Entre memória e permanência, o morar paranaense em leitura contemporânea na Bienal de Arquitetura

A Casa que dança – Boscardin Corsi (PR) – Crédito da foto Felipe Petrovsky

O escritório curitibano Boscardin Corsi, comandado por Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi, representa o Paraná na 1ª Bienal de Arquitetura Brasileira, em cartaz até 30 de abril, no Parque Ibirapuera.

O projeto apresentado, intitulado “A Casa que Dança”, parte de uma leitura sensível da arquitetura modernista paranaense e transforma essa herança em uma experiência contemporânea. Com cerca de 100 m², o ambiente propõe um olhar sobre o morar que valoriza permanência, memória e continuidade — temas cada vez mais presentes no debate arquitetônico atual.

Edgard Corsi e Ana Carolina Boscardin – Crédito da foto Felipe Petrovsky

Uma casa construída dentro da Bienal

Um dos diferenciais do projeto foi a construção integral de uma casa dentro do espaço expositivo da Bienal. Mais do que um exercício de interiores, a proposta materializa uma arquitetura completa, permitindo uma experiência espacial mais profunda e coerente, que extrapola os limites tradicionais de uma mostra.

A inspiração vem de residências disseminadas pelo Paraná a partir dos anos 1950, marcadas pela clareza formal, integração com a paisagem e elegância contida. Esse imaginário dialoga diretamente com a produção do modernismo paranaense, representado por nomes como Vilanova Artigas e Lolô Cornelsen, cujas obras influenciam a concepção do ambiente.

O nome do projeto nasce de um verso do escritor e poeta curitibano Paulo Leminski — “Tudo dança hospedado numa casa em mudança” — frase que conduz a narrativa do espaço e sintetiza sua essência: uma arquitetura capaz de se transformar sem perder sua identidade.

BAB 2026 – A Casa que dança – Boscardin Corsi (PR) – Crédito da foto Felipe Petrovsky

Materialidade e memória como linguagem

A materialidade ocupa um papel central em “A Casa que Dança”. A varanda, um dos pontos mais marcantes do projeto, apresenta piso de concreto pigmentado em vermelho, referência direta à terra fértil do Paraná e elemento que estabelece uma transição acolhedora entre interior e exterior.

Pisos em concreto e madeira, paredes de tijolos pintados de branco e a estrutura aparente preservam a memória da casa modernista, criando uma base sólida para a inserção de elementos contemporâneos. O inox surge como contraponto preciso, introduzindo contraste e reforçando o diálogo entre passado e presente.

Nesse contexto, o reuso também ganha protagonismo. Sobras de mármore provenientes de jazidas paranaenses foram transformadas em peças arquitetônicas e mobiliário, evidenciando uma abordagem atenta ao tempo, à sustentabilidade e à durabilidade dos materiais.

A dimensão artística atravessa o projeto com delicadeza. Inspirada na obra de Poty Lazzarotto, a intervenção em azulejos assinada por Lenzi introduz cor e identidade ao ambiente. Já o banco Toinoinoin, criado por Jaime Lerner, incorpora ao espaço uma memória afetiva ligada ao design e à cultura paranaense.

BAB 2026 – A Casa que dança – Boscardin Corsi (PR) – Crédito da foto Felipe Petrovsky

Arquitetura pensada para o tempo presente

A experiência espacial foi desenhada para se revelar gradualmente, como acontece nas casas que acumulam histórias. A planta preserva elementos centrais da construção original e organiza os ambientes com fluidez, valorizando transições, enquadramentos e respiros.

No centro da casa, o núcleo que reúne cozinha, lavanderia e lavabo estrutura a circulação com clareza. A cozinha embutida em inox imprime densidade material ao conjunto, enquanto o lavabo ganha força plástica com paredes em azul-marinho e azulejos que introduzem cor de forma gráfica e elegante.

BAB 2026 – A Casa que dança – Boscardin Corsi (PR) – Crédito da foto Felipe Petrovsky

A suíte master, por sua vez, foi redesenhada para incorporar um espaço íntimo de leitura e pesquisa — um gesto que traduz as novas demandas do morar contemporâneo, em que recolhimento, concentração e silêncio passam a ter maior relevância.

Mais do que um exercício formal, “A Casa que Dança” propõe uma reflexão sobre continuidade e pertencimento. Ao valorizar materiais locais, design autoral e referências culturais do Paraná, o projeto constrói uma narrativa que conecta tradição e contemporaneidade — e reafirma a arquitetura como linguagem viva, capaz de atravessar o tempo.

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