Tarsila do Amaral volta ao centro da cena parisiense cem anos depois

Tarsila do Amaral_Foto: Sergio Guerini

Cem anos depois de sua primeira exposição individual em Paris, Tarsila do Amaral retorna à capital francesa como protagonista de uma apresentação especial na Art Basel Paris 2026. A Almeida & Dale estreia na feira com um projeto inteiramente dedicado à artista, em cartaz de 23 a 25 de outubro, no Grand Palais.

Com curadoria de Cristiano Raimondi, a mostra integra o setor Premise, voltado a propostas que revisitam narrativas da história da arte. O recorte acompanha a produção de Tarsila entre os anos 1920 e o início da década de 1930, reunindo pinturas e trabalhos sobre papel ligados aos períodos Pau-Brasil e antropofágico.

Entre Paris e Brasil

A relação de Tarsila com Paris foi decisiva para sua formação artística. Ao longo da década de 1920, ela dividiu-se entre França e Brasil e entrou em contato com movimentos como cubismo, dadaísmo e futurismo.

No entanto, a proposta curatorial evita uma leitura em que a modernidade teria sido simplesmente aprendida na Europa. Para Raimondi, Tarsila chegou a Paris trazendo referências culturais que já faziam parte de sua experiência no Brasil.

“Paris não criou essa consciência, mas lhe ofereceu o lugar onde ela poderia ser reconhecida, desenvolvida e compartilhada”, escreve o curador.

A mostra parte justamente desse encontro entre repertórios. Estruturas e procedimentos das vanguardas europeias aparecem transformados por cores, paisagens, personagens e elementos da cultura popular brasileira, em uma linguagem que ajudou a ampliar os caminhos do modernismo.

Da fase Pau-Brasil à antropofagia

Entre os destaques está “A Feira II”, de 1925, obra realizada no auge da fase Pau-Brasil. A pintura surgiu após viagens da artista por cidades históricas de Minas Gerais e seu retorno de Paris.

A composição aproxima a estrutura cubista de uma paleta vibrante, que Tarsila definia como “caipira”, e que se tornou uma das características mais reconhecíveis de sua produção.

Outro trabalho importante é “Manacá”, de 1927. A obra ocupa um lugar de transição entre as fases Pau-Brasil e antropofágica. Ainda guarda elementos do período anterior, mas já apresenta volumes mais robustos, formas orgânicas e uma atmosfera que antecipa o vocabulário desenvolvido a partir de 1928.

Esse percurso levaria a trabalhos como “Abaporu”, “A Lua”, “O Sono”, “O Ovo” e “Distância”.

Tarsila do Amaral_Foto: Sergio Guerini

Antropofagia como método de criação

A curadoria também propõe uma leitura da antropofagia para além de um movimento artístico específico. Para Raimondi, ela pode ser entendida como uma forma de criar a partir da assimilação e transformação de diferentes influências.

Nesse sentido, a obra de Tarsila já colocava esse princípio em prática antes mesmo de ele ganhar formulação teórica. O resultado é uma produção que ajuda a rever a própria história do modernismo, não como uma relação entre centro e periferia, mas como uma circulação de ideias, imagens e repertórios.

“Tarsila ocupa um lugar singular na história da arte moderna. A partir de um diálogo original entre as vanguardas internacionais e o imaginário cultural brasileiro, desenvolveu uma obra que redefiniu os contornos do modernismo”, afirma Antonio Almeida, sócio-fundador da Almeida & Dale.

Um novo momento de atenção internacional

A apresentação em Paris acontece em meio a um interesse renovado pela trajetória de Tarsila no circuito internacional.

Nos últimos anos, sua obra esteve em exposições no Musée du Luxembourg, em Paris, e no Guggenheim Bilbao. Também integrou “Brasil! Brasil! The Birth of Modernism”, apresentada no Zentrum Paul Klee e na Royal Academy of Arts.

Para a Almeida & Dale, a estreia na Art Basel Paris também representa mais um passo em sua estratégia de ampliar a presença internacional da arte brasileira e latino-americana.

“Participar de uma plataforma dessa importância é uma oportunidade de ampliar o alcance internacional da arte brasileira e latino-americana”, afirma Carlos Dale, sócio-fundador da galeria.

Com o centenário da exposição de 1926 como ponto de partida, a apresentação devolve Tarsila a uma cidade fundamental em sua trajetória. Desta vez, porém, Paris aparece menos como origem de sua modernidade e mais como espaço de reencontro com uma artista que ajudou a construir uma linguagem própria, profundamente brasileira e, ao mesmo tempo, internacional.

Tarsila do Amaral_Foto: Sergio Guerini

Serviço

Art Basel Paris 2026
Apresentação: Tarsila do Amaral
Galeria: Almeida & Dale
Curadoria: Cristiano Raimondi
Setor: Premise
Visitação: 23 a 25 de outubro de 2026, das 11h às 19h
Local: Grand Palais, Paris

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