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Dez anos após o lançamento de Moda com Propósito, André Carvalhal retoma as transformações da indústria para refletir sobre o que ainda pode dar sentido, permanência e vida à moda. Em seu novo livro, Moda e Vida – Como dar vida à moda, o autor reúne 69 entrevistas com profissionais de diferentes áreas, das passarelas aos bastidores, para discutir criatividade, sustentabilidade, identidade, trabalho e os caminhos possíveis para o setor.

A obra encerra a trilogia iniciada com A Moda Imita a Vida e parte de uma provocação central: em um mercado que incorporou termos como propósito e sustentabilidade, como distinguir mudanças consistentes de movimentos passageiros? Em conversa com o GLMRM, André Carvalhal fala sobre o desgaste desses conceitos, o impacto do hiperconsumo, a importância do trabalho coletivo e as escolhas que podem construir uma moda mais coerente com a vida de quem cria e de quem consome.

Dez anos depois de Moda com Propósito, qual foi a maior transformação que você enxergou na indústria da moda brasileira?

Então, nesses dez anos, muita coisa aconteceu. E eu acho que tanto os conceitos de sustentabilidade quanto os de propósito acabaram se desgastando um pouco. O mercado, de uma forma geral, cooptou esses termos e usou muitas vezes de forma indevida. Então, a gente viu muita coisa acontecendo que não era verdade. A gente viu muita coisa relacionada a propósito e à sustentabilidade virando modinha, coisas que entraram na moda e depois saíram. Quando a gente fala de sustentabilidade social ou cultural, pessoas negras, pessoas gordas, diferentes etnias, localidades, a gente viu essas pessoas entrando na passarela e saindo da passarela, pessoas mais velhas também. E, da mesma forma, no desenvolvimento de produtos, muitas coisas sumiram. E aí, quando eu fui pensar nessa nova obra, que eu queria fazer alguma coisa que marcasse esses dez anos e que encerrasse essa minha trilogia de livros de moda, que eu iniciei com A Moda Imita a Vida, eu fiquei pensando que palavra hoje teria sentido para substituir tanto sustentabilidade quanto propósito. E aí me veio essa palavra “vida” na cabeça. Então, hoje, para mim, tanto sustentabilidade quanto propósito têm muito a ver com aquilo que gera vida. Eu não posso negar também que muitas coisas aconteceram e se sustentaram ao longo desse tempo. Então, no próprio livro eu entrevisto a Nalimo que foi a primeira marca autoral de moda indígena. Ela hoje permanece e cada vez mais forte se desenvolve. Eu acho que a gente, quando olha para o mercado de uma forma geral, vê que muitas marcas desenvolveram braços de sustentabilidade, iniciativas de sustentabilidade. Isso é inegável e eu acho que isso é muito bom.

Você entrevistou 69 pessoas para Moda e Vida. Houve alguma conversa que mudou a sua própria visão sobre o futuro da moda ou fez você rever uma convicção que tinha?

Olha, as perguntas são muito interessantes. Tem entrevista para rir, para chorar, para pensar. De uma forma geral, todas elas me despertaram muitas emoções, porque têm a ver com a vida das pessoas que fazem essa grande indústria. Algumas coisas me marcaram muito. Então, por exemplo, Jorge Grimberg, que é uma pessoa que fala sobre o futuro, fala sobre saúde mental relacionada à moda. Ele fala uma coisa que me marcou muito, que é que ele deseja um futuro onde ele não precise trabalhar tanto sozinho, que ele esteja trabalhando de forma mais coletiva. Eu acho que hoje a gente vive um momento, depois de toda uma tendência de colaboração, de muito isolamento. O trabalho remoto, as pessoas trabalhando de forma mais descentralizada, espalhadas pelo mundo, acabaram trazendo uma realidade onde muita gente trabalha sozinha e faz muitas coisas ao mesmo tempo, também precisa se desdobrar em mil. Então, o criador de conteúdo filma, edita, posta. A pessoa do estilo, da marca, cria a roupa, fotografa a roupa, veste a roupa, comunica a roupa. O dono da marca, o fundador da marca, a mesma coisa. Então, hoje eu acho que a gente se desdobra muito em muitas coisas e vai assumindo cada vez mais funções e trabalhando de uma forma cada vez mais individual. Esse também é um futuro que eu não desejo, e a entrevista do Jorge reforçou muito isso para mim.

Hoje a palavra “propósito” virou praticamente obrigatória no mercado. Como diferenciar uma marca que realmente vive seus valores de outra que apenas sabe comunicá-los muito bem?

Eu acho interessante quando a gente fala de propósito, porque eu concordo que é uma palavra mandatória. Mas, como eu falei na primeira pergunta, eu acho também que muita gente acabou ganhando um ranço, tem um ranço dessa palavra por conta de muitas marcas e pessoas que se apropriaram dela de forma não tão verdadeira. Eu acho que primeiro a forma da gente entender se o propósito é verdadeiro ou não é ver quem persiste com isso. A gente viu recentemente várias marcas voltando atrás das suas iniciativas de sustentabilidade, de diversidade e inclusão. Então, para mim, essas, por si só, são marcas que não tinham esse propósito como algo verdadeiro, porque eu acho que, quando você tem um negócio que tem propósito e passa por dificuldade, você abre mão do seu negócio, mas não abre mão do seu propósito. Isso aconteceu comigo algumas vezes na minha vida. Então, eu acho que as marcas que persistem no seu propósito já trazem um indicativo de que o propósito pode ser verdadeiro. E a outra coisa é a gente olhar para o todo, entender se o propósito não está isolado no produto, não está isolado na comunicação, não está isolado em uma determinada área da empresa, e se aquilo é coerente com o todo.

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Vivemos um momento de hiperconsumo impulsionado por redes sociais, microtendências e inteligência artificial. Você acredita que ainda existe espaço para uma moda mais consciente sem abrir mão do desejo?

Bom, você adivinhou uma pergunta que eu faço no livro. Eu pergunto para quase todas as pessoas no livro se elas acreditam na moda com propósito, se elas acreditam que ainda existe espaço para isso. A maior parte das pessoas diz que sim, e existe também um consenso que existe espaço para as marcas com propósito que são verdadeiras, porque cada vez mais o consumidor e o mercado entendem esses conceitos, estão mais sagazes em relação a eles e conseguem identificar o que é verdade e o que não é. As marcas que são verdadeiras conseguem persistir com esse propósito, sustentar esse propósito e conseguem se desenvolver, crescer cada vez mais.

Ao longo da carreira você passou por marcas como FARM, AHLMA e diversos projetos ligados à criatividade e sustentabilidade. Se estivesse começando hoje, em 2026, o que faria diferente para construir uma marca relevante?

Eu acho que eu trabalharia ainda mais de forma coletiva e colaborativa. Eu acho que esse foi o grande ganho da minha carreira, da minha vida. Esse livro é uma prova disso. É um livro feito, na verdade, por 70 pessoas: eu e mais 69, fora os fotógrafos que fotografaram as pessoas entrevistadas. Então, é um livro, na verdade, feito por mais de 100 pessoas. E não à toa eu acho que é um livro que carrega tanta emoção, tantos sentimentos, porque eu acho que não vem só de mim, não é só meu. Então, eu acho que isso seria uma coisa que eu, de fato, faria cada vez mais.

O livro encerra uma trilogia iniciada com A Moda Imita a Vida. Depois dessa jornada, qual é a principal mensagem que você espera deixar para quem trabalha com moda e para quem simplesmente consome moda?

Tem duas frases no livro que estão em destaque. Uma está na quarta capa e outra na orelha, e são mensagens, para mim, muito importantes, apesar de parecerem, à primeira vista, bem simples. A primeira delas é que o segredo da moda está na vida. Eu acho que, tanto para quem compra quanto para quem faz, como eu disse antes, se aquilo gera vida, aquilo é sustentável. Então eu acho que tudo que é autoral, tudo que é verdadeiro, tudo que se sustenta, mais do que uma modinha, mais do que uma estação, tem a ver com a vida das pessoas. Tem a ver com a vida das pessoas que estão fazendo e para quem aquelas coisas estão sendo feitas. E outra frase que eu gosto muito é que cada escolha conta uma história. Então, quando a gente acorda e escolhe a roupa que vai vestir, está falando alguma coisa com essa roupa. Quando a gente tem a nossa marca, quando a gente cria o nosso conteúdo, uma imagem de moda, enfim, seja lá o que for, tudo aquilo que a gente faz transmite uma mensagem para as pessoas. Muitas vezes essa mensagem não é tão objetiva, não é tão direta. Ela é mais subliminar, ou é um sentimento, e muitas vezes valida ou chancela se aquilo é verdade ou não.

“O segredo da moda está na vida.”

 

 

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