Por Alan Victor
Belo Horizonte é daquelas cidades que se revelam à mesa, nas conversas sem pressa e nos encontros que atravessam seus bairros. A capital mineira reúne cultura, arquitetura, história e uma das cenas gastronômicas mais reconhecidas do país, marcada tanto pela tradição dos bares quanto por restaurantes que apresentam novas leituras dos ingredientes locais.
O roteiro cultural pode começar pela Praça da Liberdade, onde antigos edifícios públicos foram transformados em museus e espaços dedicados à arte, à ciência e à memória de Minas Gerais. Outro endereço essencial é o Conjunto Moderno da Pampulha, reconhecido como Patrimônio Cultural Mundial pela UNESCO, que reúne obras projetadas por Oscar Niemeyer, entre elas a Igreja de São Francisco de Assis e a Casa do Baile.
A cerca de 60 quilômetros da capital, o Instituto Inhotim, em Brumadinho, amplia a viagem com uma combinação singular de arte contemporânea, arquitetura, jardins e paisagismo. O percurso segue até Tiradentes, cidade histórica cercada pela Serra de São José, onde ruas de pedra, casarões coloniais e uma forte tradição gastronômica completam a experiência.
Entre Belo Horizonte e Tiradentes, reuni hospedagens, restaurantes e vivências que ajudam a entender por que Minas Gerais fica marcada muito além dos dias de viagem.
Fasano Belo Horizonte: design, conforto e identidade mineira
Localizado em Lourdes, um dos bairros mais tradicionais e bem posicionados da capital, o Hotel Fasano Belo Horizonte combina a hospitalidade característica do grupo com elementos ligados à arquitetura, ao design e à identidade de Minas Gerais.
O projeto, assinado pela Bernardes Arquitetura, utiliza materiais como madeira, pedra-sabão, tijolos aparentes e pátinas, criando ambientes elegantes sem romper a relação com o território. Peças de reconhecidos designers brasileiros complementam os espaços e reforçam o caráter atemporal da decoração.
A hospedagem escolhida foi a Suíte Deluxe, com 80 metros quadrados. A acomodação reúne quarto, sala de estar e lavabo, uma configuração que proporciona mais conforto, privacidade e funcionalidade durante a estadia. A cama king-size conta com enxoval de algodão egípcio de 300 fios e travesseiros de pluma de ganso. No banheiro revestido em mármore, banheira de imersão e chuveiro de alta pressão ampliam a sensação de bem-estar.
Mais do que uma acomodação espaçosa, a suíte traduz a proposta do hotel de aproximar o padrão de serviço da marca dos materiais, referências e texturas de Minas Gerais.
Glouton: a cozinha mineira sob o olhar de Leo Paixão
Comandado pelo chef Leo Paixão, o Glouton tornou-se uma das principais referências da gastronomia contemporânea de Belo Horizonte. A casa combina técnica francesa, ingredientes brasileiros e uma leitura autoral da cozinha mineira, construindo pratos que partem de sabores reconhecíveis para chegar a composições inesperadas.
O cardápio percorre diferentes referências sem perder a relação com o território. Entre as entradas, o guioza de pato chega acompanhado de gastrique de limão-cravo. A melancia é servida com costelinha de porco Duroc e molho tarê, enquanto a pastilla de queijo Minas recebe mel.
A seleção inclui ainda crudo de atum com leche de tigre amarillo e crocante de milho crioulo, além do crocante de fubá com jiló ensopadinho e ganache de milho-verde. São combinações que mostram como ingredientes tradicionais podem ganhar novas técnicas, texturas e apresentações sem perder sua identidade.
Entre os pratos principais, a vaca atolada reúne costela Angus semidefumada, mousseline de mandioca e tempura de peixinho-da-horta. Já a papada de porco é acompanhada de mil-folhas de mandioca, em uma construção que valoriza diferentes preparos de um ingrediente profundamente ligado à alimentação brasileira.
Para encerrar, o Pavê de Morango da Ary mantém o vínculo afetivo com as sobremesas de família. Outra opção é a Torta Caprese, com amêndoas torradas e chantilly, receita do Ninita, restaurante do chef instalado ao lado do Glouton.
A proposta mostra uma cozinha que conhece a tradição, mas não se limita a reproduzi-la. Leo Paixão utiliza técnica e repertório para renovar sabores ligados a Minas, sempre mantendo o produto no centro do prato.
Dona Lucinha: receitas que preservam a história de Minas
Fundado em 1990, o Restaurante Dona Lucinha permanece como um dos grandes representantes da culinária mineira em Belo Horizonte. A casa nasceu do trabalho de Dona Lucinha, cozinheira, pesquisadora e uma das principais responsáveis pela valorização e divulgação da cozinha tradicional de Minas Gerais.
Inspirado na cultura alimentar do período colonial, o restaurante preserva receitas e modos de preparo formados pelo encontro entre influências indígenas, africanas e portuguesas. O cardápio funciona como um registro da história do estado, apresentado por meio de ingredientes cotidianos, panelas, temperos e receitas transmitidas entre gerações.
Entre os clássicos estão pão de queijo, feijão-tropeiro, frango com quiabo e tutu de feijão, além de outras preparações que representam diferentes regiões e tradições culinárias mineiras.
As sobremesas típicas encerram a refeição com doces ligados às cozinhas familiares e aos antigos métodos de conservação de frutas e ingredientes. O resultado é uma experiência que vai além da variedade do cardápio: cada receita ajuda a preservar uma parte da memória alimentar de Minas Gerais.
Como ensinava Dona Lucinha, o primeiro ingrediente colocado na panela continua sendo o amor.
Mosque: sabores do Oriente em forma de presentes
Comandada por Gilma e Júlia Mourão, mãe e filha, a Mosque é uma confeitaria especializada em doces e presentes inspirados na gastronomia árabe e nos sabores do Oriente Médio.
A marca trabalha com tâmaras importadas e ingredientes cuidadosamente selecionados para produzir caixas, doces e criações artesanais enviadas para todo o Brasil. A apresentação é parte importante da proposta, transformando cada produto em uma opção para presentear ou marcar ocasiões especiais.
Entre os destaques estão as tâmaras recheadas com trufa de chocolate, pistache e flor de sal; figo com avelã; e mix de castanhas. O menu também reúne trufas com sabores inspirados no Oriente e bombons artesanais preparados com cobertura de chocolate 63% cacau e acabamento dourado pintado à mão.
A torta de tâmaras merece atenção especial. Preparada sem farinha, combina tâmaras, ganache de chocolate meio amargo e mix de castanhas. O resultado é uma sobremesa cremosa, de doçura equilibrada e textura marcada pela presença das frutas e oleaginosas.
Cremes de chocolate com damasco e tâmaras completam a seleção, reforçando a proposta de unir ingredientes orientais, confeitaria contemporânea e apresentação cuidadosa.
Tiradentes: história, paisagem e acolhimento
De Belo Horizonte, o roteiro segue até Tiradentes, uma das cidades históricas mais preservadas do Brasil. Aos pés da Serra de São José, o destino reúne ruas de pedra, casarões coloniais, igrejas centenárias, ateliês, lojas e restaurantes que ocupam construções integradas à paisagem urbana.
Caminhar ou andar de charrete elétrica pelo Centro Histórico são as melhores formas de conhecer a cidade. A arquitetura, os largos e as fachadas preservadas ajudam a contar uma história ligada ao ciclo do ouro, à formação de Minas Gerais e aos movimentos políticos do período colonial.
Ao mesmo tempo, Tiradentes desenvolveu uma cena própria de hotelaria e gastronomia, tornando-se um destino procurado tanto pelo patrimônio quanto pela qualidade das experiências oferecidas.
Tiradentes Boutique Hotel: exclusividade no Centro Histórico
A hospedagem escolhida foi o Tiradentes Boutique Hotel, integrante da curadoria do Circuito Elegante e reconhecido na seleção Suítes Mais Elegantes do Brasil 2026, na categoria Favorita do Viajante.
Com apenas 12 acomodações, o hotel está localizado no coração do Centro Histórico. As suítes têm entre 56 e 70 metros quadrados e foram concebidas para oferecer privacidade, conforto e uma relação próxima com a atmosfera da cidade.
A experiência é construída por meio de detalhes personalizados, aromas exclusivos, flores cuidadosamente escolhidas e um serviço atento ao perfil de cada hóspede. A escala reduzida permite um atendimento mais próximo, sem perder a discrição necessária a uma hospedagem intimista.
O café da manhã reúne quitutes regionais e preparos ligados à tradição mineira, funcionando também como uma introdução aos sabores encontrados ao longo da viagem.
A localização facilita os deslocamentos a pé pelas principais ruas e atrações do Centro Histórico, permitindo alternar momentos de descanso no hotel com caminhadas pela cidade.
Charretes elétricas apresentam uma nova forma de conhecer Tiradentes
Desde março de 2026, Tiradentes vem implantando charretes elétricas como uma alternativa aos antigos passeios realizados com tração animal. A iniciativa busca preservar o bem-estar dos animais e oferecer uma forma mais sustentável de percorrer o Centro Histórico.
O passeio do GG Charrete dura aproximadamente uma hora e apresenta ruas, construções, histórias e curiosidades da cidade. Durante o percurso, o visitante conhece Tiradentes por outra perspectiva, acompanhando explicações sobre o patrimônio e a formação do destino.
Além de facilitar o deslocamento pelas ruas de pedra, o passeio permite observar com mais atenção a arquitetura, os largos e a relação entre a cidade e a Serra de São José.
Barouk Choperia: sabores mineiros no Largo das Forras
No Largo das Forras, principal praça da cidade e ponto de partida para explorar o Centro Histórico, a Barouk Choperia apresenta uma cozinha inspirada na gastronomia mineira, com uma abordagem contemporânea.
A localização coloca a casa no centro do movimento de Tiradentes, cercada por construções históricas, lojas e vias que conduzem às principais atrações. O ambiente descontraído funciona bem para uma pausa ao longo do passeio ou para encerrar o dia acompanhado pelos sabores da região.
A proposta aproxima receitas e ingredientes mineiros de uma apresentação atual, sem romper o vínculo com a culinária local. É também um ponto privilegiado para observar o ritmo da praça e acompanhar o movimento da cidade.
Uma Minas que permanece
De Belo Horizonte a Tiradentes, a viagem revela diferentes expressões de Minas Gerais. Na capital, arquitetura, museus, restaurantes e bares mostram uma cidade criativa, ligada à tradição, mas aberta a novas leituras. Em Tiradentes, patrimônio, paisagem e hotelaria de pequena escala conduzem a um ritmo mais contemplativo.
O que une esses dois momentos é a maneira mineira de receber. Ela aparece no serviço atento de um hotel, na pesquisa por trás de um prato, nas receitas preservadas por décadas e na conversa que acompanha a mesa.
Minas não se resume a uma atração ou a um sabor específico. É justamente o encontro entre história, comida, paisagem e acolhimento que faz com que o roteiro permaneça com o viajante mesmo depois da volta para casa.