Por Daniela Moura
Depois de anos em que o minimalismo, as paletas neutras e os ambientes quase milimetricamente depurados dominaram a arquitetura de interiores, a Casa Cor São Paulo 2026 aponta para uma mudança de direção. Cores intensas, sobreposição de texturas, formas orgânicas e objetos carregados de memória ganham espaço e ajudam a consolidar uma estética mais expressiva e pessoal.
Sob o tema “Mente e Coração”, a edição deste ano propõe uma reflexão sobre o papel da casa diante de uma vida cada vez mais acelerada e digital. Para a arquiteta Dimara Giaretta, o movimento observado na mostra vai além de uma simples mudança estética. É uma transformação na própria maneira de morar.
Em entrevista à Glamurama, Dimara analisa as tendências que mais chamaram sua atenção e explica por que personalidade, afeto e experiência sensorial voltaram ao centro dos projetos.
Glamurama: Qual foi a principal tendência que você identificou na Casa Cor São Paulo 2026?
Dimara Giaretta: A Casa Cor São Paulo 2026 veio propondo o lar como um espaço de reconexão, bem estar e afeto. O que mais chama a atenção é uma ruptura muito forte com o minimalismo e a presença do maximalismo. Existe uma personalidade marcante aplicada de forma intencional. A casa deixa de ser tão neutra e passa a expressar mais claramente quem vive nela.
Glamurama: Então podemos dizer que o minimalismo está perdendo espaço?
Dimara Giaretta: Existe claramente um movimento em outra direção. Não significa necessariamente abandonar tudo o que o minimalismo trouxe, mas há uma vontade maior de experimentar. Vemos mais cores, texturas, estampas e sobreposições. O maximalismo aparece de maneira pensada, não como excesso pelo excesso, mas como uma ferramenta para criar identidade.
Glamurama: Quais cores mais chamaram sua atenção nesta edição?
Dimara Giaretta: As paletas estão muito mais vibrantes. Ameixa e bordô aparecem com bastante força e ajudam a criar ambientes profundos, sofisticados e envolventes. É interessante perceber como a cor deixa de ser apenas um detalhe e passa a participar efetivamente da construção da atmosfera do espaço.
Glamurama: Os tecidos também ganham novas funções?
Dimara Giaretta: Sim. Existe uma mistura muito interessante de estampas e tecidos. O bouclé, por exemplo, sai do estofado e aparece como protagonista em cortinas, tapeçarias e tecidos aplicados às paredes. Isso traz textura, cor e movimento. O ambiente passa a ser percebido não apenas visualmente, mas também de maneira sensorial.
Glamurama: Essa experiência sensorial parece ser um dos pontos fortes da mostra. Como ela aparece nos materiais?
Dimara Giaretta: Muito por meio da aproximação com materiais naturais. Madeira, linho, palhinha, cerâmica e pedras brutas estão por toda parte. São elementos que despertam sensações e tornam os ambientes mais acolhedores. Existe uma valorização muito grande da textura e do toque.
Glamurama: E no desenho dos móveis, o que muda?
Dimara Giaretta: As formas curvas e orgânicas predominam. Elas aparecem no mobiliário e ajudam a quebrar aquela rigidez das linhas excessivamente retas. Há uma fluidez maior nos espaços e isso também contribui para essa sensação de acolhimento.
Glamurama: O tema “Mente e Coração” fala muito sobre memória e reconexão. Como isso chegou aos ambientes?
Dimara Giaretta: Por meio de elementos que contam histórias pessoais. Objetos, referências e materiais passam a ter um significado que vai além da decoração. O tema propõe uma pausa nessa ofensiva digital que vivemos para buscar uma reconexão com as raízes, os afetos e as memórias. Isso aparece de maneira muito clara nos projetos.
Glamurama: Depois da Casa Cor 2026, o que você acredita que as pessoas vão querer levar para dentro de casa?
Dimara Giaretta: Mais personalidade. Acho que essa é a grande mensagem. Não é simplesmente copiar uma cor ou comprar determinado móvel. É entender que a casa pode falar sobre você. Pode ter memória, mistura, textura, objetos importantes e referências pessoais. O luxo também está em morar em um espaço no qual você se reconhece.
Mais do que decretar o fim de uma estética e o início de outra, a Casa Cor São Paulo 2026 sinaliza uma mudança de comportamento. A casa volta a ser pensada como território de expressão individual, menos preocupada em reproduzir fórmulas e mais interessada em acolher histórias.
Na leitura de Dimara Giaretta, o maximalismo é uma das faces mais visíveis desse movimento. Por trás das cores fortes, das curvas, das texturas e das sobreposições existe uma ideia mais profunda: em tempos de hiperconexão, o novo luxo pode estar justamente em transformar a casa em um espaço de identidade, memória e reconexão.