Na segunda coleção masculina de Dior, Jonathan Anderson deixou claro que não está interessado em territórios seguros. Poucos dias depois de apresentar suas primeiras propostas masculina e feminina para a maison — e às vésperas de sua estreia na alta-costura — o designer escolheu avançar ainda mais. Em vez de consolidar códigos, preferiu tensioná-los.
O ponto de partida não veio dos arquivos tradicionais da Dior, como havia ocorrido em sua estreia. Desta vez, Anderson voltou o olhar para Paul Poiret, o costureiro que ajudou a redefinir a moda no início do século 20 ao romper com espartilhos, estruturas rígidas e convenções. A escolha é provocadora: Poiret jamais desenhou para homens, assim como nunca dialogou diretamente com a alfaiataria arquitetônica que consagrou a Dior.
É justamente nesse choque que a coleção nasce.
Entre construir e desconstruir
“A Dior criou a estrutura, Poiret a removeu”, resumiu Anderson, ao explicar o interesse em aproximar universos aparentemente incompatíveis. O designer partiu de um vestido roxo de Poiret encontrado em um brechó — peça que inspirou os primeiros looks do desfile: coletes de lantejoulas combinados com jeans, estabelecendo um tom psicodélico que atravessa toda a coleção.
A partir daí, a proposta se expande. Calças jacquard em cores vibrantes convivem com jaquetas de silhueta casulo, polos com dragonas militares brilhantes e parkas metálicas adornadas com flores tridimensionais. Casacos clássicos de alfaiataria ganham punhos volumosos de pele de carneiro, enquanto brocados com estampa Art Déco — tecidos na Itália pelos mesmos fornecedores de Poiret — surgem drapeados, como se desobedecessem a qualquer regra de peso ou forma.
Alfaiataria em estado de mutação
Sob o olhar de Anderson, a alfaiataria da Dior perde proporções previsíveis. Blazers Bar encurtados, em lã pied-de-poule ou jeans desgastado, criam curvas inesperadas logo abaixo da axila, desenhando silhuetas quase ampulheta. Fraques aparecem reinterpretados em tricô espesso e pele de carneiro, diluindo as fronteiras entre formalidade e experimentação.
Há momentos em que o desfile flerta abertamente com o exagero: perucas amarelo-fluorescentes, casacos de plumas monumentais e saias envelope assimétricas remetem a um imaginário quase performático. Não por acaso, alguns looks evocam o espírito de Junya Watanabe. Anderson, no entanto, aponta outra referência direta dentro da própria Dior: John Galliano, que também revisitou Poiret durante sua passagem pela casa.
Moda como espetáculo, não como fórmula
Para Anderson, esse movimento não é apenas estético, mas conceitual. “A Dior tem a ver com moda. Ela carrega a história do espetáculo”, afirmou o designer, ao defender a teatralidade como parte essencial da identidade da maison. Em sua visão, a previsibilidade é o maior risco criativo.
“A Dior não terá uma silhueta fixa. Eu nunca trabalho assim”, disse. O objetivo, ao menos neste momento, parece ser manter o jogo aberto — avançando rápido, sem permitir que uma fórmula se cristalize.
Ainda assim, a coleção não abandona completamente o pragmatismo. Entre as peças mais experimentais, surgem ternos de tweed com ombros suavemente inclinados, tricôs luminosos e jeans amplos, que funcionam como pontos de equilíbrio comercial. Segundo Anderson, a recepção inicial das lojas tem sido positiva, sinalizando que o risco, até agora, encontrou eco.
Seguir o designer até o limite
Talvez o indício mais claro da força desse novo capítulo da Dior esteja fora da passarela. Muitos convidados chegaram ao desfile usando as golas brancas plissadas enviadas como convite — um gesto simples, mas revelador. Onde Anderson vai, seus seguidores parecem dispostos a ir junto.
Ao atravessar o espelho entre estrutura e delírio, o estilista reafirma sua reputação como um criador que prefere a vertigem à estabilidade. E, ao que tudo indica, a Dior está disposta a acompanhar essa escalada.
Fonte: WWD