas ao mesmo tempo — algo essencial em um setor tão dinâmico quanto o entretenimento.

E, por fim, os detalhes: eventos premium exigem riqueza de cuidado, e muitos deles são percebidos de forma muito natural pelo olhar feminino.

O cuidado com segurança feminina virou uma marca sua, dos copos com tampa à cartilha de orientação no Rio. Isso nasceu de experiências pessoais?

Sim, nasceu muito da nossa própria experiência como foliãs. Eu e minha sócia fomos transformando dificuldades e angústias que vivemos no Carnaval em soluções reais dentro do evento e da comunidade do Bloco das Gaúchas.

Ao longo dos anos, fomos criando cuidados que ajudam outras meninas a se sentirem mais seguras e confortáveis para viver o Carnaval do Rio — desde os copos com tampa, pensados para evitar qualquer risco na bebida, até orientações práticas de logística, hospedagem e segurança na cidade.

Mas existe também um cuidado com o ambiente que queremos criar. Desde o início, buscamos construir uma comunidade feminina sem competição, onde as meninas se ajudam e se acolhem.

Muitas chegam sozinhas ao Carnaval e encontram companhia dentro da própria comunidade para dividir apartamento, ir aos blocos, às festas e até aos camarotes na Sapucaí. Tanto que criamos um grupo chamado “Sozinha Nunca”, justamente para que ninguém precise viver essa experiência sem apoio.

No fim, mais do que uma festa, o que a gente busca é transformar o Carnaval em um espaço de liberdade, segurança e conexão entre mulheres.

Você também é sócia de projetos como o Réveillon e o Day Zero em Milagres. O que você busca quando decide entrar em uma sociedade?

Quando eu decido entrar em uma sociedade, a primeira coisa que observo é o alinhamento de valores. Sou muito grata às sociedades que abrem espaço para que eu participe em posições de liderança, especialmente em um setor onde muitas vezes eu e minha sócia, Guta, somos as únicas mulheres nas reuniões estratégicas.

Ao mesmo tempo, sou bastante criteriosa nas escolhas dos projetos. Trabalho majoritariamente com eventos premium, então busco sociedades que tenham o mesmo compromisso com excelência de produção, qualidade da experiência do público e cuidado com as equipes de trabalho.

Também olho muito para o impacto positivo que o projeto pode gerar — tanto para a comunidade local quanto para práticas de sustentabilidade e para o desenvolvimento do destino onde ele acontece.

No fim, eu busco projetos que tenham propósito.

No caso do Réveillon dos Milagres e do Day Zero, por exemplo, são propósitos muito bonitos, porque ao mesmo tempo em que oferecemos uma experiência mágica aos clientes — de conexão com a natureza e com eles mesmos — também impulsionamos a economia local, trocamos experiências riquíssimas com a comunidade, atuamos com um olhar atento para a sustentabilidade e valorizamos o Brasil e suas brasilidades.

Em meio ao glamour das festas, você parou tudo para coordenar doações nas enchentes do Rio Grande do Sul. De onde vem esse senso de responsabilidade?

Esse senso de responsabilidade vem muito das minhas raízes. Eu sou do interior do Rio Grande do Sul e cresci em uma família muito integrada à comunidade, onde ajudar o próximo sempre foi algo natural.

Quando vi o que estava acontecendo com o meu estado, foi um momento de dor muito profundo. Naquele instante, tudo o que se relacionava a glamour, trabalho ou dinheiro perdeu completamente o sentido para mim — a única coisa que importava era ajudar a minha terra e as pessoas de lá.

Tudo aconteceu muito rápido. Eu e minha irmã chegamos a um ponto de coleta de doações em São Paulo apenas para levar donativos, mas, com o nosso olhar de produção, percebemos que os voluntários estavam um pouco perdidos e que poderíamos ajudar a organizar processos e mobilizar a nossa rede de contatos.

Em 24 horas, o que era apenas um ponto de coleta virou um verdadeiro centro de distribuição. Foi assim que nasceu o Conexão SP-RS, um movimento que mobilizou milhares de toneladas de doações enviadas de São Paulo para o Rio Grande do Sul, por caminhões e até aviões cedidos por parceiros.

Foram dias trabalhando até 20 horas por dia, conectando quem precisava de ajuda com quem queria ajudar.

No final, foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Curiosamente, uma das experiências mais transformadoras que já vivi profissionalmente não foi para gerar lucro — foi para exercer solidariedade.

E quem acabou ganhando muito fui eu, pela oportunidade de me conectar com pessoas extraordinárias, profundamente alinhadas aos valores em que acredito.

O que ninguém imagina sobre os bastidores de uma festa que fatura milhões?

Uma coisa que quase ninguém imagina sobre os bastidores de uma festa que fatura milhões é como algumas percepções do público são diferentes da realidade da produção.

Muita gente pensa, por exemplo, que paga mais caro pelo ingresso porque o evento é open bar. Às vezes até chegam pedidos curiosos no concierge perguntando se existe desconto para quem não bebe álcool.

O que pouca gente imagina é que o custo da bebida está longe de ser o maior custo de um evento como o nosso — na verdade, representa apenas uma pequena parte do orçamento total.

O que realmente exige investimento é toda a estrutura para criar a experiência: cenografia, tecnologia, logística, equipes, conforto do público e inúmeros detalhes que acontecem nos bastidores.

Tanto que este ano decidimos investir também em mocktails, drinks sem álcool, justamente para que quem não bebe tenha uma experiência igualmente especial.

No fim, uma festa que parece simples para quem está curtindo é resultado de um enorme trabalho coletivo e de uma verdadeira obsessão por detalhes.

Qual é o próximo passo? Expandir nacionalmente? Internacionalizar? Ou fortalecer ainda mais essa comunidade feminina?

É curioso, porque o Bloco das Gaúchas nasceu há 12 anos como uma comunidade, muito antes de se falar em “marketing de comunidade”.

O propósito sempre veio primeiro — tanto que a festa só se tornou um negócio cerca de seis anos depois da criação do grupo.

Hoje, quando penso em crescimento, a prioridade é continuar fortalecendo essa comunidade e preservar a experiência. Entendemos que a força da marca também está na escassez, por isso mantemos apenas três edições por ano — no Carnaval, em São Paulo e no Rio Grande do Sul — para que cada encontro continue sendo especial.

Ao mesmo tempo, pensamos muito em criar novas marcas e novos projetos que também possam crescer em nível nacional.

A entrada no Réveillon dos Milagres e no Day Zero foi um passo importante nesse sentido, porque são eventos extremamente relevantes fora do calendário do Carnaval.

E existe também um olhar muito claro para o turismo. Neste momento, o Brasil está no hype.

Temos recebido cada vez mais estrangeiros interessados nas nossas experiências, seja nos eventos ou em projetos como o restaurante Araá, no Morro da Urca.

Então o próximo passo é preparar cada vez mais as nossas operações para esse público internacional — desde equipes bilíngues até uma estrutura pensada para receber bem quem vem de fora.

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