
Em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, até o dia 4 de setembro, o monólogo “Selvagem” coloca Gabriela Rosas diante de um dos papéis mais intensos de sua trajetória. Com direção de Fernando Philbert e adaptação do romance homônimo de Marília Passos, finalista do Prêmio Jabuti em 2023, a atriz interpreta Mariana, uma obstetra brasileira que decide abandonar uma vida que já não a representa para atuar em uma missão humanitária dos Médicos Sem Fronteiras no Sudão do Sul. Em meio à violência, ao desconhecido e a uma paixão arrebatadora, a personagem embarca em uma jornada de autoconhecimento que questiona amor, maternidade, liberdade e os limites do corpo feminino. Em conversa com o GLMRM, Gabriela fala sobre os desafios de viver essa mulher em transformação, a potência do monólogo e as reflexões que “Selvagem” provoca sobre coragem e reinvenção.
Mariana decide romper com uma vida aparentemente estável e se lançar ao desconhecido. O que mais te tocou nessa escolha da personagem e o que você aprendeu com ela ao longo do processo?
O que mais me tocou foi a coragem dela. A Mariana vai quase num impulso de sobrevivência. Sinto que, se ela ficasse, se continuasse vivendo aquela vida sem prazer, sem desejo, de alguma maneira ela morreria.
Eu estava num momento em que a Gabriela, atriz de teatro, praticamente não existia mais. Além de me dedicar à minha vida familiar, eu estava trabalhando com locuções e começava a me aprofundar nos estudos de dublagem e a dar os primeiros passos nessa área, que venho descobrindo e gostando muito. Mas comecei a sentir muita falta do teatro, e isso começou a me angustiar. Eu sentia falta de construir uma personagem, de estar numa sala de ensaio, de subir num palco com aquele friozinho na barriga e de falar sobre algo que pudesse tocar as pessoas, que provocasse alguma reflexão.
Marília Passos, autora do livro, e eu fomos nos aproximando e vimos que tínhamos um desejo em comum: queríamos montar uma peça. Então, entregamos “Selvagem” ao diretor Fernando Philbert, que era alguém com quem eu queria muito trabalhar. Na nossa primeira reunião, ele disse que aquela história teria que ser um monólogo, porque o que mais importava ali era a trajetória daquela mulher. Foi aí que a minha coragem teve que aparecer! Um monólogo depois de ficar um tempo afastada do teatro? Morri de medo, mas encarei. Acho que coragem é justamente isso: não é não ter medo, é seguir apesar dele.
E o resultado tem sido ainda mais prazeroso porque eu sei o caminho que percorri para chegar até aqui. Hoje, olhar para esse percurso, estar no palco novamente e perceber tudo o que “Selvagem” me devolveu como atriz tem um significado muito especial para mim.
“Selvagem” é um monólogo extremamente íntimo, em que a relação entre atriz e público fica ainda mais exposta. Como foi construir essa conexão e sustentar, sozinha em cena, tantas camadas emocionais?
É bem íntimo mesmo! A troca é constante. Eu não saio do palco e estou sozinha ali o tempo todo. A construção dessa conexão e de tantas camadas emocionais foi sendo elaborada aos poucos, em sala de ensaio, sempre com o direcionamento e o olhar atento e generoso do Fernando. A condução dele foi fundamental.
Começamos lendo muito e conversando sobre a Mariana. Fomos adaptando o texto junto com a Marília e, em todos os ensaios, a Monique Ottati propunha trabalhos corporais. Foi um processo muito especial, em que cada ensaio ia revelando uma nova camada da personagem.
Muita gente se impressiona com a quantidade de texto que eu decorei e me pergunta como consegui, mas a verdade é que essa não é a parte mais difícil. Quando todo aquele universo interior existe, faz sentido dizer aquelas palavras. Elas precisam sair para expressar o que se sente. Acho que o maior desafio é estar inteira ali, independentemente de como foi o meu dia, e, ao mesmo tempo, estar aberta para a troca com a plateia.
E tem uma coisa que o público me fala muito e que me deixa especialmente feliz: que, à medida que a Mariana vai contando sua história, eles conseguem visualizar aqueles lugares, aquelas situações e sentem como se estivessem na África junto comigo. Acho que é aí que essa conexão se completa. Estou sozinha no palco, mas, de alguma maneira, a plateia vai comigo nessa viagem.
A peça aborda temas muito atuais, como maternidade, sobrecarga mental, violência contra a mulher e as pequenas violências do cotidiano. Como você acredita que essas questões atravessam Mariana e também podem atravessar quem está assistindo?
Todas essas questões atravessam a Mariana de maneira intensa e visceral. O público acompanha sua indignação com temas como a sobrecarga feminina na maternidade já no início, e muitas mulheres se identificam logo ali porque, infelizmente, isso faz parte da vida da maioria. Há também a questão de como, dentro de uma relação, um dos dois pode ir, aos poucos, se apagando, e sinto que isso ainda acontece muito mais com as mulheres.
Quando ela chega à África, porém, a violência ganha uma outra dimensão. A guerra, a violência contra as mulheres, a falta de recursos e a situação extrema em que aquelas pessoas vivem colocam Mariana diante de uma realidade que ela nunca tinha experimentado. E acho que o público faz esse percurso junto com ela. Infelizmente, sabemos que situações como as da peça estão acontecendo hoje, em diferentes lugares do mundo. No teatro, aquilo que muitas vezes chega até nós como uma notícia distante ganha corpo. Através do olhar da Mariana, o público consegue visualizar aquela realidade, estar ali com ela e ser atravessado por essas histórias de uma maneira muito mais próxima.
E acho que esse contraste também é muito importante na trajetória dela. A Mariana sai de uma vida confortável, mas na qual estava se apagando, e chega a um lugar onde se depara com pessoas vivendo situações extremas, lutando diariamente para sobreviver. Uma experiência dessas faz com que ela passe a olhar para a própria vida de outra maneira. Acho que isso transforma a Mariana e também acaba provocando o público.
Mariana vive uma paixão intensa por Nino, mas a grande transformação da personagem acontece quando ela percebe que precisa olhar para dentro. Você acredita que, na vida real, grandes amores também podem funcionar como catalisadores de mudanças?
Acredito muito. Grandes amores são intensos, nos tiram do controle e acabam, justamente por isso, nos “obrigando” a conhecer aspectos profundos do nosso ser mais íntimo.
Acho que Nino tem esse papel na trajetória da Mariana. A paixão desperta nela um desejo e uma vitalidade que estavam adormecidos. Mas Nino é um catalisador, não é o responsável pela transformação dela. Ao longo dessa experiência, Mariana vai olhando cada vez mais para dentro e descobre a própria força. Nino desperta algo, mas a transformação é dela.
Para interpretar uma obstetra que atua em uma missão humanitária em um país devastado pela guerra, certamente houve uma preparação especial. Que pesquisas, referências ou experiências foram importantes para você construir essa mulher e tornar esse universo crível no palco?
Sem dúvida. Como a Marília já tinha feito uma vasta pesquisa para escrever o livro, o próprio romance e a Marília acabaram sendo minhas primeiras fontes. Depois, li muito sobre o Sudão do Sul, a guerra civil, os conflitos… Passei a entender um pouco mais sobre algumas etnias, suas crenças e valores. Li inúmeros relatos de médicos que fazem parte da organização Médicos Sem Fronteiras, assisti a entrevistas e também vi filmes de ficção. Foi um processo muito enriquecedor.
Em maio, antes do início dos ensaios, também tive a oportunidade de conhecer o coronel Rafael Almeida, que trabalhou como observador militar da ONU no Sudão do Sul, justamente no período em que eclodiu a guerra civil na região. Ele me contou sobre sua experiência como facilitador de ajuda humanitária e proteção de civis, mostrou fotos, vídeos e compartilhou seu relato pessoal. Como ele também é doutor em Políticas Públicas e especialista em História Militar, foi fantástico estar com alguém que viu tudo de perto e conhece profundamente a história desses países e seus conflitos.
Esse encontro também me proporcionou uma visita ao CCOPAB, aqui no Rio de Janeiro. Conheci militares que atuam em missões de paz da ONU, vi a base onde eles são treinados e pude entender mais de perto a seriedade e a dimensão desse trabalho. Lá, eles têm réplicas das estruturas usadas nas missões, então pude ver de perto como são os contêineres onde dormem, tomam banho, fazem as refeições… e comparar essa estrutura com a dos Médicos Sem Fronteiras. Tudo isso foi fundamental para que aquele universo deixasse de ser apenas algo que eu tinha lido e passasse a ganhar imagens, referências e uma realidade muito mais concreta para mim.
A peça fala, sobretudo, sobre coragem para mudar. Olhando para a sua própria trajetória, houve algum momento em que você precisou “se lançar ao desconhecido” para se reencontrar? E o que você gostaria que o público levasse consigo depois de assistir a “Selvagem”?
Sim! Já tive momentos de grandes mudanças e também de pequenas. Já mudei de país para estudar teatro, já mudei de cidade para aceitar um trabalho e também mudei de volta quando aquilo deixou de fazer sentido, sem saber exatamente no que ia dar. Mas, sem dúvida, estar no palco com este monólogo foi um ato de muita coragem para mim.
Fico feliz quando penso que me lancei com tudo, com receios e inseguranças, mas, principalmente, com muita coragem e entrega. O processo foi muito enriquecedor e o resultado está sendo extremamente gratificante. É lindo ver a história realmente chegar ao público. Muitas pessoas vêm falar comigo ao final, com os olhos marejados, trocam experiências comigo, contam suas próprias histórias, e isso me faz perceber mais uma vez como a arte é fundamental para nós.
Eu gostaria que o público saísse de “Selvagem” atento ao mundo em que estamos vivendo, às realidades tão cruéis que existem ao nosso redor, mas também atento ao que acontece dentro de si. Aos sentimentos, aos pensamentos recorrentes, às angústias e insatisfações que às vezes vamos deixando de lado.
Acho que todos nós temos uma espécie de bússola, ou talvez um alarme interno, que apita quando alguma coisa já não faz sentido e precisamos nos mover. Nem sempre sabemos para onde esse movimento vai nos levar, e talvez seja justamente aí que entre a coragem.
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