
Entre a atuação e o empreendedorismo, Alana Ferri construiu uma trajetória marcada pela capacidade de transformar desafios em novos caminhos. Atualmente em cartaz no Globoplay com o filme C.I.C., a atriz também está à frente da Vulva Way, agência de viagens exclusiva para mulheres que nasceu a partir de um projeto idealizado em Trancoso e se transformou em uma comunidade com mais de 1.500 participantes.
Nesta conversa, Alana relembra o “não” que acabou mudando os rumos de sua carreira, fala sobre a construção da Vulva, reflete sobre coragem, liberdade e independência feminina, além de comentar a repercussão de seu primeiro papel de destaque no cinema.
Você construiu uma carreira na atuação e, no meio do caminho, criou uma empresa que virou parte da sua identidade. A sua principal virada veio justamente depois de uma porta fechada. Hoje você agradece por aquele “não”?
Olha, é difícil agradecer por um não em algo que eu queria muito. Era um papel que envolvia dança e tinha um valor especial para mim, porque eu me sentia muito apta para fazê-lo. Então foi difícil ouvir aquele não.
Hoje eu não diria que agradeço ao não em si. Eu agradeço a mim mesma pelo que fiz a partir dele. Foram três testes, então criou-se uma expectativa, uma esperança. Quando isso é frustrado, dói.
Eu lembro que, naquele momento, a minha reação foi de dor, mas também de insistência. Eu pensava: “Não, eu vou fazer essa novela”. Ao mesmo tempo, não deixei que aquilo me paralisasse. Fui criar o meu projeto.
Meses depois, quando eu estava lançando esse projeto, fui convidada para fazer a novela em outra personagem. No fim, eu fiz a novela. Então aquele não acabou se transformando em um sim para outra coisa. E também existiu o sim que eu mesma criei nesse período. Hoje eu sou muito grata por ter criado esse sim para mim.
Conta um pouco mais sobre o processo e o resultado da Vulva. Depois do teste da novela que não deu certo, por quais etapas você passou até chegar onde está?
Desde o momento em que decidi criar um hostel só para mulheres, reformulei a ideia e pensei: não vai ser apenas um hostel feminino, vai ser um hostel feminista.
A partir daí eu sabia que precisava de um nome, de uma identidade e de uma comunicação fortes. Todo esse processo passou por mim. Desde a reforma do espaço até os itens do enxoval, tudo teve a minha participação.
Costumo dizer que foi desde comprar a lixeira até escrever nela, com caneta permanente, a palavra “patriarcado”, como parte da mensagem que queríamos comunicar. Tudo passou por mim.
Foram meses de dedicação para abrir o espaço. E, depois que ele abriu, começou uma nova fase de trabalho: fazer com que as mulheres soubessem que aquele lugar existia. Então iniciei um trabalho muito forte de marketing.
Depois veio o desafio de manter e expandir. Foi assim que, a partir do hostel, nasceu a agência de viagens. Eu queria estar em todos os lugares onde as deusas quisessem que eu estivesse. Pelo Brasil, pelo mundo inteiro, se depender delas. E, se depender de mim, também.
Você convive com mulheres que largaram empregos, terminaram relacionamentos, mudaram de cidade e viajaram sozinhas pela primeira vez. O que elas te ensinaram sobre coragem?
Acho que a coragem é uma escolha.
Você não precisa estar se sentindo corajosa para ter uma atitude de coragem. Muitas vezes é justamente esse ato que faz você se sentir corajosa depois.
Essas mulheres, muitas vezes, estão vivendo momentos de muita dor e escolhem sair daquela situação. Acho que esse é o aprendizado para todas nós: aprender a se escolher.
Escolher a si mesma exige coragem. E é isso que elas me ensinam todos os dias.
Enquanto muita gente associa liberdade a sucesso ou dinheiro, você trabalha diariamente com mulheres que estão buscando isso de outras formas. O que a palavra liberdade significa para você hoje?
Eu acredito que nós, mulheres, precisamos de independência financeira. Não existe liberdade quando você depende totalmente de outra pessoa para viver. Então esse é o primeiro passo.
Depois disso, liberdade significa poder de escolha. E também o poder de fazer alguma coisa pelo simples prazer de fazer.
Eu acho que nós mulheres ainda temos pouca intimidade com essa ideia de fazer algo apenas porque gostamos. Por isso eu sempre pergunto para as deusas: você tem algum hobby? Você já tentou algum esporte? Porque você não precisa ser boa para fazer alguma coisa.
Nós temos uma viagem para aprender kitesurf. Muitas mulheres chegam com a expectativa de fazer tudo perfeitamente, o que é natural quando estamos aprendendo algo novo. Mas você pode fazer aquilo apenas pela diversão.
Eu mesma nunca me considerei uma grande praticante de kite. Continuei praticando porque gostava. E foi justamente isso que deu origem à primeira viagem da agência.
Se eu não tivesse continuado fazendo aquilo pelo prazer que me proporcionava, esse projeto não existiria hoje. Então liberdade, para mim, também é isso: ser livre o suficiente para fazer algo simplesmente porque aquilo te faz feliz.

Existe uma pressão para que atrizes sejam vistas apenas como artistas? Você sentiu algum preconceito quando começou a empreender? Sente que uma carreira esbarra na outra de alguma forma?
Eu acho que sim, embora isso esteja distante da realidade da maioria dos artistas.
No começo eu tinha receio de mostrar os meus negócios, a minha rotina como empreendedora e empresária. Mas eu não posso permitir que uma visão limitada me impeça de mostrar toda a minha capacidade criativa.
Se você olhar com atenção para a Vulva, vai perceber o quanto existe de criatividade ali. O quanto existe da artista naquele projeto.
Então eu não sou uma coisa ou outra. Eu sou as duas coisas integralmente. Sou atriz e empresária ao mesmo tempo.
Você passa boa parte do tempo incentivando mulheres a ocuparem espaços. Existe algum espaço que você mesma ainda sente dificuldade de ocupar?
Eu acho que ainda posso me apropriar mais do lugar que ocupo como empresária, empreendedora, atriz e também na vida de muitas mulheres.
Nós, mulheres, temos dificuldade de ocupar espaços por causa da forma como fomos socializadas. Existem estudos que mostram que homens costumam se perceber como mais capacitados do que realmente são, enquanto as mulheres fazem justamente o contrário.
Por isso eu acredito que nós precisamos ocupar os espaços que merecemos ocupar.
Quero continuar incentivando outras mulheres, mas também a mim mesma, porque esse é um processo longo. Um processo de aprender a nos enxergar com toda a nossa capacidade.
Sendo mais prática, como funciona a Vulva? O que vocês oferecem além do hostel e como participar?
Eu gosto de me referir à Vulva no feminino: a comunidade Vulva.
Além do hostel em Trancoso, que é o nosso único espaço físico, nós temos a Vulva Way, uma agência de viagens exclusiva para mulheres.
Também temos grupos de WhatsApp que já reúnem mais de 1.500 deusas. São espaços onde trocamos dicas de viagem e diversos outros assuntos. Eu costumo chamar esses grupos de nosso clubinho feminista de viagens.
É realmente uma comunidade, tanto física quanto virtual.
Todas as viagens da Vulva Way têm um propósito. Mesmo uma viagem de Réveillon, como a Virada das Deusas, tem o objetivo de proporcionar a experiência de estar entre mulheres e em um ambiente seguro.
Temos viagens para a Chapada dos Veadeiros, viagens para Trancoso com programação voltada ao autoconhecimento, outras focadas em praias e lazer, além da nossa Kite Trip, no Ceará, para mulheres que querem aprender kitesurf.
Todas as viagens têm uma proposta específica.
E para participar é muito simples: basta entrar em contato pelo link da bio do Instagram, que direciona para o nosso WhatsApp. Lá a equipe tira dúvidas, conversa sobre inseguranças, explica todos os detalhes e ajuda na reserva da viagem.
Agora vamos para a sua carreira de atriz. C.I.C. acaba de chegar ao Globoplay! Como está sendo a repercussão do filme para você?
A repercussão tem sido muito positiva. Esse foi o meu primeiro papel de destaque e a minha primeira protagonista no cinema, então sinto que realmente pude mostrar o meu trabalho como atriz, e isso foi visto pelas pessoas. Isso me deixa muito feliz.
Uma das coisas que eu mais desejava durante a preparação da personagem era que o público acreditasse naquela construção. Eu estudei bastante e me dediquei muito ao sotaque argentino da Mikaela. Um desejo que eu tinha era que as pessoas ficassem na dúvida se eu era brasileira ou argentina.
E isso realmente acontece. Eu recebo muitas mensagens de pessoas que assistiram ao filme e ficaram em dúvida, ou que achavam que eu fosse argentina até entrarem no meu perfil e descobrirem que sou brasileira.
Então essa é uma repercussão que me deixa especialmente feliz, porque mostra que todo o trabalho de preparação da personagem funcionou.
E já tem algum novo projeto em vista? Algo que você possa adiantar ao Glamurama?
No momento eu não estou envolvida em nenhum projeto como atriz.
Mas quero aproveitar para convidar todos que estão lendo a assistirem ao filme no Globoplay, acompanharem o meu trabalho nas redes sociais e, especialmente as mulheres, conhecerem a Vulva.
Eu estou sempre criando, buscando expandir esse projeto e encontrando formas de alcançar cada vez mais mulheres.
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