
Desde pequena eu sou apaixonada por carros.
Daquelas crianças que acordavam no domingo para assistir à Fórmula 1.
Eu gostava dos pilotos, dos carros, da velocidade, de todo aquele universo. Em uma determinada fase, cheguei a decidir que, quando tivesse um filho, ele se chamaria Juan Pablo Montoya.
Não aconteceu.
Veio o Léon.
Mas a paixão pelos carros ficou.
Talvez por isso dirigir em Interlagos tenha tido para mim um significado que ia muito além de colocar um carro na pista.
Passar pelo S do Senna dirigindo foi especial.
Por alguns segundos pensei naquela menina que acordava aos domingos para assistir às corridas e em como algumas referências ficam guardadas dentro da gente durante anos até que, um dia, a vida encontra um jeito de devolvê-las de outra forma.
Nas últimas semanas, vivi esse universo em três experiências completamente diferentes.
E, curiosamente, o que mais ficou comigo não foram os carros.
Foram as pessoas.
Tudo começou no Elegant, plataforma criada pelo meu marido, João, que conecta marcas, experiências e pessoas que compartilham códigos e interesses.
A Stuttgart faz parte desse ecossistema ao lado de nomes como Pilatus, TAG Heuer e Veuve Clicquot.
Naquele dia, no Aeroporto Catarina, dirigi um Panamera.

Carros, aviões, relógios, champagne.
Universos diferentes, mas que conversam quando existe uma conexão real entre eles.
Eu gosto disso.
Gosto de entender os códigos por trás das coisas.
Porque acredito que repertório não é acumular referências.
É ampliar a quantidade de mundos que você consegue enxergar.
Pouco depois, fui convidada pela Stuttgart para viver a Porsche Cup em Interlagos.
E aí a menina dos domingos de Fórmula 1 apareceu de novo.
Dirigi na pista um 718 e um Taycan elétrico.
Dois carros completamente diferentes e duas formas de sentir a mesma marca.
Almocei no restaurante dos pilotos, acompanhei a movimentação das equipes e, durante uma das baterias da Porsche Cup, entrei no carro com um piloto para uma volta rápida.
Foi uma das experiências mais emocionantes que vivi nos últimos tempos.
A força da frenagem.
As curvas.
A velocidade.
A concentração absoluta.
E Interlagos.
De verdade.
Ali.
Saí do carro rindo.
Queria ir de novo.
Alguns dias depois, voltei ao autódromo.
Dessa vez, para o Porsche Club, patrocinado pela Stuttgart.
E levei o Léon.
Achei curioso pensar nisso.
Anos atrás, eu era a criança assistindo às corridas.
Agora estava chegando a Interlagos com meu filho pela mão.
E foi justamente nesse dia que comecei a olhar menos para os carros e mais para tudo o que existia ao redor deles.

O Porsche Club reúne proprietários de Porsches esportivos que se encontram ao longo do ano para levar seus próprios carros à pista.
Eles aceleram em Interlagos, aproveitam seus esportivos no ambiente para o qual foram concebidos e dividem essa paixão com outras pessoas que gostam das mesmas coisas.
Mas basta passar algumas horas ali para entender que a pista é apenas uma parte.
Enquanto alguns dirigem, famílias almoçam.
Crianças acompanham.
Amigos se reencontram.
Casais passam o dia juntos.
As pessoas conversam entre uma entrada e outra na pista.
E voltam.
A história da Porsche começa oficialmente em 1948, com o 356.
Existe uma história de Ferry Porsche de que ele procurava o carro dos seus sonhos e, como não o encontrava, decidiu construí-lo.
Gosto disso.
Alguém imaginou uma coisa que ainda não existia e decidiu fazê-la existir.
Poucos anos depois, surgiram os primeiros clubes formados por apaixonados pela marca.
Ou seja, quase desde o começo, o carro já não era apenas um objeto.
Era também uma maneira de aproximar pessoas.
Décadas depois, foi exatamente isso que encontrei em Interlagos.
Você chega olhando para os carros.
Depois começa a olhar para quem está ao redor deles.
Famílias.
Amigos.
Pais e filhos.
Pessoas que chegaram por uma paixão em comum e, encontro depois de encontro, construíram relações.
Uma comunidade de valores.
E eu acredito profundamente nisso.
Ter coisas em comum aproxima.
Compartilhar valores conecta.
Parece uma diferença pequena.
Não é.
Porque pertencimento não nasce simplesmente quando reunimos pessoas que podem comprar a mesma coisa.
Ele acontece quando elas se reconhecem.
Nos interesses.
Nos códigos.
Nas conversas.
Na forma como escolhem viver.
E talvez seja justamente aí que algumas marcas deixem de ocupar apenas nossas garagens, closets ou casas e comecem a ocupar um lugar na nossa história.
No Brasil, existe uma mulher que há 24 anos ajuda a construir isso pela Stuttgart.
Elaine Oliveira.
Confesso que, entre tantos carros extraordinários, fiquei muito interessada na história dela.
Porque automobilismo ainda é um universo que muita gente associa imediatamente aos homens.
E ali está uma mulher há mais de duas décadas construindo relações dentro dele.
Elaine conhece as pessoas.
Conhece as famílias.
Viu filhos crescerem.
Viu clientes se tornarem amigos.
Viu encontros virarem tradição.
Isso diz muito.
Porque reunir pessoas uma vez é relativamente simples.
Fazer com que elas queiram voltar durante 24 anos é outra coisa.
Exige consistência.
Cuidado.
Memória.
Relação.
Tempo.
Talvez comunidade seja menos sobre quantas pessoas você consegue reunir e mais sobre quantas sentem vontade de voltar.
Naquele dia, eu era uma dessas pessoas que tinha levado o filho.
Olhei para o Léon e pensei no quanto nossas experiências também constroem o repertório dos nossos filhos.
Não quero ensinar a ele o que deve desejar.
Quero mostrar mundos.
Apresentar pessoas.
Permitir experiências.
Dar repertório suficiente para que, um dia, ele possa escolher quais mundos fazem sentido para ele.
Porque você dificilmente escolhe aquilo que nunca conseguiu imaginar.
E foi aí que todas aquelas experiências começaram a se conectar na minha cabeça.
O Panamera no Elegant.
Pilatus, TAG Heuer, Veuve Clicquot e Porsche compartilhando códigos.
O 718 e o Taycan.
O S do Senna.
O almoço entre pilotos.
A volta rápida durante a Porsche Cup.
O Porsche Club.
Elaine.
As famílias.
Meu filho ao meu lado.
Parecia uma sequência de experiências sobre carros.
Mas não era.
Era sobre acesso.
Não o acesso de simplesmente estar em lugares onde poucas pessoas estão.
Falo de acesso como possibilidade de ampliar a própria vida.
Acesso a repertório.
A pessoas.
A conversas.
A experiências.

A mundos que talvez você nem soubesse que poderiam fazer parte da sua história.
Durante muito tempo, luxo foi contado principalmente pelo que alguém conseguia possuir.
Hoje me interessa muito mais o que acontece depois.
Aonde aquilo leva você?
Quem você encontra?
O que passa a conhecer?
Que repertório acrescenta à sua vida?
Que memórias constrói?
E com quem escolhe dividir tudo isso?
Eu continuo gostando dos objetos.
Gosto de carros.
Gosto de design.
Gosto de velocidade.
E aparentemente a menina que queria chamar o filho de Juan Pablo Montoya continua bastante viva aqui dentro.
Mas não acredito que o objeto seja o ponto final.
Talvez seja apenas a porta.
As marcas que realmente atravessam o tempo parecem entender isso.
Não basta criar algo que as pessoas desejem ter.
É preciso construir um universo no qual elas reconheçam alguma coisa de si mesmas, encontrem pessoas que façam sentido e tenham vontade de permanecer.
No domingo da Porsche Cup, passei pelo S do Senna e pensei por alguns segundos na menina que assistia à Fórmula 1 pela televisão.
Dias depois, saí do Porsche Club de mãos dadas com o Léon.
E talvez essas duas imagens expliquem melhor do que qualquer teoria o que ficou dessas semanas para mim.
Uma experiência me devolveu uma parte da menina que eu fui.
A outra me fez pensar no repertório que estou ajudando a construir para o menino que caminha ao meu lado.
No meio das duas estavam carros extraordinários.

Mas também estavam pessoas, histórias, valores e pertencimento.
Porque o produto cria desejo.
A experiência cria memória.
Mas são os valores que criam pertencimento.
E talvez seja justamente isso que fique depois do desejo.
Fotos: Arquivo Pessoal
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- colunista GLMRM,
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