Dia da Igualdade Feminina: líderes falam sobre carreira, escolhas e vida pessoal

O dia 26 de agosto é marcado pelo Dia da Igualdade Feminina, data criada nos Estados Unidos a partir de um dos principais marcos da luta pelos direitos das mulheres no país. Foi nesse dia, em 1920, que a 19ª Emenda à Constituição norte-americana foi oficialmente certificada, proibindo que o direito ao voto fosse negado em razão do sexo. Décadas depois, em 1973, o Congresso dos Estados Unidos oficializou 26 de agosto como Women’s Equality Day.

Mais de um século depois daquele marco, a discussão sobre igualdade ganhou novas dimensões. No ambiente profissional, por exemplo, a presença feminina nos espaços de decisão continua no centro do debate. Relatório publicado pelo Fórum Econômico Mundial em junho de 2026 aponta que o avanço da paridade de gênero nos cargos de liderança sênior enfrenta obstáculos e exige mudanças também nas estruturas e nas condições em que a liderança é exercida.

Mas chegar às posições de liderança é apenas uma parte dessa conversa. Permanecer nelas enquanto se administram família, relacionamentos, interesses pessoais, saúde e as próprias expectativas traz outras questões. E uma palavra surge com frequência: equilíbrio. Não necessariamente como uma divisão perfeita do tempo, mas como uma construção que muda de acordo com cada fase da vida.

Neste Dia da Igualdade Feminina, o GLMRM reuniu Giovana Orlandeli, Ana Isabel de Carvalho Pinto, Priscila Pellegrini, Stephanie Wenk, Andrea Bartelle e Silvia Vidigal Ramos para falar sobre como enxergam essa relação entre vida pessoal, carreira e liderança.

Giovana Orlandeli: reconhecer prioridades em cada momento

Foto Divulgação

Para Giovana Orlandeli, diretora de Marketing e Branding de TRUSS, Eudora, Vult, Australian Gold e marcas growth, o equilíbrio passa menos por distribuir igualmente as horas do dia e mais por compreender o que demanda atenção em determinado momento.

“Aprendi que equilíbrio não é conseguir dividir o tempo de forma igual entre todas as áreas da vida, mas saber reconhecer o que precisa de mais atenção em cada momento. Para mim, o mais importante é respeitar meus limites, estabelecer prioridades e entender que não existe uma fórmula perfeita. Há momentos em que a carreira vai exigir mais de mim e outros em que a vida pessoal estará no centro. Liderar também passa por fazer essas escolhas de forma consciente, sem carregar a expectativa de dar conta de tudo, e ter tranquilidade para reconhecer que estou fazendo o melhor que posso dentro de cada contexto.”

Ana Isabel de Carvalho Pinto: quando propósito atravessa trabalho e vida

Foto: Vitor Affaro

Ana Isabel de Carvalho Pinto, fundadora da Shop2gether e Visionary, prefere não estabelecer uma fronteira rígida entre pessoal e profissional. Para ela, valores, experiências e propósito atravessam naturalmente os dois universos.

“Quando decidi empreender, o trabalho nunca foi, para mim, uma dimensão separada da vida. Sempre foi uma parte muito importante de quem eu sou, não apenas pelo prazer que encontro em fazer o que faço, mas principalmente pela possibilidade de exercer, através dele, um propósito no qual acredito. Por isso, nunca enxerguei minha vida pessoal e profissional como espaços que precisassem ser rigidamente divididos ou equilibrados. Elas sempre se atravessaram de maneira muito natural: as experiências, as relações e os valores da minha vida pessoal também estão presentes na forma como penso e tomo decisões profissionais. O que me guia é o propósito, e propósito não se fragmenta. Acho que o verdadeiro equilíbrio está justamente em conseguir viver todas essas dimensões com coerência, presença e verdade.”

Priscila Pellegrini: pequenos rituais em meio a uma rotina intensa

Foto Divulgação

Na rotina de Priscila Pellegrini, CEO da Holding Clube, alguns hábitos funcionam como pontos de apoio. Exercícios, momentos com a filha, espiritualidade e encontros com pessoas próximas ajudam a criar espaços pessoais em meio às responsabilidades profissionais.

“Para equilibrar uma vida profissional muito intensa com a vida pessoal, criei alguns rituais que são simples, mas exigem disciplina. O exercício é um deles. Procuro me exercitar todos os dias e só abro mão quando realmente é inevitável. É algo que me revigora, organiza meus pensamentos e faz com que eu comece o dia mais leve e produtiva.

Também faço questão de acordar cedo para levar minha filha à escola. É um momento muito nosso, em que conseguimos conversar, trocar sobre a vida e estar juntas antes de o dia começar. Depois, vou para a academia, me exercito e volto para iniciar a rotina de trabalho.

Minha espiritualidade também ocupa um espaço muito importante na minha vida. Tenho um compromisso semanal ao qual me dedico e que me ajuda a manter essa conexão e a colocar as coisas em perspectiva.

E, nos finais de semana, gosto de rituais ainda mais simples. Vou ao salão com a minha filha, colocamos a conversa em dia, vez ou outra fazemos uma massagem, passeio com o cachorro no Parque Ibirapuera, que hoje considero quase o meu quintal, e adoro receber amigos próximos em casa para jogar cartas. Sim, adoro jogar cartas! No fim, são esses pequenos momentos que me ajudam a desacelerar, estar perto das pessoas que amo e encontrar equilíbrio em meio a uma rotina intensa.”

Stephanie Wenk: repertório também se constrói fora do trabalho

Foto Divulgação

Para Stephanie Wenk, diretora criativa da SAUER, preservar interesses que ultrapassam o ambiente profissional também influencia diretamente a forma de criar e liderar. Arte, viagens e curiosidade fazem parte desse repertório.

“Acredito que preservar interesses e experiências para além do ambiente profissional também contribui para a forma como enxergamos e conduzimos o trabalho. Muitas das referências, inquietações e perspectivas que levamos para o dia a dia vêm justamente desse contato com o mundo. No meu caso, a arte, as viagens e a curiosidade sempre fizeram parte da minha trajetória e influenciam naturalmente a forma como penso, crio e exerço a liderança.

Também não acredito muito em equilíbrio como uma divisão perfeita entre vida pessoal e profissional. Existem momentos em que o trabalho exige mais, outros em que a vida pessoal precisa ocupar mais espaço. Para mim, o importante é não perder completamente nenhuma dessas dimensões e, sobretudo, não acreditar que ocupar uma posição de liderança exige abrir mão de tudo aquilo que nos forma fora dela.

Acho que, para as mulheres, existe ainda uma expectativa muito forte de conseguir dar conta de tudo ao mesmo tempo, e talvez seja justamente essa ideia que precise ser revista. Liderar também passa por entender prioridades, fazer escolhas e reconhecer que nem todos os aspectos da vida estarão em perfeito equilíbrio o tempo inteiro.

Procuro preservar espaço para aquilo que me desperta curiosidade e amplia meu olhar. Isso não está separado do trabalho; ao contrário, alimenta diretamente a maneira como eu penso. Ter repertório também passa por continuar vivendo, observando, conhecendo pessoas, lugares e outras formas de pensar. Para mim, esse contato com o mundo é parte essencial tanto da vida quanto da liderança.”

Andrea Bartelle: estar inteira onde escolheu estar

A ideia de escolha também aparece na reflexão de Andrea Bartelle, CEO de Barts&CO. Para ela, equilíbrio não significa estar em todos os lugares, mas compreender onde direcionar tempo e energia.

“Para mim, equilíbrio tem muito mais a ver com escolhas do que com uma divisão perfeita do tempo. A família é essencial para mim, mas também preciso sentir que o meu trabalho tem profundidade, propósito e que estou fazendo algo bem feito. Quando essas duas partes da minha vida estão bem cuidadas, eu me sinto equilibrada e em paz.

No trabalho, sou muito centrada nas pessoas. Gosto de construir junto, de estar perto, de ouvir e de formar times em que exista confiança e responsabilidade compartilhada. Aprendi também que não precisamos estar em tudo, nem fazer tudo sozinhas. Saber onde colocar nossa energia é parte importante da liderança.

Hoje, tento estar presente de verdade naquilo que escolhi viver, entendendo que as prioridades podem mudar ao longo do caminho.

Sucesso para mim não é conseguir estar em todos os lugares. É estar inteira onde escolhi estar.”

Sussu Vidigal Ramos: menos perfeição e culpa, mais escolhas conscientes

Foto: Iude

Para Silvia Vidigal Ramos, cofundadora da Index Conectada, maturidade e confiança ajudaram a transformar sua percepção sobre a conciliação entre carreira e vida pessoal. Mãe de quatro filhos, ela também aborda uma questão recorrente na experiência de muitas mulheres: a culpa.

“Para mim, encontrar equilíbrio entre a vida pessoal e profissional passa muito menos por tentar controlar tudo e muito mais por construir uma rotina possível e sustentável. Como líder, aprendi que isso também exige confiança: saber delegar, dividir responsabilidades e estar verdadeiramente presente em cada momento.

Com a maturidade, fui entendendo que esse equilíbrio não é fixo. Existem fases em que a carreira exige mais e outras em que a vida pessoal precisa ganhar mais espaço. Já vivi muita culpa por perder momentos da rotina dos meus filhos e sei que conciliar uma empresa, quatro filhos, marido, pais, amigos e ainda encontrar tempo para me cuidar não é fácil. Minha rotina sempre começou muito cedo, e essa disciplina me ajudou bastante.

Hoje, a maior recompensa é ver que meus filhos são meus grandes incentivadores e que se orgulham da minha trajetória. No fim, equilíbrio talvez seja justamente isso: fazer escolhas conscientes, sem buscar a perfeição e sem carregar tanta culpa, encontrando uma dinâmica que nos permita crescer profissionalmente sem abrir mão de quem somos e de quem amamos.”

Embora partam de trajetórias e rotinas diferentes, as seis falas se encontram em um ponto: equilíbrio dificilmente significa dar conta de tudo ao mesmo tempo. Priorizar, delegar, preservar interesses pessoais, criar rituais e aceitar que as necessidades mudam ao longo da vida aparecem como caminhos possíveis.

No Dia da Igualdade Feminina, a reflexão também amplia o significado de liderança. Mais do que ocupar espaços de decisão, ela passa pela possibilidade de construir trajetórias profissionais sem que o sucesso exija o apagamento das outras dimensões que formam cada mulher.

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