Nem sabia que estava faltando, por Barbara Bacchi


Existem lugares que a gente visita.

E existem lugares que fazem alguma coisa com a gente.

Cheguei ao Haras Larissa numa sexta-feira à tarde e, antes mesmo de reparar nos detalhes, aconteceu algo raro comigo:

eu senti uma paz imediata.

O cheiro de terra.
O verde por todos os lados.
Os cavalos.
Uma sensação gostosa de desacelerar sem precisar fazer esforço.

Como se eu tivesse saído do ritmo automático da vida por algumas horas sem nem perceber.

E talvez seja porque a gente se acostumou a viver rápido demais.

Rápido para responder, para decidir, para passar para a próxima coisa.

Até esquecer como é bom simplesmente estar.

O Haras tem história em todos os cantos.

Foi uma fazenda de cavalos ingleses da família Bordon, e isso aparece em tudo, mas de um jeito muito natural.

Nas obras espalhadas pela casa.
Nos objetos.
Nos móveis.

Nada parece ter sido colocado ali para impressionar alguém.

Tudo parece ter permanecido ali porque faz sentido estar.

E eu adoro lugares assim.

Lugares que têm memória.

Entrar na sede me trouxe uma sensação muito específica.

Não foi a decoração.

Foi a sensação.

Os objetos, a luz entrando pelas janelas e a atmosfera da casa me lembraram a casa de quando eu era pequena.

Não era parecido esteticamente.

Era uma sensação.

Aquele tipo de casa onde a vida acontecia devagar, onde as pessoas sentavam para conversar, onde existia aquela tranquilidade gostosa da infância que, em algum momento, a gente vai deixando para trás sem perceber.

Me lembrou uma época da vida que parecia mais simples.

Uma época em que existia aquela sensação gostosa de correr descalça por aí, passar o dia inteiro fora e voltar para casa sem ninguém ficar olhando o relógio.

Uma época em que parecia que a gente confiava mais.

Eu fiquei pensando nisso algumas vezes durante o fim de semana.

O hotel da sede, que recebe apenas convidados e não é aberto ao público, tem exatamente esse sentimento.

Você entra e se sente acolhida imediatamente.

Sem exagero.

Sem esforço.

Só aquela sensação rara de conforto.

E existem muitos detalhes que fazem você perceber que ali existe um cuidado verdadeiro com tudo ao redor.

Leon fez o passeio no Pônei Club, e foi um dos momentos que mais me tocaram.

Porque não é só uma volta no pônei.

As crianças aprendem a cuidar do animal, a escovar, a se aproximar, a criar vínculo.

Aprendem que não é sobre brincar alguns minutos e ir embora.

É sobre aprender a olhar para o outro.

A se envolver.

A entender que existe cuidado por trás das coisas.

Talvez por isso tenha me emocionado tanto.

Também existe um projeto muito bonito de cuidado e acolhimento dos animais.

Animais resgatados, vacas que produzem o leite, queijos e iogurtes, uma horta orgânica que abastece a mesa.

É uma vida acontecendo de verdade.

Não é uma experiência montada.

E talvez seja isso que faz diferença.

As casas também me chamaram muito a atenção.

São lindas.

Existe uma atmosfera que me lembrou aquelas propriedades inglesas do interior, quase como entrar em um filme.

E, ao mesmo tempo, existe a possibilidade de viver aquilo de uma forma muito pessoal, criando seu próprio espaço dentro daquele ambiente, quase como construir sua própria fazenda dentro da fazenda.

Em breve ainda chega o campo de golfe, trazendo mais uma experiência para quem vive ali.

Mas, curiosamente, nada disso foi o que ficou mais forte comigo.

O momento que ficou aconteceu numa noite de sábado.

Leon sentou ao piano e começou a tocar.

Nada programado.

Nada combinado.

Depois, eu, minha mãe e o Leon fomos para a grama olhar o céu.

E eu adorei a simplicidade daquele momento.

Três gerações deitadas na grama olhando estrelas.

E ali pensei numa coisa muito simples:

há quanto tempo eu não parava para olhar as estrelas?

Elas sempre estiveram lá.

Eu só tinha esquecido de olhar.

Voltei pensando nisso.

Passo minha vida criando negócios, marcas e experiências.

Mas talvez as coisas mais importantes sejam justamente aquelas que a gente não consegue planejar.

Um filho tocando piano.

Uma conversa com a sua mãe.

Alguém que você ama ao seu lado.

Um céu cheio de estrelas.

E também voltei com outra certeza:

eu quero voltar em breve.

Com mais tempo.

Para montar, saltar a cavalo e aproveitar tudo de novo, sem pressa.

Porque alguns lugares a gente conhece.

E alguns a gente leva embora com a gente.

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