A Orquestra Maré do Amanhã encerrou sua passagem por Portugal com uma apresentação na residência oficial do embaixador do Brasil, Raimundo Carreiro. O concerto, realizado na última terça-feira, marcou a despedida do grupo após uma agenda que reuniu música, intercâmbio cultural e encontros institucionais.
Os músicos viajaram ao país a convite da Fundação Galp para participar do NOS Alive, um dos principais festivais de música portugueses. Além disso, a temporada incluiu apresentações em Cascais e Coimbra, assim como o lançamento de um livro dedicado à trajetória do projeto criado no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
Da Maré aos palcos portugueses
Durante a passagem por Portugal, a orquestra se apresentou em uma escola pública de Cascais e realizou um concerto em uma praça de Coimbra. A apresentação ocorreu a convite da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Em Lisboa, a Livraria da Travessa recebeu o lançamento de “Concerto para um Sonho”, da jornalista Hérica Marmo. A publicação recupera a história da iniciativa sociocultural que, ao longo dos anos, se tornou referência no Brasil.
Ao reunir apresentações, encontros e o lançamento do livro, a viagem reforçou tanto a dimensão artística quanto o impacto social da Orquestra Maré do Amanhã.
Uma história ligada a Portugal
Esta foi a terceira passagem da OMA pelo país. A relação com Portugal, no entanto, acompanha o projeto desde sua origem.
A orquestra foi criada em 2010 por Carlos Eduardo Prazeres, filho do maestro português Armando Prazeres, natural de Arouca. Após o sequestro e assassinato do pai, no Rio de Janeiro, em 1999, Carlos Eduardo decidiu transformar a dor em uma iniciativa de inclusão social por meio da música.
O Complexo da Maré foi escolhido para sediar o projeto porque o carro do maestro foi encontrado naquela região após o crime. Anos depois, o território se tornaria o ponto de partida de uma ação que já alcançou milhares de crianças e jovens.
“Estar em Portugal com a Orquestra Maré do Amanhã tem um significado muito especial para mim. É o país onde nasceu o meu pai, cuja visão sobre o poder transformador da música inspirou tudo o que construímos ao longo destes anos”, afirma Carlos Eduardo Prazeres.
Música como oportunidade
Ao longo de 16 anos, mais de 17 mil crianças e jovens participaram diretamente das atividades da instituição. Atualmente, a orquestra atua em 30 escolas públicas da Maré e mantém uma sede própria dedicada ao ensino e à prática musical.
A estrutura reúne seis orquestras mirins, a Orquestra Maré do Amanhã e a Camerata Jovem. Além disso, o projeto oferece iniciação musical para crianças em idade pré-escolar, coros infantil e juvenil e preparação para o ingresso em faculdades de música e orquestras jovens.
Somente em 2024, a iniciativa atendeu 4.407 crianças e jovens. Ao longo do ano, promoveu mais de 3.100 horas de aulas de instrumentos, canto coral, teoria musical e prática de orquestra.
Formação para além do palco
O trabalho também inclui apoio psicológico e fisioterapia especializada para os músicos. Paralelamente, a instituição investe na profissionalização dos alunos por meio de aulas de inglês e intercâmbios internacionais.
Em 2024, cinco jovens participaram de um programa acadêmico na University of Missouri, nos Estados Unidos. Já o violinista David Vicente estuda atualmente em Cremona, na Itália, onde se dedica à construção artesanal de instrumentos de corda.
A sede da orquestra também incorpora soluções sustentáveis. O espaço de 356 metros quadrados possui sistema de captação de água da chuva e produção de energia solar, evitando a emissão de cerca de 1,2 tonelada de carbono por ano.
Presença no Brasil e no exterior
Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro, a Orquestra Maré do Amanhã já realizou apresentações em diferentes países da América do Sul e da Europa.
O grupo também se apresentou duas vezes para o papa Francisco, participou do Réveillon de Copacabana ao lado de Anitta e integrou o Espaço Favela do Rock in Rio Brasil, em 2019.
Em Portugal, a orquestra esteve em 2023 durante a Jornada Mundial da Juventude. No ano seguinte, apresentou-se no Teatro Tivoli, em Lisboa, durante uma viagem que também incluiu uma nova passagem pelo Vaticano.
Ao encerrar mais uma temporada no país, a Orquestra Maré do Amanhã reafirma uma trajetória que une formação musical, memória familiar e transformação social. A música, nesse percurso, deixa de ser apenas linguagem artística e se torna também instrumento de oportunidade.
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