Juliana Jabour fala sobre os caminhos para uma moda mais sustentável no Brasil

Escolher um look vai muito além de apenas olhar e gostar de uma peça. É essencial observar como ela fica no corpo, se é confortável e, acima de tudo, se é confiável. Hoje, a nova moda é sustentável, e já é possível perceber esse movimento entre marcas nacionais e internacionais, que apresentam soluções com menor impacto ambiental. Eventos como a São Paulo Fashion Week, a Rio Fashion Week e a Semana de Moda de Copenhague já adotaram projetos que tornam o universo fashion mais responsável. Apesar disso, o segmento continua sendo um dos mais poluentes do mundo, segundo levantamento publicado pela Global Fashion Agenda.

Optar por produtos que não seguem critérios de sustentabilidade pode gerar impactos significativos tanto para o meio ambiente quanto para o bem-estar pessoal. Tecidos sintéticos derivados do petróleo, por exemplo, tendem a dificultar a respirabilidade da pele, retendo calor, suor e resíduos químicos que podem causar desconfortos e irritações.

Diante da crescente busca por escolhas mais conscientes, incorporar a sustentabilidade ao dia a dia tem se tornado uma prioridade para muitos consumidores. Para ajudar nessa jornada, Juliana Jabour, estilista e gerente de Desenvolvimento e Novos Negócios para a América do Sul do Grupo Lenzing, referência global na produção de fibras celulósicas regeneradas para a indústria têxtil e dona de marcas como LENZING™ ECOVERO™ e TENCEL™, conversa com o GLMRM sobre os caminhos para uma moda mais sustentável, os desafios da circularidade e o papel de marcas e consumidores nessa transformação.

O brasileiro já abraçou o jeans como segunda pele e ama uma peça de tricô. Mas, para a indústria, o preço ambiental disso é altíssimo. Na sua visão, o que falta para que essa sustentabilidade aconteça de vez no nosso guarda-roupa?

Acredito que a mudança já começou, mas ainda precisamos avançar em três frentes: informação, acesso e comportamento. O consumidor brasileiro está cada vez mais interessado em entender de onde vêm suas roupas e qual é o impacto delas, mas nem sempre tem acesso a informações claras.

Ao mesmo tempo, a indústria precisa tornar as escolhas mais sustentáveis cada vez mais acessíveis e escaláveis. Também é importante entender que sustentabilidade não é apenas trocar uma fibra por outra. É comprar melhor, usar mais vezes, cuidar adequadamente das peças e pensar em circularidade. A moda mais sustentável é aquela que permanece relevante no guarda-roupa por muitos anos.

A Lenzing é uma gigante que tem investido bastante no Brasil, inclusive com uma fábrica local. Como funciona essa operação por aqui e o que ela representa para a moda brasileira?

O Brasil tem um papel extremamente estratégico para a Lenzing. Embora não tenhamos uma fábrica de fibras no país, contamos com uma operação industrial muito importante em Minas Gerais, responsável pela produção de polpa de celulose solúvel, a principal matéria-prima utilizada na fabricação das fibras celulósicas da Lenzing, como TENCEL™ e LENZING™ ECOVERO™.

Além disso, o Brasil tem uma conexão ainda mais relevante com a companhia por meio da Suzano, uma das maiores produtoras de celulose do mundo, que atualmente detém cerca de 15% de participação acionária na Lenzing. Essa relação reforça a importância do país dentro da estratégia global da empresa e fortalece a integração entre a origem sustentável da matéria-prima e a cadeia têxtil.

Também atuamos muito próximos da cadeia têxtil brasileira, conectando marcas, fabricantes, fiações e tecelagens para impulsionar inovação e sustentabilidade. Isso permite que marcas nacionais tenham acesso a matérias-primas de alta qualidade, produzidas com tecnologia avançada e menor impacto ambiental, fortalecendo a competitividade da moda brasileira no cenário global.

Vocês têm parcerias com marcas que amamos, de Farm Rio a Aramis, passando por Reinaldo Lourenço, Aluf, Riachuelo e Flavia Aranha. Qual é a diferença entre trabalhar com grandes estilistas e com marcas de fast fashion? O processo criativo muda?

O que muda são os objetivos e a escala, mas a busca por inovação é a mesma. Os estilistas costumam explorar mais profundamente aspectos criativos, construção de produto, textura, caimento e narrativa. Já as grandes marcas trabalham com o desafio de levar inovação para milhões de consumidores de forma consistente e acessível.

Como estilista, sempre enxerguei a matéria-prima como parte essencial da criação. Hoje, na Lenzing, é muito interessante ver como uma mesma fibra pode gerar resultados completamente diferentes, dependendo da proposta da marca. No fim, sustentabilidade e criatividade não são opostos; elas se fortalecem mutuamente.

Todo mundo fala em economia circular, mas, na prática, o que impede a moda brasileira de dar esse salto? Vocês sentem resistência das marcas brasileiras em adotar fibras sustentáveis ou já virou um status ter o selo de vocês na etiqueta?

A circularidade é um tema complexo porque depende da colaboração de toda a cadeia. Ainda temos desafios importantes em infraestrutura de coleta, reciclagem têxtil, rastreabilidade e logística reversa. Mas vejo uma evolução muito positiva.

Há alguns anos, sustentabilidade era percebida como um diferencial. Hoje, para muitas marcas, já é uma expectativa do mercado e dos consumidores. O selo na etiqueta tem valor porque representa credibilidade, transparência e um compromisso real com práticas mais responsáveis. Mais do que status, acredito que ele funciona como uma ferramenta para ajudar o consumidor a fazer escolhas mais conscientes.

A Lenzing tem um compromisso público de cortar 42% das emissões até 2030, e isso é muito sério. Mas, fora os números, o que a motiva pessoalmente a acordar e lutar por isso no dia a dia? Você vê a moda brasileira realmente abraçando essa causa?

Minha trajetória sempre foi construída dentro da moda, então acompanhei de perto tanto sua capacidade criativa quanto seus desafios. O que me motiva é justamente a oportunidade de fazer parte da transformação de uma indústria que amo profundamente.

Acredito que a moda tem um enorme poder de influência cultural. Quando conseguimos desenvolver soluções que unem estética, inovação e responsabilidade, mostramos que não é preciso escolher entre desejo e sustentabilidade.

E, sim, vejo uma mudança muito genuína acontecendo no Brasil. Ainda estamos em processo de evolução, mas percebo marcas, designers e consumidores cada vez mais comprometidos com essa agenda. O tema deixou de ser nicho e passou a fazer parte da estratégia de negócio.

Para fechar: se você pudesse dar um único conselho para as pessoas que adoram comprar roupa nova todo mês, mas querem ser mais conscientes, qual seria?

Eu diria: compre com intenção. Antes de levar uma peça para casa, pergunte a si mesmo se ela realmente combina com seu estilo, se você vai usá-la muitas vezes e se foi produzida de forma responsável.

Sustentabilidade não significa parar de consumir moda. Significa consumir de maneira mais inteligente, valorizando qualidade, durabilidade e propósito. Quando fazemos escolhas mais conscientes, mostramos para toda a indústria o tipo de futuro que queremos construir.

 

Fotos: Divulgação

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