
Por Will Costa
Durante décadas, o automóvel foi um dos grandes símbolos de independência, conquista e status para os jovens. Essa relação mudou. Não necessariamente porque a geração Z deixou de se interessar por carros, mas porque o automóvel hoje disputa atenção com novas formas de mobilidade, tecnologia, entretenimento e consumo.
No Brasil, inclusive, dados recentes da Serasa Experian mostram que 25,3% dos jovens de até 29 anos apresentam afinidade com financiamento de veículos.
O interesse existe. O desafio é entender como o universo automotivo volta a fazer parte da cultura dessa geração.
Foi uma das principais percepções que tive acompanhando de perto o Festival Interlagos 2026. O evento reuniu montadoras, experiências, ativações e test-drives, mas uma de suas maiores virtudes foi não se limitar ao automóvel.
O festival incorporou música, entretenimento e comportamento como ferramentas para ampliar sua audiência. E isso era perceptível até fisicamente dentro do evento.

Durante o dia, grande parte do público estava concentrada nos carros, estandes, lançamentos e experiências das marcas. Era, de forma geral, uma audiência mais madura e já conectada ao universo automotivo.
No final da tarde, começava uma espécie de troca de público. Muitas das pessoas que chegaram cedo deixavam o autódromo por volta das 17h ou 18h, enquanto uma nova leva entrava motivada principalmente pelos shows.
Essa rotatividade talvez seja uma das imagens mais interessantes do festival: o mesmo espaço conseguindo conversar com públicos diferentes por meio de interesses diferentes.
A programação musical ajuda a explicar isso. Matuê, L7nnon e Dubdogz têm forte conexão com audiências mais jovens. Ao mesmo tempo, Ja Rule cria uma ponte direta com uma geração acima dos 30 anos que viveu o auge do hip-hop e do R&B dos anos 2000.
Nos bastidores, isso ficou ainda mais evidente. Havia jovens que estavam no festival principalmente para assistir ao L7nnon e praticamente não conheciam as músicas de Ja Rule. Enquanto isso, para outra parcela da audiência, ouvir Ja Rule naquele contexto era quase um exercício de memória afetiva.
A proximidade com Fabulouz Fabz, que há anos participa da operação e das vindas de Ja Rule ao Brasil, também nos permitiu acompanhar essa dinâmica de perto e perceber como diferentes gerações passaram a ocupar o mesmo ambiente por razões completamente distintas.

É exatamente aí que está uma das maiores oportunidades para o setor.
O jovem não necessariamente precisa entrar no universo automotivo pelo motor. Ele pode entrar pela música, pela moda, pelo design, pela tecnologia ou pelo entretenimento. Depois, o carro passa a fazer parte daquela experiência.
Scuderia Bandeiras: automobilismo para ser vivido
Outro ponto que reforçou essa transformação foi a experiência criada pela Scuderia Bandeiras. A equipe levou ao Festival Interlagos os Caterham Seven, carros extremamente leves e desenvolvidos para entregar uma experiência muito próxima da essência da pilotagem.
Mais do que simplesmente colocar o veículo em exposição, a proposta era inserir o público naquele universo e transformar o automobilismo em algo tangível.
Simuladores, desafios, contato com pilotos profissionais, proximidade com os bastidores e experiências na pista ajudavam a diminuir a distância entre quem assiste ao automobilismo e quem efetivamente vive aquilo.
Eu tive a oportunidade de experimentar isso ao lado de Christian Fittipaldi, um dos principais nomes do automobilismo brasileiro e chefe de equipe da Scuderia Bandeiras.
Estar dentro de um Caterham em Interlagos e viver aquela experiência com alguém que construiu uma carreira internacional no automobilismo muda completamente a percepção de quem normalmente acompanha tudo do lado de fora.
Ali, o automobilismo deixa de ser algo apenas para assistir e passa a ser algo para sentir.
E talvez esse seja outro aprendizado importante do festival: para aproximar novos públicos, o setor automotivo precisa reduzir a distância entre fã, produto, piloto e pista.
Quando alguém entra no carro, conhece os bastidores, conversa com quem vive aquele esporte e sente, na prática, aceleração, frenagem e comportamento do veículo, cria-se um nível de conexão muito mais difícil de reproduzir em uma exposição estática.
A Scuderia Bandeiras conseguiu traduzir performance em experiência, e experiência gera memória.
Texaco + Approve: quando o universo automotivo encontra a cultura de rua

Outro movimento que simbolizou muito bem essa transformação foi a parceria entre Texaco e Approve.
De um lado, uma marca centenária profundamente associada ao universo automotivo. Do outro, uma marca brasileira de streetwear com enorme capacidade de comunicação com públicos mais jovens.
A colaboração levou referências históricas da Texaco, como uniformes, oficinas, pistas, símbolos e elementos de seu acervo, para uma coleção de moda desenvolvida pela Approve.
Mais interessante do que as peças em si é o movimento estratégico por trás delas.
A Texaco não tentou simplesmente convencer um jovem a consumir uma comunicação tradicional de lubrificantes. Ela entrou em um território cultural que esse jovem já consome.
A estrela da Texaco, que historicamente aparece em postos, oficinas e competições automobilísticas, passa também a existir em uma jaqueta ou camiseta de streetwear.

Isso cria uma nova porta de entrada para a marca e, indiretamente, para todo o universo automotivo.
Esse tipo de movimento é especialmente relevante porque talvez a grande disputa do mercado automotivo nos próximos anos não seja apenas por preferência de produto, mas por relevância cultural.
Durante décadas, o setor conseguiu produzir desejo a partir do próprio automóvel. Hoje, talvez precise conversar de forma mais ampla com moda, música, esporte, tecnologia, games e comportamento.
O Festival Interlagos mostrou justamente esse caminho.
O desafio não é abandonar quem já gosta de carros. É continuar falando com esse consumidor enquanto se criam novas portas de entrada para quem ainda está fora desse universo.
Pode ser por meio de um lançamento. Pode começar em um show do Matuê ou do L7nnon. Pode surgir da memória afetiva de quem cresceu ouvindo Ja Rule. Pode acontecer ao entrar em um Caterham ao lado de Christian Fittipaldi. Ou pode nascer a partir de uma collab entre Texaco e Approve.
Porque, para conquistar uma nova geração, talvez o mercado automotivo precise entender que o carro continua sendo protagonista, mas já não precisa ser o único caminho para chegar até ele.
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