Mariana Nahas – Foto Divulgação

Imagine acordar depois de uma noite deliciosa de sono. Você espreguiça, sente o corpo descansado, tem vontade de levantar e começar o dia. Até que olha para o aplicativo e descobre que dormiu mal.

Pronto. Em poucos segundos, aquela sensação gostosa dá lugar à preocupação. O relógio diz que sua recuperação foi insuficiente e, de repente, você já não sabe se está tão bem quanto imaginava.

É curioso perceber como chegamos a esse ponto. Criamos tecnologias extraordinárias para compreender o funcionamento do nosso corpo, mas começamos a recorrer a elas até para confirmar aquilo que estamos sentindo. E essa pequena cena revela algo muito maior sobre a maneira como buscamos o bem-estar.

Nunca tivemos tanto conhecimento à disposição. Em segundos, acessamos pesquisas sobre neurociência, alimentação, hormônios, sono, longevidade e praticamente qualquer assunto relacionado à saúde. Um anel acompanha nossos sinais fisiológicos durante a noite. Um relógio monitora o coração. A inteligência artificial organiza informações que antes levaríamos dias ou anos para encontrar.

Há algo fascinante nessa evolução. E eu sou uma entusiasta das possibilidades que a ciência e a tecnologia estão abrindo para a humanidade.

Mas uma pergunta não sai da minha cabeça: será que estamos desenvolvendo nossa capacidade de bem viver na mesma velocidade com que desenvolvemos nossa capacidade de saber?

O universo do wellness talvez seja um dos lugares mais interessantes para observar essa contradição. Segundo o Global Wellness Institute, a economia global do bem-estar movimentou US$ 6,8 trilhões em 2024 e deve se aproximar de US$ 10 trilhões até 2029.

Existe uma necessidade coletiva por saúde emocional e um desejo imenso de viver mais, ter saúde, energia, disposição e equilíbrio. E nunca tivemos tantas possibilidades para isso.

Banhos de gelo, meditação, breathwork, terapias, retiros, suplementos, aplicativos, protocolos de longevidade. A cada temporada, uma nova prática desperta nossa curiosidade e promete acrescentar algo à qualidade da vida.

Mas será que paramos para perguntar o que realmente buscamos quando buscamos tudo isso?

Recentemente, pesquisadores passaram a chamar de ortossonia um fenômeno em que a preocupação com os indicadores ideais do sono pode acabar prejudicando o próprio descanso. Olha que interessante: criamos uma ferramenta para nos ajudar a dormir melhor e, dependendo da relação que estabelecemos com ela, podemos acabar perdendo o sono tentando alcançar a pontuação perfeita.

Não é a tecnologia que está errada. É o lugar que damos a ela.

E o mais curioso é que o próprio mercado começa a reconhecer essa tensão. Entre as tendências internacionais de wellness para 2026, o Global Wellness Summit destaca uma reação ao excesso de auto-otimização, com uma valorização crescente do prazer, das experiências sensoriais e da conexão humana.

Depois de tanto medir e controlar, estamos redescobrindo a importância de sentir.

Isso me encanta porque toca em algo que observo há muitos anos.

Ao longo de mais de duas décadas investigando a consciência aplicada à vida, uma das coisas que mais me surpreendeu foi perceber que compreender profundamente alguma coisa não significa necessariamente conseguir vivê-la.

Já acompanhei pessoas com um repertório imenso de conhecimentos sobre saúde, espiritualidade e autoconhecimento, que continuavam encontrando dificuldade para fazer escolhas coerentes com aquilo que sabiam.

E isso acontece com todos nós.

Sabemos que precisamos descansar, mas continuamos preenchendo cada espaço da agenda.

Conhecemos os benefícios da meditação, mas muitas vezes a utilizamos apenas para recuperar o fôlego e voltar à mesma correria.

Sabemos que nossas relações precisam de presença, mas seguimos adiando aquela conversa, aquele encontro, aquele abraço.

A informação chegou. A compreensão também. Mas alguma coisa ainda precisa acontecer para que esse conhecimento encontre expressão na vida.
Foi essa percepção que transformou profundamente a maneira como passei a compreender e ensinar o desenvolvimento humano.

O conhecimento pode mudar aquilo que pensamos. Mas uma transformação real precisa alcançar também a maneira como interpretamos a realidade, sentimos, escolhemos, criamos, nos relacionamos e vivemos.

E aqui entra uma pergunta que considero essencial para o futuro do wellness: a serviço de quê?

Queremos dormir oito horas para quê?

Claro que dormir bem é fundamental. Mas o que desejamos fazer com toda essa energia recuperada?

Ter disposição para trabalhar ainda mais, produzir mais e dar conta de uma agenda cada vez maior?

Ou também para estar com quem amamos, experimentar coisas novas, criar, dançar, viajar, namorar, brincar, aproveitar o prazer de simplesmente estar vivo?

Queremos meditar para conseguir suportar melhor a pressão ou também para desenvolver presença suficiente para perceber o que realmente importa?

Há uma diferença enorme entre utilizar o bem-estar para continuar sobrevivendo à vida que levamos e permitir que ele nos ajude a criar uma vida diferente.

E não precisamos transformar cada banho de gelo, cada caminhada ou cada noite de sono em uma missão de transformação pessoal.

O prazer de cuidar de nós mesmos já tem seu próprio valor.

O que não podemos perder é a perspectiva do todo.

Porque somos muito mais do que um organismo que precisa funcionar perfeitamente. Somos seres que desejam amar, pertencer, experimentar, expressar, descobrir e criar.

E a vida acontece justamente nesse encontro entre o que somos e aquilo que conseguimos viver.

Acredito que um dos próximos grandes avanços do wellness será aprender a integrar todas essas descobertas à complexidade da experiência humana.

Não apenas oferecer mais ferramentas para melhorar nossos indicadores, mas ampliar nossa capacidade de fazer escolhas que transformem a qualidade da vida cotidiana.

Isso significa reconhecer que a saúde não está apenas nos protocolos que seguimos, mas também nas relações que cultivamos, nos ambientes que habitamos, na liberdade que sentimos para ser quem somos e no espaço que damos àquilo que nos faz felizes.

A tecnologia pode nos ajudar a conhecer melhor o corpo. A ciência pode revelar caminhos extraordinários para cuidar dele. As tradições ancestrais podem ampliar nosso repertório de práticas e experiências.

Mas somos nós que precisamos descobrir o que fazer com tudo isso.

E há algo muito bonito nessa possibilidade.

Depois de tantos anos buscando respostas sobre como viver melhor, estamos diante da oportunidade de transformar esse conhecimento em uma maneira mais consciente, prazerosa e inteira de estar no mundo.

Talvez a grande questão já não seja descobrir tudo o que ainda precisamos aprender para melhorar nossa vida.

Talvez seja perceber quanta vida ainda podemos criar com tudo aquilo que já sabemos.

É com esse olhar que nasce esta coluna. Um espaço para explorar o universo do wellness por uma grande angular.

Vamos conversar sobre descobertas científicas, longevidade, comportamento, tendências, inovação, saúde, espiritualidade, cultura, relações humanas e movimentos que estão transformando a maneira como vivemos.

Mas quero ir além de apresentar o que existe de novo. Quero investigar o que essas mudanças revelam sobre nós.

O que estamos buscando quando buscamos bem-estar?

O que o avanço da tecnologia nos permite conquistar?

O que podemos reaprender com a natureza?

E de que maneira uma consciência mais ampla pode transformar não apenas nossos hábitos, mas a qualidade das nossas escolhas e das nossas relações?

Acredito que estamos diante de uma oportunidade muito maior do que o crescimento de uma indústria.

Estamos diante da possibilidade de ampliar nossa compreensão sobre o que significa estar vivo.

Porque viver bem não é simplesmente somar práticas saudáveis a uma rotina que continua nos afastando de nós mesmos.

É criar uma vida em que saúde, presença, relações, prazer, propósito e liberdade possam encontrar espaço para existir.

E, quem sabe, a pergunta mais importante para esse novo tempo não seja quantos anos ainda podemos acrescentar à vida.

Mas quanta vida somos capazes de colocar nos anos que temos.


GRANDE ANGULAR

Uma coluna de wellness com informação, discernimento e visão autoral.
O mundo está mudando a maneira como compreendemos saúde, longevidade e bemestar. Novas tecnologias, descobertas científicas e conhecimentos ancestrais ampliam
nossas possibilidades, mas também nos convidam a questionar o que realmente
transforma a qualidade da vida.
É nesse encontro entre tendências, conhecimento e novas perspectivas que nasce Grande
Angular.

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