Para marcar a data, mulheres negras compartilham reflexões construídas ao longo da vida que podem inspirar outras a seguirem seus próprios caminhos
Celebrado em 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha homenageia a história, a ancestralidade e a força coletiva das mulheres negras. A data também convida à reflexão sobre as trajetórias de quem transformou desafios em potência, rompeu barreiras e abriu caminhos para que outras mulheres ocupassem espaços com mais representatividade, confiança e orgulho de sua identidade.
Esse legado continua sendo construído diariamente por meio de troca de experiências, da valorização das diferentes jornadas e do fortalecimento de referências que inspiram novas gerações. Afinal, muitas vezes, uma palavra de incentivo, um conselho ou um exemplo, têm o poder de transformar perspectivas e encorajar outras mulheres a acreditarem em si mesmas.
Para marcar a data, reunimos conselhos e reflexões sobre sonhos, identidade, autoconfiança e a importância de acreditar na própria trajetória. Inspiradas em suas próprias histórias, 6 mulheres compartilham mensagens que reforçam a importância de reconhecer o próprio valor, respeitar o tempo de cada trajetória e seguir construindo caminhos com autenticidade e coragem.
Luana Génot – Presidente e Diretora Executiva do ID_BR
“Sonhar grande, para uma mulher negra, muitas vezes exige primeiro desconstruir a ideia de que sonho pequeno é um sonho seguro. Cresci cercada por mulheres que, mesmo diante de tantas limitações, nunca deixaram de acreditar na importância da dignidade, do estudo, do trabalho e da coragem. Foi nelas que encontrei a força para seguir em frente e compreender que a nossa ancestralidade não é apenas memória, mas também direção.
Com o tempo, entendi que o problema nunca esteve no tamanho dos meus sonhos, mas nas barreiras que historicamente tentaram limitar as possibilidades das mulheres negras. Hoje, autoestima é reconhecer que faço parte de uma história muito maior do que a minha, construída por quem resistiu para que eu pudesse sonhar com mais liberdade. É essa consciência que me dá confiança para ocupar o meu lugar no mundo sem abrir mão de quem sou.”
Andrezza Cruz – Head de Gente e Sustentabilidade na FARM Rio
“Eu honro as mulheres da minha família. Ver quatro gerações de mulheres pretas realizando sonhos, se amando, celebrando suas potências, sorrindo, criando boas memórias, tem muito valor. Sonhar, realizar, ocupar espaços, ter certeza da minha potência, só é possível hoje, porque elas vieram antes. A minha avó e grande matriarca dessa família, andou de avião pela primeira vez aos 80 anos, junto da minha filha aos 2 anos. Isso é muito simbólico! Eu sou hoje, porque elas foram e, eu continuo movimento as estruturas.”
Karina Rodrigues D’Ornelas, gerente de sustentabilidade e relações governamentais da Riachuelo
“Uma pergunta que sempre me acompanha é: se a sua sobrevivência não estivesse em jogo, com o que você sonharia? Muitas de nós paramos de sonhar cedo demais, entendemos que escolhas eram um luxo e não um direito. Meu conselho é: volte para essa pergunta com frequência. Ela revela muito sobre quem você é, para além do que o mundo espera que você seja.
O meu trabalho é a minha missão, mas não cheguei até aqui por um caminho reto. Passei pelas artes, pelo direito, pela sustentabilidade, e cada mudança doeu, porque crescer dói. Se tivesse que resumir o que aprendi, seria assim:
A gente vai errar, e tudo bem. A vida não foi feita para ser fácil, mas cada desafio nos capacita. Tudo que vivemos vira capital, se a gente quiser — e pode ser reaplicado depois, em qualquer área.
Recomeçar nunca é do zero. Com o tempo, cada recomeço ganha mais sentido, porque a gente vai ficando mais madura e mais sagaz a cada rodada.
A gente não precisa jogar tudo para o alto antes de testar o novo. Dá para experimentar, se testar, sem precisar abandonar o que já conquistou.
Amor próprio é ter coragem para os próprios erros. É reconhecer que tudo que vale a pena tem um preço, e que vale investir em si mesma mesmo sem garantia de retorno imediato.”
Gizele Costa, head de Coca-Cola na agência Samba, da Holding Clube
“Esteja pronta.
Prepare sua saúde física e mental, aprimore-se tecnicamente o quanto puder e, acima de tudo, esteja pronta para quando tudo der certo, quando tudo der errado e quando tiver que recomeçar. Insista em preservar o seu jeito de existir e ocupar os espaços. Respeite-se.
Esteja pronta para viver um grande amor, se ele chegar e se você o quiser. Esteja pronta para ganhar dinheiro, para perder e ganhar de novo. Planeje viagens, independentemente de quando irá realizá-las.
Prepararam uma armadilha para a gente: o fardo, o peso, a escassez, o desamor, o não lugar. Meu conselho é reconhecer essa armadilha para não permitir que ela determine quem você é nem o tamanho dos seus sonhos.
Esteja pronta para quando tudo der certo.”
Ana Clara – Head de Pessoas e Cultura na Dengo
“Durante anos, o mundo insistiu em dizer às mulheres negras que éramos menos capazes, menos bonitas, menos inteligentes e menos merecedoras de ocupar determinados espaços. O maior desafio é não permitir que essa narrativa se torne a nossa verdade, porque ela limita sonhos, talentos e contribuições que fazem falta para toda a sociedade. Acredito que todos nós, pessoas negras e não negras, temos a responsabilidade de reconstruir essa história, ampliando oportunidades e criando ambientes onde cada pessoa possa desenvolver seu potencial, ser verdadeiramente acolhida e sentir que pertence.
Quando uma mulher negra encontra oportunidades, reconhecimento e pertencimento, ela pode romper com os limites que tentaram impor aos seus sonhos, ampliando o horizonte de toda uma geração.”
Francielen Rodrigues, Gerente de Estratégia da Salon Line
“Um conselho que eu deixo para outras mulheres negras é: não existe sonho grande demais para quem tem propósito, preparo e persistência. Muitas vezes, nossa caminhada exige mais esforço e resiliência, mas isso não torna nossos objetivos menos possíveis. Tenha clareza sobre onde você quer chegar, transforme seus sonhos em metas e dê um passo de cada vez, todos os dias. E, quando a conquista chegar, celebre. Vivemos em um ritmo acelerado, sempre pensando no próximo desafio, e acabamos esquecendo de reconhecer o quanto já avançamos. Celebrar quem somos e tudo o que conquistamos também é um ato de pertencimento, afinal, ocupar espaços, conquistar reconhecimento, construir patrimônio, fortalecer a autoestima e ter visibilidade também são direitos nossos. Ambição não deve ser vista como um excesso, mas como a coragem de acreditar que merecemos viver todo o nosso potencial. Que nenhuma mulher negra se sinta pequena diante dos próprios sonhos.”