A moda encontra o universo de Mauricio de Sousa em uma colaboração que aproxima repertórios reconhecíveis por diferentes gerações. A nova coleção de Alexandre Herchcovitch em parceria com a MSP Estúdios parte do imaginário de Penadinho e recupera imagens do episódio “Um Amor Dentuço”, de 2004, para criar uma leitura que mistura humor, sobrenatural e a linguagem visual do estilista.
Com cinco peças entre camisetas e moletons, o projeto também revela como o vasto acervo da MSP pode ganhar novas interpretações sem perder a identidade de seus personagens. Para entender como acontece essa curadoria e até onde esses universos podem se expandir, o GLMRM conversou com Mauro Sousa, diretor executivo da MSP Estúdios, sobre memória, moda, linguagem e os caminhos de uma colaboração que leva os quadrinhos para além das páginas.
A MSP tem um arquivo construído ao longo de décadas, com imagens que diferentes gerações reconhecem imediatamente. Como decidir quais elementos desse patrimônio podem ganhar novas leituras na moda sem perder aquilo que torna os personagens tão familiares ao público?
A força de todo o acervo narrativo da MSP está na possibilidade de olhar novamente para uma história e descobrir algo que ainda não havia sido explorado. No caso da coleção com Alexandre, ele encontrou em um episódio da Turma da Mônica de 2004, chamado “Amor Dentuço”, com o universo do Penadinho, trazendo para as peças imagens pouco óbvias e enxergando nelas uma narrativa de moda muito própria, conectando à sua assinatura com a assinatura do traço mauriciano. É esse encontro que buscamos e que deixa o nosso legado extremamente vivo. É o encontro de uma leitura autoral, capaz de surpreender, mas que ainda mantém o traço, o humor e a personalidade que fazem o público reconhecer imediatamente aquele universo.
Penadinho permite falar de morte, medo e sobrenatural com humor desde os anos 1960. Hoje, quando esses personagens passam dos quadrinhos para moda, arte e outras experiências, até onde a MSP acredita que esse universo pode chegar sem deixar de ser essencialmente Turma da Mônica?
Antes de tudo, vale fazer uma distinção. Turma da Mônica e Penadinho pertencem a universos narrativos diferentes, cada um com seus personagens e arcos próprios. Isso não significa que eles não possam se encontrar em algum momento. A coleção com o Alexandre mostra como essas duas narrativas podem se aproximar de forma complementar, sem que uma apague a outra.
Os nossos personagens podem chegar a qualquer linguagem, desde que preservem as características, as personalidades e as peculiaridades que os tornaram tão queridos pelo público. Cabe a nós e aos nossos parceiros fazer essa curadoria, seja no audiovisual, nos palcos, nos parques, na arte contemporânea ou na moda. O Penadinho, por exemplo, pode falar de medo, morte e sobrenatural em qualquer formato, desde que mantenha o humor e a leveza que fazem dele um personagem tão brasileiro. É essa identidade que nos permite experimentar novas possibilidades sem romper o vínculo afetivo construído com o público.
Fotos: Divulgação