À frente da direção criativa da Montecristo, Patrícia Semeoni acompanha de perto as transformações do universo da alta joalheria e os novos desejos de quem consome peças de luxo. Entre referências de arte, moda e comportamento, seu trabalho parte da curadoria para criar joias que preservem a tradição, mas também encontrem espaço na contemporaneidade.
Em entrevista exclusiva ao GLMRM, Patrícia fala sobre os bastidores do processo criativo, a importância de transformar tendências em peças com identidade própria e as mudanças na maneira como as pessoas usam e atribuem significado às joias.
O que está por trás do processo de criação e curadoria de uma joia e como transformar referências, tendências e repertório em peças que tenham identidade própria?
Para mim, a criação de uma joia começa muito antes do desenho. Ela nasce do olhar gentil, das referências que reunimos ao longo da vida, da observação das pessoas, da arte, da moda e das histórias que chegam até nós. Meu trabalho é transformar tudo isso em algo que desperte emoção e tenha uma identidade própria.
Tendências são importantes, mas não acredito que uma joia deva simplesmente segui-las. O meu papel como diretora criativa é justamente fazer essa curadoria: olhar para o que está acontecendo no mundo e no comportamento das pessoas e transformar essas referências em algo que tenha nossa identidade. Uma joia precisa ter personalidade e ter a força de atravessar o tempo e as gerações.
Em um mercado tradicional como o da alta joalheria, como identificar novos desejos e mudanças no comportamento do consumidor sem deixar de lado a história e os códigos que fazem parte desse universo?
Acredito que tradição e inovação não são opostos. A tradição é a nossa base; a contemporaneidade é o que nos permite ter um contato próximo e gentil com nossos clientes e perceber essas mudanças.
Ao escutar como vivem, o que desejam, como gostam de usar suas joias e, principalmente, como encontram nelas uma extensão da sua personalidade, entendemos que hoje há mais liberdade para combinar peças e dar a elas significados muito pessoais.
Ao mesmo tempo, a qualidade das gemas, a excelência na execução e a atenção aos detalhes continuam essenciais na alta joalheria. São valores que fazem parte da história da Montecristo. Nossa maneira de respeitar esse legado é mantê-lo vivo, criando joias e experiências que acolham os desejos de cada geração.
Quais movimentos de moda e comportamento têm influenciado a forma como as pessoas usam joias hoje? O que mudou na relação do consumidor com as peças?
Vejo uma liberdade maior na maneira de se vestir, e isso se reflete nas joias. Hoje existe muito menos aquela ideia de que uma joia precisa ser usada de uma única maneira ou em ocasiões especiais.
Uma joia mais importante pode ser usada com outras mais descontraídas, diferentes cores de ouro misturadas ou com gemas coloridas. Isso muda completamente o estilo sem tirar a beleza das peças. Joias de épocas diferentes também podem ser usadas juntas.
Acredito muito na joia como algo que atravessa o tempo e carrega histórias. A relação também ficou mais próxima da vida cotidiana. Muitas mulheres querem aproveitar suas joias, em vez de guardá-las à espera de uma ocasião especial. Acho bonito quando uma peça acompanha a pessoa em diferentes momentos e, com isso, passa a fazer parte da sua história.
Como equilibrar tradição e contemporaneidade na escolha e na combinação de joias, especialmente diante de uma geração que busca peças mais versáteis e formas diferentes de expressar sua personalidade?
Acredito que o segredo está em não ter medo de misturar. Uma joia clássica pode ganhar outro olhar ao lado de uma criação contemporânea, dependendo de como é usada, permitindo descobrir algo novo.
Mas também ressignificar joias antigas é uma parte muito especial do meu trabalho e que acabou se tornando minha assinatura. Busco trazer um novo significado e uma linguagem contemporânea para essas peças.
Essa transformação entre o antigo e o novo, preservando a história e a essência da joia, permite que ela ganhe uma nova vida, um novo olhar e uma identidade única. Para mim, a joalheria mais interessante é aquela que não impõe uma maneira única de usar: ela dá liberdade para a pessoa se expressar.
Na sua visão, quais caminhos a alta joalheria pode explorar para continuar relevante nos próximos anos e se aproximar de novos públicos sem perder sua essência?
A alta joalheria precisa continuar despertando desejo, mas acredito que hoje o desejo está cada vez mais ligado à emoção e à autenticidade. As novas gerações querem conhecer as histórias por trás de cada peça: de onde veio uma inspiração, como uma peça foi criada, que cuidado existe em cada escolha. Compartilhar esse processo aproxima as pessoas da joalheria.
Vejo também um caminho na versatilidade. Uma grande joia pode participar da vida, ser usada de maneiras diferentes e adquirir novos significados ao longo do tempo.
Para mim, é assim que a alta joalheria segue relevante: preservando a excelência e a sensibilidade que a definem, enquanto abre espaço para que cada pessoa construa sua própria relação com as peças.