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Beatriz Milhazes_Memórias do Futuro II_Foto: Eduardo Ortega

Há cidades que se visitam. Outras, se atravessam. Salvador pertence ao segundo grupo. Caminhar por suas ruas é lidar com camadas de tempo, fé, cor e memória que nunca se apresentam de forma isolada. Tudo acontece ao mesmo tempo: o barroco das igrejas, o azul insistente do mar, o ritmo da música, a espiritualidade que permeia o cotidiano. Nesse cenário, a arte contemporânea não chega como ruptura, mas como continuação.

Nos primeiros meses de 2026, Salvador se afirma como um dos territórios mais instigantes da arte brasileira. Não apenas pelas exposições em cartaz, mas pela maneira como museus, galerias e paisagem constroem uma experiência integrada. Aqui, a arte não se encerra no espaço expositivo — ela se espalha pela cidade, dialoga com a luz, com o clima e com a história que insiste em se fazer presente.

O circuito cultural convida a um olhar mais demorado. Visitar o Museu de Arte da Bahia, a Paulo Darzé Galeria de Arte, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, o Museu de Arte Contemporânea da Bahia ou a Casa das Histórias de Salvador é entender que cada instituição ocupa um papel específico na narrativa da cidade. Não se trata apenas de ver obras, mas de perceber como elas se relacionam com o território em que estão inseridas.

Um dos momentos mais emblemáticos dessa temporada acontece no Museu de Arte da Bahia, que recebe a primeira exposição individual de Beatriz Milhazes em Salvador. A artista carioca estabelece um diálogo direto com a cidade ao transformar as janelas do museu em superfícies translúcidas multicoloridas. A luz atravessa os padrões, se projeta no espaço e muda ao longo do dia, criando uma experiência que depende do sol, do tempo e do olhar de quem visita.

Mais do que observar as obras, o visitante participa de um jogo entre pintura, arquitetura e paisagem tropical. Trabalhos consagrados convivem com produções recentes, revelando uma pesquisa visual que segue em movimento, aberta ao encontro com novos contextos.

Esse mesmo espírito se estende a outros espaços da cidade. No Solar do Unhão, o Museu de Arte Moderna da Bahia articula arte e arquitetura à beira da Baía de Todos-os-Santos, enquanto a Galeria Mercado, instalada no Mercado Modelo, coloca a produção contemporânea em contato direto com o cotidiano popular. O Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, por sua vez, propõe um deslocamento físico e simbólico, onde história, natureza e memória se sobrepõem.

Salvador oferece, assim, uma experiência cultural que não se resume a uma lista de exposições. É uma cidade que pede presença, tempo e escuta. Um lugar onde a arte não se impõe, mas emerge — da luz, do território e da vida que acontece ao redor.

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