Em um momento em que luxo, consumo e influência passam por uma transformação profunda, executivos, criadores e especialistas têm buscado novas formas de interpretar comportamento, desejo e relevância cultural. É nesse cenário que surgem as conversas do Lifestyle Contemporânea Talks, projeto idealizado por Eduardo Santos e Deny Peres dentro da programação da primeira edição do São Paulo Innovation Week.
Com uma agenda voltada aos novos códigos do consumo contemporâneo, os encontros propõem discussões sobre temas como wellness, second hand, agro couture, influência, comunidade e o papel das marcas em um mercado cada vez mais guiado por propósito, experiência e identidade. Em entrevista, Edu Santos e Deny Peres refletem sobre as mudanças que atravessam o universo do luxo, as diferenças do comportamento brasileiro em relação a outros mercados e os movimentos que devem redefinir o futuro do estilo de vida contemporâneo.
Como Eduardo Santos e Deny Peres definem o momento atual do luxo e do estilo de vida?
Neste momento é como se o mercado de luxo vivesse uma crise de identidade. Foi um longo ciclo do luxo como sinônimo de ter, de exibição, do logo que fala por você. O mercado passou anos subindo preços sem uma contrapartida real em criatividade ou qualidade. O consumidor cansou e agora o mercado de luxo está sendo obrigado a se reinventar e reconstruir a confiança do consumidor.
O que estamos vendo surgir no lugar é algo mais interessante: um luxo que se justifica pelo que entrega, não pelo que custa. 88% dos consumidores de alta renda já definem status pelo que sabem e sentem, não pelo que possuem. Isso muda a lógica da marca, a lógica do produto e também do desejo.
No Brasil, essa transição tem uma camada extra de complexidade e de oportunidade. A gente nunca foi um mercado de luxo convencional. Somos um mercado de aspiração e de identidade, e agora o mundo inteiro está chegando no lugar onde o Brasil já sabia navegar: o consumo como expressão de quem você é, não do quanto você tem no banco.
“Agro couture”, second hand e wellness já representam uma mudança estrutural no conceito de luxo?
Sim. E quem ainda está tratando esses movimentos como nicho ou tendência de momento vai ser pego de surpresa pela velocidade com que eles estão tomando espaço.
O mercado second hand cresce de duas a três vezes mais rápido do que o mercado de produtos novos. O second hand deixou de ser o plano B de quem não pode comprar novo e virou o plano A de quem entende de moda de verdade. As marcas que não definirem sua estratégia de resale até 2027 vão perder receita e, mais importante ainda, posição de percepção, especialmente para novas gerações.
O wellness segue a mesma lógica e compete pelo budget lado a lado com as marcas de roupas e acessórios de luxo. É uma reconfiguração completa de onde o dinheiro vai parar.
E o agro couture é o movimento mais brasileiro entre todos esses. É uma estética própria de luxo que não precisa olhar para Paris ou Milão para se validar. Em um mundo tão globalizado, a origem virou sinônimo de raridade e, consequentemente, de luxo.
Como vocês enxergam o papel das novas vozes — executivos, criadores e influenciadores — na construção de marcas relevantes hoje?
A separação entre quem lidera uma empresa e quem constrói a narrativa dessa empresa simplesmente deixou de existir. O CEO virou mídia proprietária da própria empresa e os que ainda não entenderam isso estão perdendo espaço.
Num mundo em que produto raramente é diferencial competitivo — afinal, a barreira tecnológica e de acesso hoje é muito menor — dominar os canais de distribuição da mensagem e aquisição de clientes é fundamental.
Mas tem uma diferença importante que a gente faz questão de trazer para o palco: influência não é alcance. As marcas que estão crescendo agora são as que conseguem ser relevantes para a audiência e têm comunidade real. Aparecer sem ter nada a dizer também não serve.
O que nos interessa no Contemporânea Talks é exatamente o cruzamento entre esses mundos: a executiva que usa sua autoridade para construir comunidade; e o criador que entende os desejos da sua comunidade e resolve somar também do outro lado do balcão. Esse mix não é só mais interessante para o palco, mas também o retrato de como o mercado funciona hoje.
Quais conexões ou diferenças chamam mais atenção entre o comportamento de consumo no Brasil e outros centros globais?
Uma diferença que a gente observa com clareza é o papel das redes sociais na decisão de compra. O consumidor brasileiro é um dos mais sensíveis do mundo a esse tipo de influência, não porque seja menos crítico, mas porque a cultura de recomendação, de comunidade e de referência social sempre foi muito forte aqui.
O feed é vitrine, editorial e boca a boca ao mesmo tempo. Isso acelera ciclos, cria marcas do zero em tempo recorde e derruba outras com a mesma velocidade. Nenhum mercado que a gente conhece tem esse ritmo.
Outra questão importante é que essa tendência de misturar cultura popular e luxo, identidade local e desejo global já é muito natural para o Brasil. Enquanto o mundo olha para isso agora como saída para essa crise, a gente já trabalha com esse olhar desde sempre. Isso joga holofotes para o Brasil e para tudo que produzimos carregando esse DNA, sem estereótipos.
O que a gente traz de volta de cada viagem é a certeza de que o Brasil não precisa imitar. O que falta agora é profissionalizar o lado de negócios, exportação e distribuição internacional para transformar potência criativa em potência comercial. Existe um gap real entre a força da estética brasileira e a capacidade de escalar essa história lá fora. E fechar esse gap é uma das conversas mais urgentes que o mercado precisa ter.