
A arquitetura foi o ponto de partida para Juliana Bicudo encontrar sua identidade no design de calçados. Formada em Arquitetura e Urbanismo, ela levou para a moda o interesse pelas formas, proporções e materiais, desenvolvendo uma linguagem própria que valoriza o trabalho artesanal e a atenção aos detalhes.
Sua trajetória como empreendedora começou em 2007, com os primeiros pares apresentados em um bazar realizado em casa, para amigas. Desde então, a marca passou por diferentes fases, incluindo a abertura de uma loja em 2010 e os desafios impostos pela pandemia. Ao longo desse percurso, Juliana manteve a produção em pequena escala e o contato próximo com os artesãos, preservando um processo que envolve oito profissionais e nove etapas até a finalização de cada par.
Além das coleções autorais, a designer também explora o diálogo com outras linguagens criativas. Parcerias com marcas como Reptilia e Neriage, incluindo uma coleção-cápsula apresentada na São Paulo Fashion Week, mostram como essas trocas ampliam as possibilidades de seu trabalho.
Em conversa com o GLMRM, Juliana Bicudo falou sobre os aprendizados de quase duas décadas à frente da marca, a importância da durabilidade na moda e os desafios de equilibrar criação, produção artesanal e empreendedorismo.
Você se formou em Arquitetura e Urbanismo antes de migrar para o design de calçados. De que maneira essa formação continua presente no seu olhar criativo e na construção de cada coleção?
A arquitetura continua muito presente na minha maneira de pensar e criar. Minha formação me ensinou a olhar para as formas e proporções entre os elementos. Quando decidi estudar design de calçados, encontrei uma maneira de voltar a desenhar e de transformar essas referências em algo concreto, que pudesse ser usado e desejado. Não venho de uma formação tradicional em Moda, então construí meu próprio processo criativo, muito influenciado também pelas artes e pelos ofícios. Gosto de observar o que me emociona no cotidiano, registrar essas referências em cadernos e, a partir delas, desenvolver as formas, as cores e a história de cada coleção.
Você começou a marca em 2007, produzindo os primeiros pares em casa. Olhando para essa trajetória, quais foram as principais transformações na sua maneira de empreender e de entender o próprio negócio?
Comecei de uma maneira muito íntima, fazendo um bazar em casa para amigas. Naquele momento, estava descobrindo não apenas como criar sapatos, mas também como construir uma marca e entender o que as mulheres buscavam. Foi um processo gradual, de muita experimentação e aprendizado. Em 2010, abrimos a loja, quando percebi que já existia uma demanda por um endereço fixo. Mais tarde, a pandemia me obrigou a rever muitas certezas e a reconstruir o negócio de outra forma. Foi preciso ter humildade para dar alguns passos para trás, repensar a estrutura e encontrar novos caminhos. Hoje, entendo o empreendedorismo como um exercício constante de escuta, adaptação e resiliência, sem perder de vista os valores que deram origem à marca.

Em um mercado de moda marcado pela velocidade e pela renovação constante de tendências, sua marca segue um caminho que valoriza o trabalho manual e o tempo de produção. Como você enxerga essa relação entre o ritmo da indústria e o fazer artesanal?
Acredito que o fazer artesanal nos convida a estabelecer outra relação com o tempo e com aquilo que consumimos. Produzir um sapato dessa maneira exige paciência e conhecimento técnico. Cada etapa precisa ser realizada com cuidado, respeitando o trabalho de quem veio antes para que o próximo processo possa começar. Nossa produção envolve oito artesãos e nove etapas até a finalização de um par, e existe um conhecimento muito valioso em cada uma delas. Não se trata de ser contra a tecnologia, que nos ajuda bastante na comunicação e na comercialização, mas de preservar aquilo que faz parte da essência do nosso trabalho. Em um cenário que valoriza cada vez mais a velocidade, acredito que há espaço para produtos feitos com intenção, cuidado e respeito pelo tempo das pessoas.
A sustentabilidade também passa pela durabilidade e pela relação que construímos com aquilo que consumimos. Como você acredita que o design pode contribuir para uma forma mais consciente de se relacionar com a moda?
Acredito que a durabilidade é um dos caminhos mais importantes para uma relação mais consciente com a moda. Quando criamos um produto com bons materiais, rigor na execução e atenção ao acabamento, estamos pensando em algo que possa acompanhar a cliente por muitos anos, em vez de ser substituído a cada temporada. Temos clientes que usam nossos sapatos há mais de uma década, e isso representa muito para nós. Também trabalhamos com produção em pequena escala, fornecedores e matérias-primas nacionais e uma cadeia produtiva próxima, que consigo acompanhar de perto. São escolhas que permitem ter mais controle sobre os processos e valorizar os profissionais envolvidos. Para mim, sustentabilidade não é apenas uma questão de materiais, mas também de como produzimos, de quem participa desse processo e da vida útil que conseguimos oferecer a cada peça.

Ao longo da trajetória da marca, você desenvolveu projetos em parceria com outros criadores e marcas, como a Reptilia e a Neriage. O que torna uma colaboração interessante para você e como essas trocas podem ampliar seu repertório criativo?
Gosto das colaborações que nascem de uma afinidade criativa, mas que também nos desafiam a pensar de maneiras diferentes. A parceria com Heloisa Strobel, da Reptilia, nasceu de um convite para criar sapatos para um casal de noivas e acabou se transformando em uma coleção-cápsula apresentada na passarela do SPFW. Tivemos um retorno muito positivo do público que estava no desfile. Já na parceria com a Neriage, desenvolvemos um sapato para a coleção Cartas para Ítaca, buscando traduzir para o calçado a identidade do plissado tão marcante no trabalho da marca. São propostas diferentes que ampliam nosso repertório, nos tiram do lugar comum e mostram como diferentes linguagens podem se encontrar, sem que cada uma perca sua identidade.
No desenvolvimento de um calçado, como acontece a passagem do desenho para a peça final? Quais são os principais desafios desse processo e como a troca com os artesãos contribui para o resultado?
O desenho é apenas o começo do processo. Por mais que eu tenha uma ideia muito clara do que quero criar, é na prática que consigo entender como as formas, os volumes e os materiais vão funcionar. Acompanhar de perto a produção é fundamental, porque é nesse momento que identificamos o que precisa ser ajustado até chegar ao resultado desejado.
Trabalho ao lado de uma equipe extremamente competente e cada um fica responsável por uma etapa da produção. Existe um conhecimento técnico que vem da experiência e que contribui diretamente para a qualidade do produto. Para mim, criar também é saber ouvir, testar e encontrar soluções.
Depois de quase duas décadas à frente da marca, o que ainda desperta sua curiosidade e vontade de criar? E quais caminhos você gostaria de explorar nos próximos anos?
Minha curiosidade continua muito ligada ao cotidiano. Me mantenho muito próxima das clientes, porque ouvir o que elas desejam, do que sentem falta e o que podemos melhorar é fundamental para o desenvolvimento da marca. Para os próximos anos, quero continuar aprofundando esse trabalho, explorando novas possibilidades criativas dentro da produção artesanal e seguir amadurecendo a marca, respeitando sua essência e encontrando novas formas de expressá-la.
- Neste artigo:
- Bate-papo GLMRM,
- Juliana Bicudo,