Rafael Pereira inaugura 2026 com pinturas que unem memória, corpo e ancestralidade

A Galeria Estação abre sua programação de 2026 com uma exposição que marca um novo momento na trajetória de Rafael Pereira. Em “A Cabeça de Zumbi”, sua segunda individual no espaço paulistano, o artista apresenta um conjunto de obras que traduzem maturidade, densidade poética e um olhar cada vez mais atento às camadas da memória, da subjetividade e da ancestralidade negra.

Em cartaz a partir de 5 de março, com visitação até 11 de abril, a mostra reúne 22 pinturas inéditas e a série Nbimda, formada por 16 retratos de divindades do candomblé de Angola de matriz Bantu. Com texto crítico assinado pelo historiador da arte Renato Menezes, a exposição evidencia como Rafael amplia seu repertório técnico e conceitual desde Lapidar Imagens, apresentada na galeria em 2023.

Nascido em São Paulo, Rafael percorreu diferentes regiões do Brasil, viveu por 14 anos em Teófilo Otoni (MG) e hoje reside em Caraguatatuba, no litoral norte paulista. Esse trânsito geográfico e afetivo atravessa sua pintura, que se constrói a partir de uma escuta profunda de si e do mundo. “Hoje meu trabalho acontece em outro tempo. Antes, eu tinha muita urgência. Agora, entendo que a pintura precisa de tempo para maturar, assim como eu”, afirma o artista.

A exposição se organiza em dois núcleos. No segundo andar da galeria, o público encontra 20 retratos e duas naturezas-mortas, que compõem um universo cromático vibrante, habitado por figuras que parecem emergir entre lembrança, imaginação e experiência. Já no mezanino, a série Nbimda apresenta 16 cabeças, cada uma representando um nkisi, divindade do candomblé Bantu. Nelas, a cabeça aparece como ponto de encontro entre corpo, ancestralidade e força vital.

Para Renato Menezes, esse conjunto revela uma dimensão simbólica profunda. “Na pintura de Rafael, a cabeça não é apenas fisionomia, mas elo com o divino. É nela que reside a energia vital e a conexão com o destino e com a ancestralidade”, escreve o crítico no catálogo.

Ao mesmo tempo, Rafael amplia o debate sobre negritude e representação. Ele propõe uma construção de subjetividade negra que recusa simplificações. “Não quero que meu trabalho seja lido só por um corte racial. Quero construir uma subjetividade negra complexa, íntima e contraditória. A negritude está ali, mas como profundidade, não como rótulo”, afirma.

A exposição também revela novas experiências técnicas. O artista passa a explorar bastão de giz pastel óleo sobre papel, além de incorporar procedimentos desenvolvidos durante sua residência artística no Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, em Goiânia. O espaço, situado em um quilombo urbano, foi decisivo para ampliar suas trocas, sua consciência de linguagem e sua liberdade criativa.

Para Vilma Eid, sócia-fundadora da Galeria Estação, “A Cabeça de Zumbi” representa um salto importante na carreira de Rafael. “Ele cresceu em segurança, repertório e consciência do próprio trabalho. Esta exposição mostra um artista mais amplo, que arrisca, aprofunda processos e amplia sua linguagem. Abrir 2026 com o Rafael foi uma decisão muito consciente”, afirma.

Assim, a nova individual de Rafael Pereira se apresenta como um campo de encontros entre imagem, memória, ancestralidade e imaginação, revelando um artista em plena expansão — e uma obra que convida o público a ver, sentir e repensar as múltiplas camadas da experiência negra no Brasil contemporâneo.

 

Fotos: Filipe Berndt

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